Estou aqui, arrumando a cabeça de meu pai neste caixão que colocaram de qualquer jeito no necrotério do hospital.
A cabeça dele estava apoiada em uma espécie de palha, mas tombou para fora. Reposicionei sua cabeça e me sentei na única cadeira, em um canto escuro.
GD'Art
Vi, ou imaginei, naquela imagem final, um homem que viveu um sonho de riqueza.
A penumbra me fez lembrar que a vida é mais irônica que as palavras.
E pretendo provar que isso é uma verdade.
Algumas horas atrás, meu pai entrou na sala de cateterismo. Faria um procedimento para desobstruir uma artéria do coração.
Permitiram-me assistir ao procedimento, e assim foi.
Havia três médicos e enfermeiros na sala. Monitores coloridos e seus números com enigmas do futuro. Alguma sensação negativa rodou por minha cabeça.
No momento em que iam realizar a intervenção, meu pai me chamou.
Cheguei-me por detrás de sua cabeça.
GD'Art
Segurei a cabeça de meu pai, que me encarou com um olhar de angústia.
Nesse momento, os médicos fizeram a manobra definitiva do procedimento.
E senti um espasmo na cabeça que repousava na palma de minhas mãos.
E o olhar que era para mim dissociou-se do mundo.
E ouvi gritos. Todos corriam e faziam manobras que agora já são névoa.
Alguém me tocou o ombro e disse que eu teria que sair.
Deitei com carinho a cabeça de meu pai e me sentei para aguardar as informações.
GD'Art
Sim, a vida é de uma ironia bem-vinda.
Agora estamos somente nós dois; algo incomum em nossa vida.
Nunca tinha segurado a cabeça de meu pai, mas hoje tive a felicidade de tocá-lo e de ser chamado de filho.








