Aproveitei a releitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas para trocar um dedo de prosa com o seu autor. “Trocar” não é bem o termo, p...

Conversa com o Bruxo

machado assis bras cubas  literatura memoria morte sociedade pessimismo
Aproveitei a releitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas para trocar um dedo de prosa com o seu autor. “Trocar” não é bem o termo, pois só quem falou foi Machado. Eu me limitei a fazer perguntas e a escutá-lo, com a respeitosa atenção que se deve aos mortos — sobretudo àqueles que continuam mais vivos do que muitos contemporâneos. Nossa conversa, além de instrutiva, serviu-me para matar o tédio de um dia sem graça.

machado assis bras cubas  literatura memoria morte sociedade pessimismo
GD'Art
Comecei falando de uma característica que atravessa os seus romances e contos. Ele nunca parece inteiramente reconciliado com o presente. Seus personagens vivem assombrados pelo que fizeram, pelo que deixaram de fazer ou pelo que imaginam ter feito. Tendo isso em conta, fiz a primeira pergunta:

— O senhor é um autor melancólico. Por que se liga tanto ao passado?

O Bruxo me fitou com aquele ar de quem desconfia não apenas da pergunta, como também de quem a fez — o que me deixou um pouco amedrontado. Depois deu a resposta:

— O menos mau é recordar. Ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, então sim, então talvez se pode gozar deveras.

A resposta me pareceu cruel, mas verdadeira. A felicidade é precária, está sempre na iminência de acabar; somente depois de perdida é que podemos contemplá-la sem sobressaltos. Embora não compense a ausência, a memória dos momentos felizes tem a vantagem de nos devolver os acontecimentos com um aspecto mais definido.

machado assis bras cubas  literatura memoria morte sociedade pessimismo
GD'Art
Passei a outro tema. Em Machado, a razão é uma casa de paredes frágeis. Basta uma obsessão, uma suspeita ou um desejo para que o morador comece a ouvir vozes nos aposentos. A nova pergunta adveio dessa reflexão:

— Em sua obra é comum o tema da loucura. Há alguma justificativa para isso?

— O mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?

Essa resposta me lembrou Simão Bacamarte, personagem do seu conto “O alienista”, que pretendia trancafiar os loucos na Casa Verde e terminou ele próprio sendo recolhido ao hospício. Talvez a loucura seja menos o contrário da razão do que uma razão sem vigilância (alguém já disse que nas grades da racionalidade excessiva é que está a verdadeira loucura). Há, de fato, na loucura uma espécie de liberdade; o louco escapa às convenções, embora se torne prisioneiro de si mesmo.

machado assis bras cubas  literatura memoria morte sociedade pessimismo
GD'Art
A próxima pergunta foi sobre o personagem que dá nome ao romance que eu estava relendo. Minha curiosidade dizia respeito não tanto à morte de Brás Cubas, mas ao privilégio que ela lhe concedera: narrar a própria vida sem precisar prestar contas aos vivos. Ser um “defunto autor”.

— Por que escolheu um “morto” para ser o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas?

— A franqueza é a primeira virtude de um defunto. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude logo que pisamos o território da morte.

Sem dúvida. A morte livrava o narrador das conveniências. Já não havia reputação a preservar, favores a pedir nem amizades a perder. Um defunto pode confessar o que um vivo cuidadosamente esconderia.

— Entendo o motivo. Um morto não pode mais se importar com o julgamento alheio...

Machado esboçou um sorriso entre confirmativo e irônico:

machado assis bras cubas  literatura memoria morte sociedade pessimismo
GD'Art
— Não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.

Ele queria dizer que entre os vivos o desdém não pode ser completo. Dependemos do olhar dos outros e procuramos adaptar a ele não apenas nossas atitudes, mas até nossos sentimentos. A sinceridade, nessas condições, torna-se um luxo — às vezes uma imprudência. Busquei ampliar o tema:

— Por que é tão difícil a franqueza nas relações sociais?

— A veracidade absoluta é incompatível com um estado social adiantado.

Como não concordar? A civilização exige pequenas mentiras. Perguntamos “Como vai?” sem estar muito interessados na resposta, elogiamos por cortesia e sorrimos quando gostaríamos de ostentar uma carranca. Se todos dissessem exatamente o que pensam, seria impossível manter as relações sociais. O próprio Machado, em outro texto, fala das “mentiras piedosas” — essas que dizemos para poupar o destinatário da dureza que por vezes existe na verdade.

machado assis bras cubas  literatura memoria morte sociedade pessimismo
GD'Art
A defesa machadiana da mentira, que nesse caso ficaria entre a conveniência e a generosidade, tem a ver com outra ideia que lhe é cara — a ambiguidade moral do ser humano. Ele me confirmou isso com uma imagem paradoxal e contundente:

— O vício é muitas vezes o estrume da virtude.

Impossível negar a precisão desse conceito. Da vaidade pode nascer uma obra útil; do orgulho, um ato de coragem; da culpa, uma atitude reparadora. A virtude nem sempre brota em terreno puro — e haverá terreno puro?

Eu lhe observei que essa ambiguidade pode ser determinada por fatores externos, e ele de certo modo confirmou:

— Não se pode honestamente atribuir à índole original de um homem o que é puro efeito de relações sociais.

Tal observação não deixava de abrandar o seu conhecido pessimismo. Sugere que o homem não nasce pronto; aprende a competir, dissimular e defender-se no convívio com os demais. A sociedade não apenas
machado assis bras cubas  literatura memoria morte sociedade pessimismo
GD'Art
revela o caráter; também ajuda a fabricá-lo. Nesse ponto, o Bruxo se aproximava do ponto de vista de Rousseau, para quem o homem nasce puro e a sociedade o corrompe.

A par das convenções e dos condicionamentos, perpassa a obra machadiana a ideia de que o indivíduo tende a considerar os próprios dramas maiores do que os do mundo inteiro. Ou seja, transparece em seus escritos a ideia de que o ser humano é fundamentalmente egoísta. À observação sobre isso, ele me respondeu com outra imagem:

— O nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão.

Sorri. Poucas frases resumiam tão bem o egocentrismo humano, que em sociedade ostenta a máscara da vaidade (sendo esta, para mim, o orgulho sem pudor). Podemos reconhecer a grandeza de Napoleão desde que não nos peçam para diminuir a importância da nossa pequena espada. Cada um ocupa o centro do próprio universo. E estranha quando percebe que, para os demais, não passa de um figurante.

machado assis bras cubas  literatura memoria morte sociedade pessimismo
GD'Art
Já me preparava para encerrar a conversa quando pensei nos jovens, frequentemente divididos entre a ansiedade do futuro e a impressão de que o tempo lhes escapa. Fiz então ao Bruxo uma última pergunta:

— Que conselho o senhor daria a um jovem de hoje?

Dessa vez, sua resposta não teve a acidez que eu esperava. Soou quase como uma advertência afetuosa e cúmplice:

— Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramingas que se deita à margem do rio a fim de lastimar o curso incessante das águas.

Despedi-me convencido de que, sob o pessimismo de Machado, existe um indisfarçável amor à vida. Ele não aconselhava os moços a deter o rio, o que seria impossível. Apenas os exortava a observar seu curso com resignação e até uma ponta de alegria.

Ao fechar o livro, percebi que meu tédio havia desaparecido. Se eu não tinha o que fazer, tinha muito o que pensar. Por artes do Bruxo, que muito sabe de nós, acabei salvando o meu domingo.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas