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No final da rua, outra concussão daquela. Mais forte, agora. O mais estranho nela foi a impressão de algo que irrompera deixando atrás de s...

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No final da rua, outra concussão daquela. Mais forte, agora. O mais estranho nela foi a impressão de algo que irrompera deixando atrás de si um rastro de desolação, e que fosse a expressão de um silêncio mais fundo do que o anterior patamar em que se colocava.

Em questão de segundos soaram bombas e foguetões, e se pôde ver muitos deles, subindo, apressados, riscando o céu e detonando. Inevitável a...

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Em questão de segundos soaram bombas e foguetões, e se pôde ver muitos deles, subindo, apressados, riscando o céu e detonando. Inevitável aquela faísca de engano, a impressão instantânea de que se honrava o morto.

Ele foi instruído a procurar um Teofre. Agenor lembrava-se dele, e embora sem ter maiores aproximações com o tal, sabia de seu predicado hu...

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Ele foi instruído a procurar um Teofre. Agenor lembrava-se dele, e embora sem ter maiores aproximações com o tal, sabia de seu predicado humilde. Numa volta pela rua, consultou um pequeno grupo de meninos, e um deles, de esguelha, deu uma rápida conferida na posição do sol e disse saber onde ele podia ser encontrado àquela hora. De posse do recado, saiu nas carreiras para o lugar tido em mente.

Dia inteiro cabra de deus Lacrava ferro no molde da coluna Dia findo, guardava ferramentas Em caixilho de metal, ao sair Deixava estil...

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Dia inteiro cabra de deus
Lacrava ferro no molde da coluna
Dia findo, guardava ferramentas
Em caixilho de metal, ao sair
Deixava estilhaços
Ainda por limpar ou esquecer

1 ou 2 Gregórios agregavam Todas as ilhas gregas 1 atarefado Zé Crispim Em 2 versões, rica e pobre Às vezes trocava de mão Mas luz...

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1 ou 2 Gregórios agregavam
Todas as ilhas gregas
alberto lacet matureia velhice envelhecer ze crispim ambiente de leitura carlos romero poesia paraibana
1 atarefado Zé Crispim
Em 2 versões, rica e pobre
Às vezes trocava de mão
Mas luziavia aquele único
Luzinércio

Mesmo os urubus mais antigos – Segundo Seu Axessio Pordeus, alguns chegando a viver dez, doze anos --, não tinham memória de seca daquela. ...

Alberto Lacet Ambiente de Leitura Carlos Romero

Mesmo os urubus mais antigos – Segundo Seu Axessio Pordeus, alguns chegando a viver dez, doze anos --, não tinham memória de seca daquela. Mas tinham, isso sim, começado a cair, de tão gordos. Simplesmente despencavam do alto e esborrachavam o papo no chão. Nos lajedos. Na lama esturricada da vazante.

Descartado pelo serviço público e dado como sucata, o vasto maquinário se desviaria a tempo dos encômios da ferrugem, e alcançaria sobrevid...

Alberto Lacet

Descartado pelo serviço público e dado como sucata, o vasto maquinário se desviaria a tempo dos encômios da ferrugem, e alcançaria sobrevida num último surto de catalepsia tecnológica, embora a qualidade da iluminação que o imenso e problemático gerador a diesel conseguia ainda produzir, fosse vagamente perdurar na memória dos viventes como uma estranhamente singular e, ao mesmo tempo, dispendiosa fantasmagoria do passado.

Nem poderia ser de outra forma: a luz emanante da esquálida rede de postes era de alcance muito curto, e, a rigor, não se podia dizer que iluminasse caminho de notívago, apenas o indicasse, com jeitão de farol marítimo, que, no máximo fornece ideia de distância da costa, e, com sorte, avisa de possíveis arrecifes. Sem falar no próprio, no velho gerador em si, jurássica e gigantesca fonte de assombros: uma pechincha arrebatada da justa aposentadoria pelo prefeito da pequena cidade paraibana, quando já então aquela peça rumava para descanso eterno num ferro-velho do Recife.

A monumental carcaça carregava em si, já bem falido pelo desgaste, o glorioso princípio da indução eletromagnética, obra de Faraday
Montaram-no sobre uns trilhos de sucupira lavrados à enxó, e o passar do tempo, mais a trepidação de toneladas de ferro, aos poucos o fora enterrando no solo. As duas grandes polias de borracha chegaram já com remendos, e, todo santo dia, duas fileiras de homens agarravam-se a elas e às respectivas rodas, suando na tentativa de fazer virar a máquina, e tanto esforço resultando depois naquela luz pífia, cor de abóbora, apesar de tudo recebida com gritos de júbilo, enquanto as explosões do motor seguiam baixando o estrépito inicial, reduzindo seus estampidos a pequenos espirros, com a enorme esteira começando a entrar em velocidade constante, e toda a casa de força com o chão enegrecido pelo óleo e tremendo naquela batedeira.

Ficava impossível entabular alguma conversa dentro da casa-de-força. Um comentário qualquer saía sempre numa ofegante gritaria com tsunamis verticais a percorrer bochechas. Era preciso ouvir o barulho infernal, ver aquele óleo espirrando sobre os homens que lutavam com a monstruosidade, enquanto a enorme geringonça, com um sistema próprio de ar comprimido, impelia a água de tonéis para o próprio resfriamento, e isso numa época em que a meninada inventara uma maneira de competir com o monstrengo, e também entre si, numa disputa que consistia em apostar carreira até ao primeiro poste do sistema, já fora da casa de força, e isso, antes que a própria centelha do gerador acendesse, lá, sua primeira lâmpada.

O tal poste distava uns 30 metros da usina, e os meninos, com o pé numa linha riscada no chão, tremiam de hesitação entre a precipitação e o controle, esperando o sinal de partida, pois não podiam arrancar numa correria ao soar dos primeiros estampidos da máquina pegando partida, mas, só quando, na sequência, uma luz acendesse no interior da casa de força, e esse sim, seria o sinal válido para o arranque, quando, não raro - e por incrível que pareça --, aconteceria mesmo de algum menino conseguir tocar naquele poste antes que sua lâmpada acendesse, ganhar a disputa e ter assim seu minuto de glória inesquecível.

...
Nicola Tesla
Qualquer daqueles garotos, porém, não teria jamais como suspeitar que seu prodigioso feito devera-se unicamente à dilatada distância que o gigante de ferro se encontrava das modernas conquistas da engenharia elétrica, do quanto a sombra de Nicola Tesla, “o homem que ajudou a espalhar a luz pelo mundo”, estava longe de recair efetivamente sobre a pobre malha que, apesar de tudo, representava para os habitantes do lugar uma indiscutível zona de conforto para locomoções noturnas, muito embora rarefeita e nem sequer por ruas inteiras.

A meninada, em compensação, aparentava possuir perfeita intuição sobre as deficiências do sistema ali instalado, com seu incrível mastodonte de ferro fundido, extremamente defasado, exemplar cenozoico que ali já chegara como reaproveitamento da mais primeva tecnologia, há muito suplantada, e que remontasse a Thomas Edison antes que a George Westinghouse, ex-empregado do primeiro, e por ele demitido, e por tabela, antes que a Tesla, ex-empregado dos dois outros, e por eles demitido.

Os meninos criaram aquela brincadeira em perfeita sintonia com um sistema que não possuía nenhum equipamento capaz de interferir no percurso da corrente elétrica, exceto talvez algum solitário fusível no sentido de evitar incêndios, embora contasse, no entanto, com o recurso da própria defasagem, da própria e invencível entropia no sentido oposto de paralisá-la. Programada para as duas primeiras horas da noite, a corrente elétrica caia com frequência.

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Serra de Teixeira
Não havia nenhum alternador, transformador, nem mesmo uma única chave comutadora ao longo da fiação, de modo que a energia era simplesmente posta a flutuar pelos compartimentos da rede, fisicamente presa e compartimentada. Faria uso, no entanto, de algum emoliente poder de escolha, iria até onde desse, e se nem mesmo entrava nas casas, é o tempo de se perguntar de quem era a culpa pela inexistência da outra, se da eletricidade ou das máquinas elétricas dentro delas: por aquele tempo não havia nas casas uma só máquina movida à energia elétrica. A minha aldeia era ainda bastante neolítica, como a maioria das pequenas cidades da Paraíba. Era o final dos anos 50, na então muito fria cidade serrana de Teixeira.

À beira da obsolescência, o sistema só podia contar mesmo com a feroz dedicação do encarregado geral, ‘Seu Tota‘, empenhado sempre em reduzir a enorme entropia do sistema, num eterno desespero para manter o sistema de refrigeração a contento, já que parte do óleo consumido se perdia em calor. Com o rosto quase sempre sujo de suor misturado com fumaça preta e tóxica, o motorneiro era sempre visto a corrigir desníveis do solo, alimentar a máquina, fazer o possível e o impossível para manter aquela energia circulando na rede, na hora prevista.

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Faraday
A monumental carcaça carregava em si, já bem falido pelo desgaste, o glorioso princípio da indução eletromagnética, obra de Faraday. Fazia isso, porém, numa fase terminal de vida útil, mostrando a muito custo seus últimos lampejos, e sempre a exigir cuidados análogos aos de um paciente cuja vida se esvai entre crises de humor, depressão, etc.

Uma vez, porém, estabilizada a corrente, era possível ao observador mergulhado na penumbra, contemplar a curiosa imagem de um daqueles postes, visto isoladamente como árvore solitária numa paisagem absolutamente sem vida, a lembrar uma entristecida Sarsa Ardente, com suas uivantes lições embutidas nas cordas vocais do vento, esquecida por seu Moisés e algo acabrunhada com aquela barriga de luz voejante e amarelada em torno de si, hospedando em seu bojo uma multidão de besouros - como que presa ali - girando em órbitas sobrepostas e interpondo aos olhos do observador, centenas, milhares de solenóides, de alto a baixo, como elétrons num campo gravitacional, e alguns, inesperadamente encurtando a espiral, concentrando-se num determinado ponto e ampliando a frequência, entrando numa vertigem de velocidade cujo ápice será, ou uma colisão e a consequente baixa acumulada ao pé do poste, ou uma inacreditável saída tangencial às velocidades e movimentos anteriores, a lembrar um violino numa orquestra sinfônica, ao recuar da estridência de um solo, e após rápido flanar, voltando aos andamentos de fundo


Alberto Lacet é artista plástico e escritor

Algum vento soprará destas montanhas Dias trará de longo pavoroso sofrer Espalhando esverdeado ocluso sofrer Do enregelado deixado à pró...


Algum vento soprará destas montanhas
Dias trará de longo pavoroso sofrer
Espalhando esverdeado ocluso sofrer
Do enregelado deixado à própria sorte
Que por cáfilas cáfilas de anos
Sibilou entre penedos Irmão da névoa

Tinham chegado no dia anterior, um tanto tarde, com a tralha de filmagem. Um deles se adiantou e se anunciou ao serviço da União Europeia. ...


Tinham chegado no dia anterior, um tanto tarde, com a tralha de filmagem. Um deles se adiantou e se anunciou ao serviço da União Europeia. O funcionário ligou então para a Prefeitura do distrito de Tatrami. Depois de alguma demora, veio a recomendação para que não exigissem credencial deles e marcou-se o encontro para a manhã do dia seguinte. Mesmo local. De manhãzinha, lá estavam novamente os forasteiros (jornalistas?), para encontrarem a cena já montada.

A sessão em sala de aula irá encerrar-se com as seguintes imagens e palavras, trocadas entre a professora Natassa Kissova, branca, 47 anos, e uma turma de alunos da “Escola municipal de Kesmarok para crianças rumes”.

– Olhem aqui: os pais de vocês. Eles trabalham? - Ela joga a pergunta no ar, para os, cerca de quinze alunos, entre os sete e doze anos, aproximadamente, sentados em carteiras distribuídas do meio para o fundo da sala, de um modo aleatório que não disfarça o improviso, dando a qualquer um perceber que assim foram dispostas para que, na parte da frente, os técnicos pudessem mover-se livremente. Mas, como as crianças não respondem de pronto, um tanto tímidas e aparentemente surpresas com aquela novidade na escola, a professora refaz a pergunta:

– Respondam: o pai de algum de vocês aqui. Ele trabalha? - A professora parece bem animada naquela manhã de setembro.

Uma manhã de ar puro e claro, de sol esparso, mas que não exigira dela nenhum agasalho, de modo a poder exibir o colo alvíssimo, os também alvos e longos braços roliços nessa manhã programada desde o dia anterior para que os alunos fossem avisados a tempo de se apresentarem asseados, bem vestidos e juntos com seus familiares. Para que, dessa forma, pudessem ser vistos ainda na caminhada que leva à escola, apenas um pouco antes desta, quanto teriam então suas imagens gravadas pela câmera colocada de antemão no caminho previsível. E vindo através dele, pela aleia forrada de pedras e marginada por canteiros, nessa época sempre floridos e exuberantes, de mãos dadas com suas irmãs maiores, para que dessem uma razão de ser a bela e harmoniosa manhã cívica em que o marido de Natassa, o Sr. Diretor da Escola, um homem bom, humano e cristão como ele só, estivesse em meio a elas munido de seu violão, e com ele cantasse, desde a música eterna do folclore nacional ao último sucesso do rádio, por que não?

A frase vem a provocar risos e gargalhadas entre os alunos, e antes que cesse a descontração, outra voz se ouve dos fundos
Isto para que todos ali se sentissem felizes como eles dois, Natassa e o maridão, e demonstrassem, mais uma vez, à União Européia, ao mundo e a todos ali, que em Kesmarok os rumes estão sendo tratados como merecem seres humanos. E assim partilhassem todos da mesa farta com o excelente liptauer de sua receita particular, em fatias de pão e acompanhados de refrigerantes, do muffin de chocolate com geleia de morango que é sua especialidade. Mas isto fique bem claro, só depois da cerimônia no pátio da escola, com direito à formação da alunada, após os discursos, canções e hasteamento das bandeiras, e de tudo mais. Sem no entanto saber ela, pobre Natassa, que por um único descuido, uma infeliz falha técnica do câmera-man, as imagens ficassem perdidas, e apenas estas, as da sala de aula, fossem aproveitadas depois.

Mas antes que novo silêncio se estenda, ela aponta um aluno no meio da sala.

– Você. Seu pai trabalha?
– Trabalha - Diz ele, sorridente. Outros garotos sorriem também, outros se mostram mais cautelosos.
–  Onde, trabalha ele? – Emenda a professora.
–  Bratislava – Responde ele, baixando a cabeça ao encontro dos dois braços juntos e à frente, na carteira, como se esperando o pior.
– E o seu pai. O que faz ele lá?
–  Ele cava.
– Ele cava? Ele limpa – A professora acha por bem corrigir, afinal há uma câmara ligada.
– Ele limpa – Concorda o garoto, assentindo com a cabeça, e, ao que parece, mais satisfeito com o novo emprego do pai.
– Você quer trabalhar no quê, quando crescer? – É a nova pergunta, mas que o menino não responde de imediato.
– Vai querer cavar também? - Ela acrescenta esta nova pergunta, visivelmente contendo o riso. Os outros meninos riem-se soltos, agora.
– Não, vou limpar. – Ele diz, por fim, sorridente e submisso.

Natassa Kissova está realmente muito feliz com todos, e resolve dirigir-se mais uma vez à classe inteira:
– E vocês, o que querem ser quando crescer?

No meio dos alunos, uma menina diz que quer ser cantora.
– Excelente. Você quer cantar que tipo de música, modernas, teóricas, ou ciganas?

Mas não há tempo de responder, pois um dos meninos, bem à sua frente, ergue timidamente o braço e diz:
– Eu quero ser policial.

Natassa Kissova arregalha os olhos para este, impressionada. Aquilo parecia melhor do que ela podia esperar. Pergunta, então:

– Você sabe dizer aos seus colegas para que servem os policiais?
– Para que as pessoas não roubem. – O garoto responde, categórico.

Natassa kissova está surpresa com ele, mas não suficientemente convencida, daí a nova pergunta:

– A quem você prenderia: brancos ou rumes, ou os dois?
– Os dois. – Ele responde, depois de um pequeno suspense na sala. Havia compenetração no olhar, trazida talvez pelo inesperado peso da missão.
– Pode nos dizer o que os ciganos mais roubam?

Um novo silêncio quer agora se instalar, mas é logo quebrado por uma voz nos fundos da sala:
– Rabanetes!

A frase vem a provocar risos e gargalhadas entre os alunos, e antes que cesse a descontração, outra voz se ouve dos fundos:
– Couve-flor também!

Mais risos. À sua frente, é a vez do decidido garoto que se pretendera policial (e cuja afoiteza no expressar seu desejo, junto com a boa receptividade obtida, possivelmente o tenha deixado com a ligeira sensação de alguém já investido na farda) apontar algo mais grave:
– Madeira da floresta.

Natasa Kissova distende o corpo para trás numa gargalhada curta e inesperada, e depois para frente, e aí dá uma palmadinha nas costas da mão dele, francamente satisfeita com todos.


Alberto Lacet é artista plástico e escritor


Não tinha amigo algum, no entanto, ia ser visto, anos depois Como um dos pouquíssimos rebentos finais daquela casta condenada Que um dia ...


Não tinha amigo algum, no entanto, ia ser visto, anos depois
Como um dos pouquíssimos rebentos finais daquela casta condenada
Que um dia possuíra o mundo sem que necessário fosse
Sequer abrir seus braços

Achava que uma poesia me cruzaria os passos, quando
Atravessasse tal beco e fosse caminhando
Cabisbaixo e observado por aquela lua,
e logo minha sombra, ou algum meteoro caído
Havia de colocar em minha boca
Aquelas tantas palavras que eu
Absolutamente não as tinha

poesia albeto lacet
Nem me lembro ao certo se retornando sozinho
Com o peito frágil e exposto na noite lôbrega
Ou se apenas marca-me um intenso transcurso
Através da alta noite de ventania e presságios
mas sempre nas muitas e diferentes noites
Haverei de estar sempre retornando
Numa lembrança sem qualquer resquício
De anterior destino ou da mera
Alegria por estar de volta

Descendo os entrecortados batentes do vale
Enegrecido pelo fumo dos tempos, e imerso já
Naquela solidão a que inexplicavelmente fora proscrito
Carregando de mim, no entanto, imagem talvez medonha
De pária infante cuidadosamente envolto em manto
A um só tempo de proteção e inefável abandono

Mas certamente será desnecessário que a caudalosa
Introspecção de um rio venha a colar-se na paisagem
Ou que um panejado de asas feche o céu como num circo
Enquanto a multidão de palavras voa da alma para o texto
Para que tudo continue a soar como numa música ardente


Alberto Lacet é artista plástico e escritor

Palavras. Com o tempo, se transformam. Viram eco. Sombra. Do que foram, um dia. Eco da própria sonoridade. Sombra da imagem que pretendeu f...


Palavras. Com o tempo, se transformam. Viram eco. Sombra. Do que foram, um dia. Eco da própria sonoridade. Sombra da imagem que pretendeu formar. Mas sempre elas, palavras. Ditas lá no seu início e para surpresa de quem, desde muito cedo, passou a acompanhá-lo aonde fosse, levado, a princípio, por sua mão, ele naquele seu ímpeto. Dos bons tempos. Vocação quase missionária, na mais nova e corajosa iniciativa que despertava comentários pela porção do mundo adulto em volta. Mas lá, de qualquer forma, a lhe seguir os passos na aventura de terminar de criar o homenzinho que viera não se sabia de onde. Do “Forno Velho," diziam uns. Da Piedade, outros.

Ficavam a lhe monitorar progressos, muito possivelmente com a observação fundeada nalgum substrato daquela velha ideia que se desenvolveu nos trópicos, desde que uma primeira leva de brancos aportou por aqui, para logo descobrir que o paraíso não só existia na terra como estava assentado sobre uma montanha de ouro, e que, consequentemente, toda forma de integração social era legítima desde que se desse após o grande assalto.

Mas de qualquer forma tratava-se ali de um ajuste que fosse aos poucos integrando a criança ao núcleo drasticamente reduzido daquela família, esforçando-se o homem para lhe passar os rudimentos desse novo mundo que tinha pela frente, dessa nova vida, como se cansaria o menino de ouvir.

Havia a lista estafante de comportamentos e hábitos obrigatórios, que começavam cedo da manhã. As abluções. O ritual de vestir-se. O lanche para a escola. Alguma aventura lacustre de não molhar os pés naquela passagem, etc. E às quais lançou-se, de início, com todo o empenho que aquela desigual carga de estímulos, provinda do homem, fosse capaz de injetar no garoto magrinho, negro e desengonçado. Aquela dose diária de ânimo a que fazia jus como uma espécie de boneco inflável, que, por sua vez e para merecer o nome, fosse incapaz de passar sequer algumas horas sem requisitar nova injeção pneumática. Sem a qual, nem esse próprio beneficiário final, lembrando-se agora, apostaria um vintém que fosse no sucesso da empreitada. Até porque o homem, enérgico, e que às vezes o vinha pegar pela perna para que acordasse e já saltasse da cama, não haveria nunca de erguer a mão para esse, em vez nenhuma, nem mesmo o assustaria ou amedrontaria usando de rispidez nas palavras.

Ia ser preciso aprender. O costume da terra - diziam. O que isso significava. Queria dizer o quê? Fosse o que fosse, era sempre difícil para quem se vira obrigado a se desfazer das próprias lembranças que trazia, e que de nada lhe iam servir naquele lugar. Ninguém lhe havia dito que assim fizesse, mas elas foram sendo deixadas num canto. Onde não eram de causar mal nenhum. Uma espingarda descarregada, num canto. O último fio delas a que pôde, de fato tocar, pegar, o menino o trouxera colado ao corpo. Aquela pequena trouxa sobre a carga do caminhão continha uma insignificância de roupas amarfanhadas e impregnadas pelo muquifo, que, naquela madrugada mesmo o menino havia deixado para trás, no lugar onde se cozinhava em fogo de chão. E com aquela fumaça de mato verde subindo e tisnando a parte superior da taipa e das telhas, e pela qual, anos depois, de alguma forma voltaria a se sentir sufocado. Para isso bastando apenas rever-se naquele cenário confuso e de sonho confuso. Bastando evocá-lo. A nele sobressair-se, no entanto, havia aquela incessante ação humana. A mulher. A imprevisível, mas constante movimentação da mulher, a entrar e sair.

pintura alberto lacet
Arte de Alberto Lacet
Podia vê-la (do lugar onde sempre ficava) agachar-se, podia ver como era sempre extremamente flexível, de cócoras no limiar da porta, onde uma tábua serve de soleira, e por onde assoma a luz oblíqua. Ou mais na penumbra, dentro do muquifo e a servir-se de abano, tição, caneco de cabo comprido, vassoura de ramos silvestres. 
A mulher e seu corpo de mil possibilidades. Vale-se de algum entalhe anatômico com a mesma assertiva com que uma embarcação tira proveito dos relevos da costa. Estava sempre retirando algum apetrecho do vão da orelha, de debaixo do queixo, de entre os dentes, dos seios, da amarração do lenço nos cabelos, onde provisoriamente o alojara, para dele servir-se na tarefa diária de algum corrugue, depeno, moqueio, etc. Mas agora revendo-se escanchado em sua cintura, sob o sol.

Uma grande clareira. Neg' Ana a mover-se entre a multidão de cascos avermelhados. Empilhados de borco e feitos de terra amassada e torneada. São dispostos em volta dos grandes montes, redondos feito iglus de fogo crepitando nas bocas, à altura do chão, e em volta dali toda aquela gente, de cócoras, a maioria, e cuspindo as vozes que ouve também como uma crepitação. Enquanto a mulher, aqui e ali, com um simples solavanco de quadril rearruma a carga no vão da cintura, de modo a que o menino permaneça lá escanchado, a tiracolo, com uma perna sobre seu ventre e a outra sobre a bunda, literalmente sentado nas cadeiras dela.

O garoto, às vezes, percebendo quando ela firma a perna sob a anca que o sustém, assumindo, assim, postura de toco, ou árvore, com a parte superior do corpo em forte inflexão para o lado oposto, que se mantém em equilíbrio devido ao posicionamento da outra perna que abriu compasso no mesmo sentido. E o menino, então, apercebendo-se ali como numa forquilha do tronco, numa altura em que pode relancear em tomo, enquanto conversa ela com o homem de pele clara, e, também, de cachimbo na boca.

Depois, na sombra, de volta, no interior do muquifo, ouvindo a voz que interrompe o resmungar com um grito lacônico que é quase latido de cão, e que responde a alguém fora dele, talvez àquele do cachimbo. Mas sempre aquela voz, irrompendo às vezes num canto abrupto e que pode depois amainar para som cavo, cantante e ininteligível de reza. Que por sua vez poderá se interromper em algum intempestivo, blasfemo imprecar por pano voado de varal, incontinência de vento ou de fogo, de fervura derramando-se.

Toda aquela movimentação seguida do cortejo de luzes atravessando o dia, embora aqui ou ali entremeada por períodos de silêncio e incerteza, até o momento, sempre esperado por esse, em que não via mais nada, a não ser a luz ardendo para contraste das sombras fortes, e que, por um momento, deixariam de ameaçá-lo. Pois que havia sido finalmente tomado e erguido e envolvido por aqueles braços para que mergulhasse e se perdesse em sucção, a quase afogar-se no cheiro avassalador e minado da natureza mais íntima, e de cuja fonte extrairia aquele sumo debelador de acidez e ânsia. Aquele líquido morno, invisível e latente, e que parece sair da pele da mulher e evolar-se pelo ar, impregnando por completo o ambiente, para completa acalmia de sua incipiente estrutura física, envolta ali num sudário esgarçado por uso e sarro de pobreza antiga. Sentindo, apesar de tudo, passar através de si aquela corrente indomável, eficaz e cheia, e pela qual a vida lasciva, infalível, aprestou-se em lhe transmitir seu primeiro e genuíno calor humano.


Alberto Lacet é artista plástico e escritor

A cidade de Petrolina (PE) teve no pintor e escultor Celestino Gomes (1931-2004) um vulto dos mais queridos, verdadeira lenda viva, povoada...


A cidade de Petrolina (PE) teve no pintor e escultor Celestino Gomes (1931-2004) um vulto dos mais queridos, verdadeira lenda viva, povoada de histórias que o tempo seguiu cozendo na imaginação da gente do lugar.

Fisicamente foi um branco de boa altura, com olhos e cabelos claros. Ainda jovem, passara duas temporadas na Itália, em Roma, onde pôde experienciar, entre outras técnicas artísticas, impressão de gravuras e modelagem de formas para fundição. Voltara de lá com saberes específicos que o habilitavam ao manuseio, frequentemente criativo, de materiais tanto para pintura quanto para escultura.

No entanto, seu tema artístico por excelência, acabaria mesmo se constituindo no homem do Nordeste e seus afazeres, daí a figura recorrente do vaqueiro em quadros seus. Apartação das crias, festança da colheita e corrida de bois foram os elementos mais corriqueiros de sua obra.

Gostava, porém, Celestino, de construir, de edificar com argamassa e pedra. A fundição e o fogo tampouco foram obstáculos para o utilitarista de sete ferramentas, cuja curiosidade sem fim o tinha capacitado, até mesmo a enfaixar braços quebrados e colocá-los em tipoias, como mais de uma vez ocorreria.

Tecnológica e conceptualmente falando, um quase homem da Renascença habitava a decantada cidade na margem do São Francisco. E foi assim que, muito antes de receber a primeira encomenda pública para criar monumento artístico na cidade, e ainda recém-chegado da Itália, construiu, num ímpeto só, um enorme forno de assar pizza no quintal da casa, transformando-se assim no primeiro pizzaiolo regular de que se tem notícia no sertão nordestino.

Dada sua identificação e relação afetuosa com a vida de sua cidade, Histórias que envolvem Celestino podem girar tanto em torno de personagens da elite local quanto de figuras genuinamente populares. Um exemplo são as duas que se seguem.

Apesar de esguio - magro mesmo -, o artista era chegado a praticar caminhadas matinais, e um seu companheiro para esses percursos diários foi o então Deputado Estadual (depois Federal) Fernando Coelho, que, certo dia, o convida a lhe servir de companhia durante uma excursão pelas proximidades da cidade, programada para depois daquela caminhada. Vivia-se ali o período eleitoral, e o objetivo desse deslocamento nem podia ser outro: “visitar” eleitores.

Se despedem com o deputado prometendo logo, logo, passar na casa do amigo e apanhá-lo. Celestino se apressa nas providências habituais, mas, antes de tomar o café, escuta o deputado lá fora, tocando a buzina da caminhonete. Sai então às pressas, entra no veículo e, juntos, passam a manhã visitando moradores de casas espalhadas por sítios próximos à cidade. Por volta do meio-dia, o artista lembra ao enorme e gorducho deputado – cujo peso passava já dos 140 ks - , que sente o estômago “roncar” de fome, o que não era para menos, ele explicou, naquela manhã havia tomado apenas uns goles de café puro, antes de sair de casa.

Em resposta, o deputado lhe recomenda calma, dizendo que estão de retorno para a cidade e que irão reabastecer no posto de gasolina da família onde, lembra o deputado, há um restaurante – também do papai - onde poderão almoçar, tranquilos. Uma meia hora a mais de tráfego e chegam no posto. A primeira providência do deputado é reabastecer o carro, com o restaurante a poucos metros da bomba de gasolina. Estão nisso, quando o deputado recebe um recado dado pelo frentista do posto, que acabara de receber pelo orelhão o telefonema de um eleitor rogando-lhe que o fosse visitar, pois tinha algo importante a lhe comunicar.

O deputado:

– Um eleitor chamando, Celestino. Vamos voltar, almoçamos depois.
– Mas deputado, o restaurante é aqui. Almoçamos e depois você visita o homem!...
– Não tenho pressa. Aliás, meu médico me recomendou perder, pelo menos, pelo menos... uns 70 quilos…

A frieza e a lógica desse raciocínio podiam até ser compatíveis com o tipo de vida que o deputado levava, mas Celestino sobressaltou-se com aquilo, aquela aparente tranquilidade do amigo o pôs em estado de alerta. Só que, em vez de confrontar a lógica dele, assume-a ao pé da letra, retrucando:

– Você tem um bom médico, deputado. Agora, se eu perder 70 quilos andando em sua companhia, vou sumir do mapa.

Esqueceram, momentaneamente, o eleitor, e foram almoçar.

O artista era também escritor e havia escrito dois livros: ‘’Da Roça à Roma’’ e ‘’De Roma à Roça”, onde descreve contrastes e similitudes entre mundos tão aparentemente díspares quanto a “Cidade dos Césares”, cortada pelo Tibre, e a Cidade dos Coelhos, cujo perfil fora talhado pelas encostas do São Francisco. Gostava, na verdade, amava! se sair, aqui acolá com alguma história fantástica. Numa dessas, narra o sonho da vida de Manezinho de tal, funcionário da Prefeitura de Petrolina, homem simples, mas que nunca escondera de ninguém seu sonho de um dia, ao aposentar-se, comemorar o evento satisfazendo seu antigo desejo de conhecer as origens do Velho Chico.

Até onde sua memória alcançava, aquele rio tinha preenchido praticamente todas as necessidades de sua vida, e quando não, determinado outras. Manezinho bem que gostava de relembrar os banhos da infância tomados nele, sempre na companhia de um bando de outros moleques. Relembrar as brincadeiras de ‘empunha’ no saltar da ponte para o rio. As trampolinagens de menino afoito.

Nos últimos tempos dera para falar na viagem, enquanto cuidava de ir economizando dinheiro a fim de custeá-la. Uma viagem ida/e/volta pelo rio São Francisco, e eis aqui seu roteiro: Petrolina/Pirapora/Petrolina.

carranca
Manezinho pretendia ir até ao extremo do rio, no Estado de Minas, onde a cidade de Pirapora marca o limite da navegação, e todos seus amigos, aí, incluído Celestino, sabiam que não estava longe o dia de pôr-se aquele sonho à prova. O que não faltava eram barcos de passageiros para fazer tal percurso, os maiores deles ostentando imponentes Carrancas de proa, criações fantásticas do mestre Biquiba – Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany, cuja estética, à primeira vista, distópica, conseguira no entanto, magicamente, harmonizar elementos discordes, não sendo a figuração entalhada por ele nem aterradora nem amistosa, nem homem nem bicho, conservando uma relação de caráter com as próprias entidades mitológicas do rio, com seu habitual elenco de virtudes contrapostas - e que, a todo instante podiam ser vistos subindo e descendo o rio.

0 plano de Manezinho, porém, era outro: atravessaria a ponte para ganhar o vistoso e confortável Vapor Benjamin Guimarães, na vizinha Juazeiro, que era o ponto final no trajeto dessa embarcação, antes de voltar para Pirapora.

Até que esse dia chegou, finalmente. E no convés de cima do vapor, um tanto solitariamente, Manezinho viu seus novos companheiros de viagem acenarem para amigos e familiares que, de longe lhes respondiam, enquanto escutava o característico apito prolongado do vapor, se afastando do cais.

Doze dias se passaram.

Quando o vapor atraca de volta no Juazeiro, chega trazendo dessa vez - em vez da alegria de sempre – pequenas carrancas de dor e medo ainda estampadas na face dos desembarcados. Um medo logo associado à sensação de alívio pela volta sã e salva. A notícia do desastre ocorrido na viagem de volta não tardou a se espalhar pelas duas cidades vizinhas. Verificou-se depois não ser aquele um acontecimento inédito na atribulada história da navegação do rio, mas, por aqueles dias, a ocorrência do passado vinha esquecida, sobretudo pelas novas gerações, e ninguém na cidade teria tido a capacidade de prever uma reincidência dela.

Manezinho sobe ao cais carregado numa maca. Vinha mais morto que vivo, e os recém-chegados, entre louvores e persignações, falavam de três mortes a bordo, como consequência da epidemia de febre que grassou no barco durante o percurso de volta. No auge das infecções, quando não havia mais remédios a bordo, os passageiros, de comum acordo com o capitão do vapor, se tinham decidido, movidos pelo medo terrível de mais contaminações, pela saída extrema de atirar os cadáveres na água.

Manezinho fôra o último dos infectados a manifestar sintoma febril a bordo, depois de extinto o estoque de cascas de quinina na farmacinha do vapor. Antes que lhe aparecessem os sintomas da doença, no entanto, já três companheiros tinham sucumbido aos males diversos causados pela infestação. Ao desembarcar carregado na mesma maca que havia, até ali, salvo sua vida, manifestava então os sintomas de uma bronquite que não tardaria a virar pneumonia - caso não fosse imediatamente hospitalizado e tratado com febrífugos e tetraciclina, um medicamento novo àquela época. Quando, após alguns dias, foi dado como fora de perigo e recebeu alta, o povo já conhecia, em detalhes, a razão de sua sobrevida.

O barco acabara de deixar S. Roque, e dentro de mais 3 dias o Benjamim Guimarães abriria os botões de sua chaminé para avisar o povo do Juazeiro que estava de volta. É manhã, bem cedo, e no salão/dormitório, que compreende uma boa extensão do 2º convés, a maior parte dos viajantes erguera-se já da rede, e viam-se só uns poucos deles, entregues, ainda, à tarefa de dobrá-las.

No relato de Celestino: “Naquela manhã, uma das redes deu a parecer que seu ocupante continuava ainda em sono profundo. Pejada e com as bordas dobradas por cima, seu leve balanço correspondia apenas ao suave ondular do barco na correnteza do rio, embora aquele sono tardio bem que podia ser o resultado de uma indisposição qualquer, afinal, àquela altura, alguns vinham já extenuados pela viagem. Quando é lá pelo meio-dia, porém, a rede começa a se agitar, e dela partem gemidos. Impetuoso como sempre, Manezinho adianta-se, e é o primeiro a ver, e também a vaticinar o que se passa ali. Dentro da rede, o corpo de uma mulher arde e se contorce em meio a delírios de febre. Muito provavelmente foi este o lugar e o momento em que Manezinho se infectou”.

Os passageiros deram-se conta do perigo quando já algumas informações desencontradas atropelavam-se pelos 3 conveses do vapor. Um homem com fortes dores de cabeça exibia estranhas marcas vermelhas pelo tronco, no convés de baixo havia alguém se desmanchando na diarreia, e quando essas notícias invadiram por fim a cabine de comando, no convés do meio, o velho capitão Manoel, não pensou duas vezes e ordenou ao imediato que juntasse o que havia de medicamentos contra febre na farmácia do barco. Era o Tifo. Numa de suas, cada vez mais raras, recidivas.

O relato de Celestino sobre esse surto de febre tifoide – uma variante do Tifo -, acabaria incorporado ao acervo popular do lendário vapor Benjamim Guimarães, um barco que nascera para rios de peito largo como o Mississipi e o Amazonas, gigantes por que passara antes de ser adquirido por um comerciante de Pirapora para fazer história no São Francisco, e timoneado que foi durante décadas por esse seu último Comandante Manoel Mariano da Cunha, esse mesmo que, diante da farmácia de bordo esvaziada, teve o extraordinário tirocínio de arrancar uma prateleira de sua cabine, para, com ela, improvisar a maca que levaria aquele paciente e xará a um banho de imersão nas águas do São Francisco, como única e desesperada forma de debelar o fogo que, visivelmente se alastrava pelo seu rio interno de sangue nas veias.

Deitaram Manezinho na prateleira e ali o amarraram bem. Sem a menor possibilidade de naquele momento se pensar num sistema de roldanas que descesse o corpo ao rio, amarraram, no entanto, cordas a cada uma das extremidades do funéreo pacote e fizeram-no descer aos poucos, esticadas pelo peso. Era preciso manter o pacote ao máximo na horizontal, enquanto o Capitão, aos gritos, corrigia a inclinação. Quando a improvisada liteira chegou a pouco menos de um metro de distância do espelho d’água, o capitão ergueu o braço e gritou que parassem.

Em seguida ajustaram o que mais parecia um esquife sacrificial aos deuses e mitos do rio como a Serpente da Ilha das Cobras, a Mãe d’Água e o Nego d’Água, que na imaginação ribeirinha habitam os covis profundos da lama do rio, aplicando agora pequena inclinação de modo que a parte concernente dos pés fosse ligeiramente mais baixa que a da cabeça, e pudesse, assim, cavar a abertura por onde a tábua mergulhasse por inteira tão logo fosse largada de vez pelos braços da tripulação, a um grito de comando do velho timoneiro Seu Manoel, versado que sempre fora em içamentos, flutuações e naufrágios.

O baque do corpo na água escutou-se no convés de cima, e, como previsto, o rio abriu sua pequena narina e o corpo sumiu temporariamente nas águas. O Comandante, de braço erguido e de olho no cronômetro, contou os segundos que faltavam, para, num gesto cortante, ordenar içarem-no de volta. O corpo assomou despejando línguas de água pelas bordas como um Faraó em seu sarcófago, retirado que fosse do Nilo por uma equipe de antropólogos “. E logo após isto, notaram que, em volta da liteira, a água fervia.

Assombrados, viram os pequenos peixes que saltavam para longe da tábua, e que logo estavam a boiar pela superfície, mortos. O corpo foi retirado da água, e, uma vez no convés, o termômetro acusava baixa substancial da febre. Uma hora depois disso, viram as luzes do Juazeiro faiscarem na distância.

Anos ou décadas depois, quando o apito do velho Benjamim Guimarães não passasse de uma evocação saudosa pelas ribeiras do rio, os homens simples da região gostariam, em seus encontros e comunhões festivas, de relembrar aquele dia em que o “Velho Chico” “freveu”.


Alberto Lacet é artista plástico e escritor

- Aqui que mora o pintor? Eu estava deitado no sofá, quando aquela cabeça assomou por sobre a porta de baixo, da entrada da casa e, d...


- Aqui que mora o pintor?

Eu estava deitado no sofá, quando aquela cabeça assomou por sobre a porta de baixo, da entrada da casa e, depois da pergunta, ficou me encarando, interrogativa. O homem estava do lado de fora da casa, posicionado uns dois batentes abaixo do umbral daquela porta no velho estilo saia & blusa.

Corria o ano de 1974, contava eu então 19 anos de idade e estava passando férias da faculdade em casa de minha mãe, em Campina Grande, na Avenida Getúlio Vargas, 447, centro.

O homem, relativamente jovem, era gente das mais simples. Vai ver, um serviçal doméstico, e – mas não exatamente por isso --, sem a menor chance de suspeitar que suas palavras acabavam de ser importante vetor no destino de uma vida. O pintor no qual eu, incertamente sonhava me tornar um dia, acabara de ser convocado por ele, de uma forma clara, inequívoca, carregada de convicção. Aquela certeza me contagiou e me emprestou suficiente coragem para, pegando na palavra, responder:

-- Aqui mesmo. Sou eu!

Ele trouxera um recado da d. Lisete (a quem conhecíamos por ser amiga de nossa mãe), que queria contratar um trabalho, e naquele momento estava esperando por mim, um mero estudante de Arte, em sua casa – não muito distante dali – para acertar os detalhes. Ele deu o recado e se foi. Logo em seguida, ainda surpreso com aquilo, coração agitado, parti no rumo daquele endereço, descendo pela calçada da rua. Passei a Mercearia de Seu Adauto, cruzei a Rua Indios Cariris, passei na frente do Cine Avenida, no quarteirão seguinte, dobrei à esquerda na Rua Siqueira Campos, e logo me encontrava diante da casa.

D. Lisete me fez entrar, e, ali mesmo, no jardim, fez a primeira pergunta: se eu sabia mesmo como fazer retratos a óleo. Acontece que, naquele momento, eu me achava ainda contaminado pela dose de autoconfiança, há pouco inoculada, e com isso, passei a responder afirmativamente aos questionamentos sobre minha capacidade artística. Me lembro de vê-la parar, depois de preenchido seu questionário de dúvidas, e me examinar em silêncio por algum instante, antes de entrar na casa para buscar a fotografia em tamanho 3x4 do falecido. De volta, perguntou: ‘’Você acha que dá para fazer por aqui?’’

Era o pai do marido dela, Seu Arnóbio, numa foto antiga e semiapagada. A mulher logo me explicou que estava preparando uma surpresa para o dia do aniversário de seu marido, em data próxima. Ela conhecia bem o tipo de apego que unia Gonzaga, gerente de uma transportadora, à memória paterna. Seria uma enorme surpresa para o filho de Seu Arnóbio, isso a mulher fez questão de salientar. Pelo que dela ouvi, e pelo que ouviria depois do próprio Gonzaga, posso afirmar sem receios que a ligação afetiva que ele mantinha com seu pai em nada devia àquelas que Amadeus Mozart, William Turner, ou o Arquiteto Germano Romero, haviam, pela vida inteira, mantido com seus respectivos progenitores. Mais que amor, veneração.

Minha mãe me adiantou o dinheiro para comprar tela e tintas, e nessa altura, é preciso explicar que, por aqueles dias, eu até já havia participado de uma primeira Exposição Coletiva de Artes Plásticas na Capital, ao lado dos colegas Dalberto Henriques, Bruno Steinbach, Elpídio Dantas, Guilherme Lira, Marcos Pinto, Antonio Lucena e Sandoval Nóbrega, embora tudo que eu tivesse feito até então com pincéis e tintas não fosse mais que algumas pinturas cubistas, alguns pastiches naquela linha mais Picassiana possível, estando portanto ainda bastante longe de possuir o traquejo técnico suficiente para pintar um retrato a óleo, cuja fatura exige do artista não apenas domínio de recursos pictóricos, mas também da sutileza presente em convenções sociais desse tipo. Desenhar eu bem que sabia, sim, e por isto estava ali. Havia feito um retrato, 10 ou 12 anos atrás, quando era apenas um menino e morava em Patos-Pb. Naquela ocasião, porém, fazendo uso exclusivo de lápis grafite sobre papel cartolina.

Por aqueles dias, alheamento profissional combinado com excesso de confiança em relação às dificuldades que me aguardavam, foi o pretexto para que o Arquétipo conhecido como ‘Loucura da Juventude’, se apressasse em invadir meu processo criativo, o que de fato aconteceu quando escolhi para cenário de fundo daquela pintura uma sombria paisagem de canavial ao entardecer (considerei – pasmem! -- que um certo clima sobrenatural ‘caísse’ bem para um homem que já falecera!)... e, como se não bastasse, resolvi colocar uma espécie de lacrau passeando sobre a lapela do paletó da personagem, num arroubo de sinceridade (própria talvez de certo traço cultural inerente a paraibanos rebentos da primeira metade do séc. XX, por herdade do poeta Augusto dos Anjos) que pretendesse lembrar os vermes que foram seus verdadeiros companheiros durante a última viagem!…

Comecei a pintar o lacrau, mas aí, um pequeno filete de luz alcançou-me na mente, aspergindo ali um restinho de bom-senso para que eu, pelo menos, passasse a desconfiar de que talvez os familiares do morto não fossem gostar daquilo... e apressadamente tratei de retirar aquele inseto dali. O forte Tenebrismo canavieiro, porém, um mal menor, esse permaneceria. Quando, finalmente, terminei o trabalho, assinei-o e tratei de rapidamente entregá-lo, pois a data limite já se expirava.

Quando transpus o portão e exibi a tela para d. Lisete, ali mesmo no jardim, ela permaneceu por um tempo muda e espantada com o que via. Na sequência, eu tive o extremo dissabor de, aos poucos, ver sua expressão cambiar do inesperado espanto para um misto de angústia e raiva. “Os olhos até que parecem’’, ela foi dizendo, ‘’a boca também, mas ele não tinha bochechas grandes assim. Seu Arnóbio não era inchado desse jeito. Ele nem bebia’’. E foi ‘pegando ar’ à medida que falava. Não se cansava de citar defeitos, sobretudo os das tais bochechas. Nesta altura eu já buscava um buraco onde me socar, feito um daqueles vermes, os tais amigos derradeiros do falecido, mas, num dado momento, a dona Lisete se deu conta do quanto eu estava constrangido, e foi então que se lembrou de recorrer à viúva do retratado para que emitisse ela também sua opinião sobre a obra. Afinal, a dona Alice vivera a vida inteira com o suposto retratado, opinião esta que a dona Lisete – foi logo adiantando --, havia de ser equivalente à sua, desabonadora de qualquer suposta fidelidade naquele retrato à feição de Seu Arnóbio, e, se assim fazia, era para que eu não pensasse que ela estava com algum tipo de má vontade para com meu trabalho, e procurasse compreender que ela estava apenas muito decepcionada com o fracasso da empreitada, com aquela tremenda falha de fidelidade na pintura.

Hoje eu me arrisco a dizer que o que ela tentara me explicar, na verdade, é que estava com muita raiva de si própria por ter sido tola ao ponto de acreditar que um jovem inexperiente feito eu fosse capaz de cumprir à risca um compromisso daqueles. Dito aquilo, porém, a mulher entrou novamente em casa e foi buscar a sogra anciã.

Depois de uma espera interminável, a dona Lisete e uma empregada da casa, segurando cada uma num dos cotovelos de dona Alice Gonzaga, já de idade bastante avançada, apareceram na porta. A anciã bem que era frágil. Bem decrepitazinha. Levaram um tempão para fazê-la descer o desvão de uns poucos centímetros entre a sala e o terraço. Por fim a sentaram numa cadeira, e enquanto a dona Lisete, considerando a avançada miopia da sogra, posicionava o quadro sobre as coxas dela, a outra mulher tratava de colocar-lhe os óculos no rosto. Nesse momento, e eu digo aqui com sinceridade, senti um tênue fio de esperança me reanimar: é que naquelas condições em que a viúva se encontrava, tudo podia se esperar. Era possível ATÉ MESMO que ela viesse a identificar naquele retrato as feições do companheiro que o destino um dia lhe designara para seu convívio. Mas, quando a idosa, finalmente, pôs seus olhos no quadro e neste se concentrou, demoradamente, um silêncio se fez. Depois de um tempo que me pareceu um século, a d. Alice Gonzaga, com uma energia insuspeitada quanto súbita, fez aquele gesto de afastar o quadro de si, e com seu filete de voz, ergueu a cabeça e exclamou para que todos ouvissem:

--- Este aqui nunca foi o finad’Arnóbio!

Ato contínuo, a nora sentou-se ao lado dela, e passou a salientar, para ela, os traços cuja infidelidade condenavam o retrato, e só depois, quando percebeu, num relance, o lamentável estado psicológico em que eu me afundara, voltou-se pra mim, e, preocupada, quis minimizar a situação. Tentava agora me consolar, dizendo que a pintura era, apesar de tudo, de excelente qualidade, o quadro era bonito, etc., apenas não concernia à pessoa do retratado. Que eu não ficasse assim, porque ela iria me pagar segundo o combinado, etc. Disse ainda que, de qualquer forma, eu havia feito o possível para cumprir com meu papel, que havia entregue o quadro no tempo combinado. Apenas ela desistira de presenteá-lo ao marido. Só isso.

Quando eu subia de volta a ladeira da Avenida, o desânimo quis tomar conta de mim. O dinheiro que eu tinha colocado num bolso da calça, em contato com minha coxa, parecia queimar. Como se fosse dinheiro roubado. Teve um momento em que parei junto a um poste. Estava confuso e angustiado depois do enorme vexame a que fora submetido, mas foi aí que subitamente me ocorreu um pensamento redentor: o de que havia alguma coisa errada com o que eu acabara de experienciar.

Em seguida me lembrei da recorrência biográfica sobre todos que são vocacionados para alguma profissão, dos primeiros testes a que são submetidos na vida, e sobre os quais obtêm sua invariável superação. Portanto, aquelas mulheres estariam certas, caso eu não possuísse vocação para a pintura. E erradas, em caso contrário. De qualquer forma eu não havia pintado aquele quadro para elas, mas para aquele que era filho e marido delas. Este raciocínio, bastante claro, me acalmou, e eu consegui assim, são e salvo, estar em casa de volta naquela manhã.

Mas não demorou. Aproximava-se o final das minhas férias e lá estava eu, deitado no mesmo sofá, quando aquele mesmo rosto assomou sobre aquela mesma porta. “Seu Gonzaga mandou lhe convidar para almoçar com ele. Hoje. Ao meio dia”. Lembro bem desse domingo. Quando entrei na sala vi o retrato aposto, de frente, na copa ao lado, a mesa estava posta. Havia vinho sobre ela, taças de cristal e muita comida. Gonzaga ergueu-se para me receber e começou a falar. “Ontem, eu cheguei em casa às pressas, no final do expediente, pois precisava vestir uma roupa social para me fazer presente a um evento da Empresa. Lisete não se achava em casa, e eu comecei a procurar meus sapatos, sem encontrá-los. Nisso, me veio a ideia de verificar sobre o guarda-roupa, e após subir em uma cadeira, passei a mão lá por cima, e esta bateu em algo que caiu com grande barulho na parte de trás do guarda-roupa, desci da cadeira e fui ver o que era aquilo. Com aquele quadrado nos braços o meu susto foi enorme. Era meu pai, olhando para mim. A primeira coisa que fiz foi cancelar o evento social. Inquiri primeiramente minha mãe, que estava em casa. Passei ordens depois para os empregados, para que fossem procurar a Lisete nos lugares aonde ela costuma ir. Quando por fim me explicaram tudo, tim-tim por tim-tim, eu falei para as duas: vocês humilharam esse pobre artista. Este é o meu pai tal qual trago na memória esses anos todos da minha vida. Ele com suas bochechas, que a doença varreu de seu rosto nos anos da longa enfermidade que acabou com a vida dele, mas vocês rapidamente se acostumaram com sua imagem descarnada do final. Mas este é e sempre será o pai que tive e tenho, e vocês esconderam de mim o retrato fiel dele. Eu falei para Lisete: no meu aniversário você substituiu o quadro por um par de sapatos novos, dos quais, aliás eu estava mesmo precisando, mas foi esse mesmo par de sapatos que, antes mesmo de serem calçados pela primeira vez, acabaram me conduzindo para o esconderijo do quadro. Vamos agora fazer para esse moço, um pequeno almoço de desagravo. Acredito que ele possa nos perdoar”...


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Numa noite, no ano de 1956, ele entrou estabanado na sala de uma residência em Teixeira – Pb, no pleno decorrer de uma Cantoria de Vi...


Numa noite, no ano de 1956, ele entrou estabanado na sala de uma residência em Teixeira – Pb, no pleno decorrer de uma Cantoria de Viola entre Lourival do Pajeú e Pinto do Monteiro. A forma inoportuna de sua chegada provocou mais uma sextilha famosa de Louro do Pajeú:

Ô Pinto, preste atenção / O mundo está transformado / Veja só Pedro Compasso / Como vem com o passo errado / Os outros compassos riscam / Mas este já vem riscado

Natural da Serra do Teixeira, Pedro Compasso foi um dos primeiros motoristas a se aventurar por aqueles contrafortes da Borborema, tendo se iniciado nos mistérios que passam da centelha à combustão, da tração à rotação e guia, quando ainda bem jovem, levado que foi pela mão do legendário ‘Bibiu’ – decano dos chauffeurs teixeirenses -- para ser seu ‘’moleque de ajuda’’ por acidentadas viagens durante aquele pós-guerra de 1930.

Para a sorte de ambos, o destino os poupou de errar pela “Ladeira da Verônica” (também chamada de Ladeira da Onça, tinha esse nome por ter sido ali onde Verônica Lins de Vasconcelos, esposa do sertanista pernambucano Manoel Lopes Romeu, havia matado uma onça – a facão, diriam uns, a arcabuz, diriam outros – quando à frente de um pequeno bando de serviçais, sobe a serra no ano da graça de 1773, numa ação mais do que temerária, e que tivesse por único objetivo recuperar seu marido que, a pretexto de uma caçada, estava se demorando por aquelas paragens muito além do que fosse recomendável), que era o pesadelo de tantos quantos tivessem de tomar o rumo Norte, que leva ao sertão. Isto devido à descida extremamente abrupta e íngreme a que essa aclive levava, uns 200 metros mais na frente.

Mas, os tempos mudavam. Senhores mais abastados começavam a importar automóveis de diferentes marcas, e, uns anos depois, o Brasil via surgirem os caminhões popularmente conhecidos como Fenemês, da nascente indústria nacional, e isso era razão de sobra para o Estado Novo de Getúlio Vargas resolver espalhar estradas pelo país, e assim, no começo da década de ‘40, iniciou-se a construção da chamada Estrada de Rodagem, que era o que podia haver de mais moderno para aqueles habitantes da serra.

‘Governar é Abrir Estradas’, dizia um jargão da época, e essa máxima se estendeu por todo um período que ia do final dos anos ’30 até a década de ´60. Naquele início, é possível dizer que a vida parecia sorrir para o legendário Bibiu, e, por tabela, para Pedro Compasso.

Aconteceria, porém de, nos anos posteriores, quando já houvesse Bibiu largado a profissão, vitimado por um acidente que lhe comprometeu parte da mobilidade física, que continuasse seu pupilo, Pedro Compasso, a frequentar boléias, e até conseguisse adquirir para si um caminhãozinho velho. Comumente chamado de “fubica’’, este lhe permitia, no entanto, manter-se como autônomo, dono de seu tempo, longe das ordens dos senhores brancos e abastados.

No começo de todo aquele processo, porém, a Serra do Teixeira registraria grande quantidade de acidentes fatais. Os caminhões produzidos na época pela indústria internacional – Studebaker, Alpha Romeu, etc -- não tinham ainda tecnologia satisfatória para enfrentar condições tão adversas em estradas que iam sendo construídas sem observância de quaisquer dos princípios básicos de segurança, tais como hoje os entendemos: acostamento, barras de proteção, sinalização, etc. O sistema de freios, a incipiente resistência do material utilizado na confecção da barra de direção, para citar alguns pontos vulneráveis, não suportavam torções e pressões quando submetidos ao transporte de cargas muito pesadas em ladeiras com inclinação próxima dos 40 gráus.

O carro de Antonio Pereira / Em baixa velocidade / Virou, matando a metade / Do povo bom de Teixeira / Gente boa, hospitaleira / Se acabou nesta enrascada / Com gente ruim não há nada / Não há sequer embaraço / Cadê que Pedro Compasso / Nunca morreu de virada?

(poeta Zé Marcelino)

Mas essa inovação na vida dos brasileiros começara, em Teixeira como em todo canto, a produzir novos profissionais do volante. As continuadas politicas desenvolvimentistas alcançariam seu auge nos anos ’50, e, nas imediações da bomba de gasolina de Aristeu Guedes, onde motoristas faziam ‘ponto’, tornou-se cena comum esses novos profissionais troçando do velho Pedro Compasso (que por esse tempo dividia a antiga constância no volante por essa mais recente, de consumir aguardente) com seu maquinário ultrapassado.

Zombeteiros, aqueles moços punham em dúvida não só a capacidade profissional do velho caminhoneiro, como a da sua esgarçada ferramenta de trabalho, um antigo Volvo de cor escura indefinível, e cuja máquina demorava-se cada vez mais em ceder aos apelos da manivela. Jocosos, gritavam de longe suas provocações a Pedro Compasso. Faziam isso, certamente, para ouvir as respostas espirituosas de sempre:

-- Aonde eu entrar no Recife com 60 km/h de ré, vocês não entram com 30 de frente!”

Magro e alto, Pedro Compasso tinha braços e pernas que, por serem muito longos faziam dele um tipo bastante desengonçado, e que parecia estar sempre ocupando o espaço na forma mais imprevisível. Bebendo em um bar, ele agitava-se e falava num tom de voz que era sempre em sustenido maior. Falava como se estivesse no meio de uma feira abarrotada de pessoas. E talvez por sua verve pitoresca, gostasse, como poucos de se fazer presente às cantorias de viola.

Encerremos com esse verso primoroso do poeta Zé Marcelino, escrito momentos após ‘convencer’ Pedro Compasso a se retirar do seu bar, numa hora da noite já bem tardia. Feito como verdadeiro desabafo, após fechar as seis portas de seu bar:

O diabo que joga o laço / Em tanta gente de bem / Porque um dia, não vem / E leva Pedro Compasso?/ Lhe deixe lá no espaço / Na esfera sideral / Onde seu corpo anormal / Que tanto incomoda e erra / Fique longe cá da terra / Não se veja nem sinal.


Alberto Lacet é artista plástico e escritor. lacet.alberto@gmail.com

Um náufrago é alguém de quarentena, isolado no mar da vida, tocando numa direção incerta como esse timão governado por um macaco prego, o ma...



Um náufrago é alguém de quarentena, isolado no mar da vida, tocando numa direção incerta como esse timão governado por um macaco prego, o mais irrequieto de todos os símios…

Mas pode ser também um momento de grande criatividade. As grandes obras de Arte européias, tanto na Música quanto na Pintura, foram criadas em quarentenas decretadas pelo frio. Sem falar que, em consórcio on-line com Mauricio Carneiro, o Dr. Cachacinha, estou criando o protótipo embrionário de uma bebida chamada Xaropirinha, um blend de Volúpia com mel de italianas, e que, desdobrado em sumo de limão e gelo, fornecera uma nova caipirinha,.. Como vê, o confinamento pode servir para alguma coisa.

O confinamento nunca é verdadeiramente confinamento a menos que não saibamos o que fazer com ele. É claro que cientistas, artistas, escritores, filósofos, artesãos finos, etc, fazem da solidão a verdadeira estrada da vida. E eles devem ensinar às pessoas, ou tentar passar um pouco de esperança, e que é possível lidar com isso, sem entrar em desespero.

Os antigos eremitas, religiosos autênticos, os monges, tinham se apoderado dessas capacidades. Com o tempo a religiosidade decaiu muito porque aquele fervor de crença já não se fazia necessário em uma igreja vitoriosa e que estava entregue ao poder mundano.

Pablo Picasso disse uma vez: "Ninguém haverá de criar nada sem o favor da solidão. Sabendo disto, tratei de criar uma solidão para mim". O gênio e sua penetrante compreensão dos processos em que está envolvido.

Tenho um amigo pintor que agora mesmo está islado e às voltas com uma tela de dimensões maiores que as comumente usadas por ele. Me disse que não tinha outra coisa a fazer que não fosse pintar, e eu lhe disse que esse era o momento de avançar (ele é um sujeito culto e certamente sabe disso), que os momentos em que eu consegui dilatar minhas concepções, composições e execuções artísticas se deram em meio às piores dificuldades, tanto materiais quanto espirituais, e posso dizer mesmo que me encontrava bastante adoecido e fragilizado.

Mas consegui, naqueles momentos de sofrimento, dar uma resposta criativa à altura do que a cisma existencial exigia para que eu seguisse vivendo, e que tinha de ser em novo patamar. E foi isso que aconteceu. Era uma quarentena mil vezes pior do que essa que vivo agora.

As pessoas que passam dramas profundos e conseguem superar adquirem alguma imunidade, embora não devam se confiar na HYBRIS...

(retraços da Web)