Certa manhã, a vida encontrou o Tempo sentado à beira de uma estrada. Não havia relógio por perto, nenhum calendário, nenhuma pressa. Apenas os dois, diante de uma estrada que parecia não ter começo nem fim.
⏤ Você nunca para?GD'Art
⏤ Não.
⏤ Nunca se cansa?
⏤ Também não.
A Vida ficou alguns instantes em silêncio. Depois perguntou:
⏤ Então por que as pessoas reclamam tanto de você?
O Tempo olhou para a estrada.
⏤ Porque elas confundem a minha passagem com a própria vida. Eu apenas passo, quem decide o que fazer comigo são elas.
A Vida pensou um pouco.
⏤ Mas você leva tudo embora.
⏤ Não, respondeu o Tempo. Eu não levo. Eu transformo.
⏤ Qual é a diferença?
⏤ A diferença é que aquilo que você chama de perda, muitas vezes, é apenas uma forma diferente de permanecer.
A Vida franziu a testa.
⏤ Explique.
O Tempo apontou para uma árvore distante.
GD'Art
⏤ Talvez.
⏤ Eu chamaria de transformação.
A Vida ficou pensativa.
⏤ E as pessoas?
⏤ As pessoas têm dificuldade em aceitar que também são feitas de mudanças.
⏤ Elas querem permanecer jovens.
⏤ E deveriam querer permanecer vivas, respondeu o Tempo. A juventude é apenas uma das estações da existência.
A Vida baixou os olhos.
⏤ Mas há coisas que doem quando passam.
⏤ Eu sei.
⏤ Pessoas que vão embora.
⏤ Eu sei.
⏤ Amores que terminam.
GD'Art
⏤ Alguns amores não terminam, apenas deixam de morar na mesma casa.
A Vida olhou para ele.
⏤ Você é bastante cruel.
O Tempo respondeu:
⏤ Cruel não, inevitável.
A Vida ficou em silêncio.
O Tempo continuou:
⏤ O passado não precisa ser uma prisão. Pode ser um professor.
⏤ E a velhice?
⏤ A velhice é o momento em que o corpo começa a contar histórias que a juventude ainda não conhecia.
⏤ E a morte?
Dessa vez, o Tempo demorou a responder.
⏤ A morte é o limite que dá valor à experiência de estar vivo.
A Vida olhou para ele, talvez esperando uma resposta mais confortável. Mas o Tempo apenas continuou andando.
Depois de alguns passos, a Vida perguntou:
GD'Art
O Tempo sorriu.
⏤ Eu sei.
⏤ Para onde?
⏤ Para frente.
⏤ E depois?
O Tempo respondeu:
⏤ Depois, veremos.
A Vida então compreendeu uma coisa que nunca havia percebido.
Ela passara grande parte da existência tentando controlar o amanhã, consertar o ontem e compreender o hoje.
Enquanto o Tempo nunca lhe pedira nada disso. Ele apenas dizia: “Estou aqui.” E talvez essa seja uma das maiores lições da existência. Não temos o ontem, não possuímos o amanhã. Temos apenas este pequeno instante, tão breve que quase não percebemos quando chega e já desapareceu quando tentamos segurá-lo.
A Vida então perguntou:
⏤ Tempo, se pudesse me dar um último conselho, qual seria?
Ele respondeu:
⏤ Não espere ter tempo para viver.
GD'Art
⏤ Não espere perder para dar valor.
⏤ E depois?
⏤ Não espere envelhecer para perceber que a vida nunca foi sobre permanecer jovem.
A Vida sorriu.
⏤ E quando eu tiver medo de dar o próximo passo?
O Tempo segurou-lhe a mão.
⏤ Vá assim mesmo.
⏤ Por quê?
⏤ Porque eu continuarei caminhando.
E naquele instante a Vida percebeu que talvez o maior erro humano não seja envelhecer.
Talvez seja passar pela existência esperando que a vida finalmente comece. Porque enquanto esperamos, o Tempo não espera, ele passa silenciosamente, sem raiva, sem pressa, sem voltar.
E, no fim, talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo ainda temos, mas sim, o que estamos fazendo com o tempo que ainda temos.










