No ano de 1961, o presidente dos Estados Unidos da América, John Kennedy, criou o *Peace Corps*. Esta entidade recebeu, no Brasil, o n...

João Americano

amizade itaporanga guerrafria memoria reencontro coragem
No ano de 1961, o presidente dos Estados Unidos da América, John Kennedy, criou o *Peace Corps*. Esta entidade recebeu, no Brasil, o nome de Voluntários da Paz. Previa a integração dos EUA com países americanos. Originalmente, esses convênios previam, entre outras coisas, reformas de base, inclusive a reforma agrária.

Achavam os americanos que, com a sua presença nos países conveniados, estes não derivariam para o comunismo, nem apoiariam a ilha de Cuba, que, havia poucos anos, sofrera uma revolução que tomou rumos comunistas.

amizade itaporanga guerrafria memoria reencontro coragem
GD'Art
A presença e a influência americanas foram decisivas para as mudanças que aconteceram na América Latina a partir de então.

Sob a fachada de integração com as nações amigas, o *Peace Corps* enviou americanos para todas as regiões dos países conveniados. Lá, estes fizeram o mapeamento dessas regiões, abastecendo a CIA de informações sobre tudo: condições sociais e econômicas, tendências político-ideológicas e riquezas locais.

amizade itaporanga guerrafria memoria reencontro coragem
GD'Art
Ao longo da década, todos esses países foram sofrendo golpes de Estado, financiados pelos Estados Unidos: Brasil, Uruguai, Argentina, Paraguai, Chile, Bolívia e Peru.

As consequências não foram tão boas para cada um desses países. Os regimes ditatoriais instituíram perseguição política, prisões em massa, tortura e morte de quem discordava.
Muitos jovens americanos participaram dos Voluntários da Paz para fugir da Guerra do Vietnã. Um deles foi João Americano.

amizade itaporanga guerrafria memoria reencontro coragem
GD'Art
John Konstantinos Paraskou é um grego nascido nos Estados Unidos, para onde seus pais haviam emigrado após a Segunda Guerra Mundial, em busca de melhores condições de vida.

Ele chegou à cidade de Itaporanga no ano de 1968. Com um espírito muito cordial, brincalhão até, logo se tornou uma personalidade querida na cidade.

Como era bonito, logo conquistou o coração das moças de lá. Como era muito simpático e cordial, conseguiu atrair a simpatia dos rapazes e evitar ser hostilizado por eles, pois a ordem vigente entre os estudantes brasileiros era: “Go home, yankee!”.

Um dos rapazes da cidade, mas morador de João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, era o meu irmão Humberto.

Humberto passava as suas férias em Itaporanga. Aliás, todos nós, oito irmãos, passávamos as férias lá. Férias inesquecíveis, diga-se de passagem, durante as quais experimentávamos tudo o que havia de atraente para um jovem da capital (nem tudo publicável!).

amizade itaporanga guerrafria memoria reencontro coragem
GD'Art
João Americano, como passou a ser chamado, tinha em comum com Humberto o gosto pela música, uma das especialidades dele.

Ele conhece tudo sobre a música americana: títulos, autores, compositores, cantores, músicos... Tudo! E isso aproximou João dele.

Aos poucos, essa afinidade evoluiu para amizade. Juntos tiveram a oportunidade de viver as mais inusitadas situações possíveis. Uma delas foi uma tentativa de assassinato. Eu vou contar.
amizade itaporanga guerrafria memoria reencontro coragem
GD'Art
A programação básica das férias em Itaporanga era: futebol no campo do ginásio; banho no rio Piancó; picolé na sorveteria de Firmino; jogar pife-pafe nas casas dos avós; final da tarde tomando cerveja no bar-sorveteria de Walter; banho e muda de roupa para ir à missa na igreja matriz; o quem-me-quer na praça da matriz; jantar dançante novamente na sorveteria de Walter, regado a rum Montilla; e o encerramento do dia num concurso de peidos e de mentiras, no obelisco da Praça João Pessoa. Não necessariamente nessa ordem.

Num desses jantares dançantes no bar-sorveteria de Walter, estavam todos brincando animadamente quando chegou uma figura muito popular no Vale do Piancó, porém muito malquista em todas as cidades. Não gozava de boa fama. Só andava armado e acompanhado de um capanga. Era um homem rico, bebia muito e já havia matado uma pessoa. Chamemo-lo de “O Cara”.

Pois bem, estavam todos animados quando O Cara chegou acompanhado de um irmão. Já estava puxando fogo e exigiu de Walter uma mesa junto à pista de dança. E lá se sentou, constrangendo todas as moças e intimidando os rapazes.

amizade itaporanga guerrafria memoria reencontro coragem
GD'Art
João estava em uma das mesas, acompanhado de Humberto, da prima Edilma e da grande amiga e colega de Humberto, Nadja, daqui de João Pessoa. Ambas já estão no céu.

Doido para arranjar confusão, O Cara logo enxergou João Americano exibindo simpatia entre as moças e os rapazes. Edilma era namorada de João, o que encheu O Cara de ciúmes. E decidiu tomá-lo como desafeto.

Logo começou a provocá-lo cada vez mais insistentemente. Porém, João não dava a mínima.

amizade itaporanga guerrafria memoria reencontro coragem
GD'Art
Estavam conversando à mesa, João e Edilma, quando, de repente, passou voando um copo que foi bater na parede, a uns dez centímetros da cabeça de João. Foi O Cara, na mesa vizinha, quem o jogou e levantou-se buscando sacar o seu revólver.

Num instante, todas as pessoas que estavam no bar de Walter correram, inclusive João. Ficamos só os quatro: Humberto, Nadja, O Cara e seu irmão.

Foi quando O Cara se dirigiu para a mesa deles, gritando impropérios e sacando o revólver! Todo mundo correu, ficando apenas Humberto e Nadja.

Vendo a arma, Humberto atracou-se com ele, pedindo que largasse o revólver, sendo ajudado por Nadja. Uma explicação: O Cara tinha um parentesco atravessado com a nossa avó, Salomé, e, por isso, não fez nada com Humberto. Terminou indo embora com o irmão, que, por sorte, não sacou a arma.

João conseguiu escapar pela porta lateral da sorveteria. E o jantar dançante quase acabou na bala.
amizade itaporanga guerrafria memoria reencontro coragem
GD'Art
Os anos se passaram, cada um foi para o seu lado. Humberto concluiu o curso de Direito e trabalhou como promotor de justiça no interior do Estado.

Logo depois, prestou concurso para Procurador Federal dos Territórios, sendo nomeado para o então Território do Amapá. Em 1976, foi fazer pós-graduação na França, na Universidade de Sorbonne Paris II. E lá aconteceu outro fato inusitado envolvendo os dois amigos.

Pois não é que Humberto descobriu que o velho amigo estava na França? O agora *Monsieur* John Konstantinos Paraskou morava em Paris! Humberto, então, conseguiu o contato dele e telefonou. Ao identificar o amigo brasileiro, John cantarolou a música **Guantanamera**!

Essa música era exatamente a que estava tocando na sorveteria de Walter, justamente na hora em que O Cara tentou matá-lo!

E John nunca se esqueceu disso. Nem da música, nem da briga, nem dos amigos. E retomaram a amizade, que perdura até os dias de hoje.

Ele contou a Humberto que logo deixou de ter muitas ligações com os Estados Unidos, à exceção de um irmão, que mora em San Francisco. Foi conhecer a França e Paris e lá apareceu uma vaga de professor numa escola de inglês. Foi aprovado na seleção e, a partir daí, jamais deixou Paris, onde permaneceu como professor de inglês.

A amizade voltou tão intensa que John foi testemunha do casamento de Humberto com sua querida Arlette Martin, da Normandia. Há poucos anos, Arlette desencantou-se daqui e encantou-se nos céus, na forma de uma bela arara *blanc-bleu-rouge*!

Essa é uma história de amizade sincera e saudável. É a história de antigos amigos que se reencontraram da forma mais inusitada possível e cuja amizade perdura até os dias de hoje.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas