Tristeza não é sobre o fim das coisas, mas sobre a beleza de elas terem existido.
Existe um tipo muito específico de silêncio que só a perda consegue instaurar. É um silêncio denso, quase palpável, que não preenche apenas a sala ou o quarto de hospital, mas reverbera nas dobras mais escondidas de quem fica. Nesses momentos, quando o mundo ao redor parece perder temporariamente a gravidade e o chão sob nossos pés vacila, a reação quase instintiva do ser humano moderno é o espanto, o protesto, a recusa. Fomos educados para conquistar, acumular, estender e vencer e, por isso, encaramos a morte como uma derrota pessoal, uma falha na engrenagem, um ladrão que surge sem avisar.
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Recentemente, ao navegar pelas águas profundas do ensaio *Em questão a queda*, de Durval Leal Filho, vi-me novamente conduzido a essa reflexão incômoda e imperativa. O texto ressoa como um lembrete gentil de que cair, desmoronar e findar são movimentos tão naturais quanto o erguer-se. Inspirado por essa leitura, retornei a um farol ao qual frequentemente me apego nos momentos de luto e travessia: um texto que não pertence ao dogma ou ao milagre, mas à profunda e honesta compreensão da natureza humana: a *Carta da Ossada Branca*, do Mestre Rennyo.
Ainda que oriundo de uma tradição filosófica oriental, o escrito de Rennyo ultrapassa qualquer fronteira religiosa. Para quem, como eu, não professa fé em mitos ou dogmas e encontra seu altar na literatura e nas ciências, a imagem da "ossada branca" não surge como uma ameaça macabra, mas como uma constatação biológica e poética. Ela nos lembra da fragilidade efêmera do sopro que nos mantém de pé: pela manhã, ostentamos rostos corados, cheios de planos, certezas e orgulho; à noite, podemos já ter nos transformado em cinzas ou ossos brancos.
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Parte do nosso sofrimento diante da perda nasce do equívoco de achar que as coisas só têm valor se durarem para sempre. Mas a verdade é exatamente o oposto. É a brevidade que concede peso e encanto a cada segundo. O pôr do sol não nos fascina porque vai durar a noite inteira, mas porque sabemos que, em poucos minutos, suas cores se dissolverão na penumbra. O abraço de quem amamos não é precioso apesar de ser passageiro; ele é valioso porque é passageiro.
Quando aceitamos que o nosso tempo e o tempo daqueles que amamos são finitos, a vida deixa de ser um ensaio geral e passa a ser a própria apresentação. O olhar torna-se mais atento, o perdão mais urgente, o afeto mais generoso. A finitude limpa o ruído do cotidiano e nos devolve o que realmente importa: a presença.
Perder alguém essencial para o nosso existir dói, e essa dor não deve ser anestesiada ou negada. O luto é o preço que pagamos por termos tido a audácia de amar. Contudo, ao buscar amparo na literatura lúcida e na compreensão científica da vida, percebemos que aqueles que partiram não desapareceram no nada; eles simplesmente concluíram a sua estrofe na longa e ininterrupta canção do universo. Eles voltaram às suas origens, deixando em nós as marcas indeléveis de sua passagem.
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Que possamos, portanto, viver sem a ilusão da eternidade, mas com a plenitude de quem sabe que cada momento é único. E que, quando a nossa hora de cair chegar, saibamos fazê-lo com a mesma graça e dignidade de uma folha de outono que regressa, finalmente, ao aconchego da terra.










