Desde Narciso, ver-se é um dos mais profundos desejos do ser humano: como disse Caetano, ele (Narciso) acha feio o que não é espelho.
Apesar dessa generalização que acabamos de cometer, defendemos a tese de que toda generalização destrói o argumento, o que limita a compreensão da realidade, mais especificamente a nossa, de hoje, e sua simplicidade tão complexa.
Foto: Unsp
Há quem discorra sobre o fim da fotografia como antigamente e argumente que fotografamos num ritmo frenético para depois esquecermos as imagens e nunca mais olhá-las.
Outros ainda romantizam as cartas escritas à mão e despachadas pelos correios, ou os jornais impressos. Tem até quem publique em redes sociais vídeos mostrando casas de adobe (taipa), mulheres usando ainda pilões ou moinhos manuais para processar o arroz e o milho, geralmente com repetidas afirmações do tipo: "Éramos felizes e não sabíamos", ou: "Antigamente é que era bom", ou ainda: "Bons tempos que não voltam mais".
Quando se faz uma afirmação dessas em razão de uma memória afetiva ligada a pessoas e espaços que fizeram parte do convívio no passado, trata-se de uma experiência de saudade. Porém, quando se refere a um modo de vida inteiramente
Mohamed Nohassi
Reiteradas falas pseudoproféticas acerca do inevitável domínio da IA sobre a inteligência humana, da perda de postos de trabalho para as máquinas inteligentes, da radicalização do individualismo e da desumanização aparecem aos borbotões, no mais das vezes por quem, se lhe retirarem a tela, perde-se da realidade.
É óbvio que, em toda a história, os avanços e descobertas causaram e causam desconfiança e resistência. O novo e a mudança obrigam à quebra de valores e conceitos arraigados. Porém, como nos ensinou Belchior, "o novo sempre vem", e nos cabe compreendê-lo para distinguir o que é bom daquilo que deve, de novo, ser mudado.
As nossas famigeradas telas nos aproximaram ainda mais e, naturalmente, potencializaram a níveis inimagináveis o mesmo bem e o mesmo mal que sempre habitaram o homem.
Foto: Gabriel Benois
Se hoje se repete *ad infinitum* que tudo é imediato e descartável, na verdade nunca deixou de ser; apenas a velocidade dos processos era mais lenta porque ainda não se sabia o que se sabe hoje e que nos permitiu desenvolver tantas ferramentas.
Unsp
Fonte: @makeuseof.com
Demonizar os avanços da tecnologia e atribuir a eles uma tragédia que o homem já vive desde as cavernas é dar as costas a essas ferramentas, que se têm e
A. C.
Vale lembrar que o grande dilema humano é a consciência de sua finitude, o que o faz lutar contra sua impotência ante a inevitável morte. É então que, através de uma insandecida busca pelo poder, pela dominação e pela destruição do que lhe pareça ameaça, dá-se a ilusão de que morrer é atributo dos outros. Esse fenômeno é atemporal e se adapta às realidades que se apresentam.
Mais uma vez, é preciso lembrar que a generalização é meramente conceitual, porque é graças ao conhecimento que a humanidade chegou até hoje, também com conquistas incríveis, a exemplo das artes, do desenvolvimento da sensibilidade e de valores que ainda garantem a vida na Terra.
A maioria ainda sabe que amar é bom, que a ciência é uma conquista e que morrer também é necessário.
O melhor tempo do mundo é o presente e o que ele pode oferecer. As escolhas cabem a nós.











