Ele foi instruído a procurar um Teofre. Agenor lembrava-se dele, e embora sem ter maiores aproximações com o tal, sabia de seu predicado hu...

Sarriá, funeral e confinamento (Parte I)

ambiente de leitura carlos romero alberto lacet funeral em igreja conto enterro misterio agenor macena

Ele foi instruído a procurar um Teofre. Agenor lembrava-se dele, e embora sem ter maiores aproximações com o tal, sabia de seu predicado humilde. Numa volta pela rua, consultou um pequeno grupo de meninos, e um deles, de esguelha, deu uma rápida conferida na posição do sol e disse saber onde ele podia ser encontrado àquela hora. De posse do recado, saiu nas carreiras para o lugar tido em mente.

Não levou muito tempo para o dito Téo aparecer na igreja vazia. Trazia ele o pequeno chapéu amassado feito uma bola na mão por trás do quadril, e daí a pouco ajudava na retirada do caixão, a pô-lo no carro, uma vez rebaixado o banco traseiro, e depois não se negando a acompanhá-los no translado até o sítio, onde o corpo seria velado por um tempinho mais,
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sobretudo para que tia Tecina e o marido, sempre doentes, pudessem se despedir do irmão e cunhado.

Jamais passaria por sua cabeça que sepultar o pai lhe fosse um dia exigir tamanha dose de imaginação e cálculo. Pior, que se veria obrigado a conter o sentimento de humilhação e revolta diante do que considerou um verdadeiro ultraje ao falecido, e mesmo que, depois, tivesse de levar em conta que essas coisas foram acontecer num dos mais atípicos dias dos quantos dias atípicos para cumprias de funeral se tenha até então tido notícia. Embora não tivesse ocorrido, afinal, nenhum abalo sísmico ou calamidade pública de qualquer ordem, guerra nenhuma, e pelo contrário, estavam até saindo de uma tragédia coletiva na política, e quando até mesmo a epidemia de meningite se fora.

Por isso aquela impressão, segundo confessou mais tarde o Dr. Agenor Macena (cuja cor da pele o fizera, antes e tantas vezes, passar por situações tão ou mais amargas que aquela), de estar, uma vez mais, vivendo um drama personalizado. De estar passando, durante o decorrer desses fatos, por mais um absurdo desgaste em seu ciclo de vida privada.

Mas bem antes disso ele havia considerado que as duas viaturas disponiveis no sítio, o automóvel e a carroça de Ze Miguel, seriam o bastante para a logística do enterro. Lembrando-se sempre que poderia contar com a experiência prática da tia Beza para as conveniências da liturgia, e que fora uma boa ter adquirido esse providencial aliado de última hora, Teofre, que já fora localizar o funcionário do cemitério para a preparação do jazigo, de modo que a tia Beza pôde ser deixada em paz para chorar seu morto.

Fizera tudo dentro dos conformes. O corpo iria na carroça aparelhada com dois cavalos, um feixe de molas adaptado e pneus de automóvel, com Zé Miguel de cocheiro e Teofre segurando o caixão, por segurança. A familia, ele e a tia Beza, iriam no automóvel. Estavam em Julho, havia uma Copa do Mundo em andamento, e era um mês mais frio. O céu andara brumoso por esses dias, e que não fosse inventar de chover agora.

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Mas as coisas bem que tinham começado de maneira estranha, desde seu início, dentro da Igreja. Com o turíbulo em rédea curta, o padre lançara o incenso de praxe sobre o morto com suas narinas entupidas pelo último algodão a lhe servir às necessidades do corpo. O pai estava ali, rosto ressecado de múmia, enquanto a tia Beza e o auxiliar do padre respondiam ao torneio oratório puxado pelos rogos do padre.

Não havia mais ninguém na nave, o que era muito estranho.

O pequeno órgão da Igreja ali, tampado. O banquinho escondido, embaixo. De onde estava, deu para ver e até sentir-se um tanto assombrado com aquela santa solitária, no alto de uma das alas laterais da Igreja, de pé sobre um altar cavado na parede. Tinha um braço erguido por trás da portinhola de vidro, e parecia acenar de lá, não para o pai, àquele momento num reino provavelmente mais próximo do dela, mas para Agenor, segundo a impressão depois confidenciada, embora nem soubesse ele dizer o nome da santa.

Mas o que ficou – mesmo - bastante claro depois, foi que o dr. Agenor Macena não entendia bulhufas de futebol. Talvez nem gostasse desse jogo de bola, mas que deu para perceber sua surpresa, deu.

Faltava bem pouco para concluírem o pequeno trecho da rua principal (um pouco antes do cortejo guinar para a esquerda, para em seguida percorrer o outro longo trecho em aclive suave que leva às ruazinhas do bairro onde fica o cemitério), quando aconteceu o que ninguém podia esperar. Ecoaram aqueles gritos.

Continua no próximo capítulo. Aguardem!


Alberto Lacet é artista plástico e escritor
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