Dia desses comentei com uma amiga que gosto do número 7. E de 8, 6 e 3. Ela gosta do número 4, por exemplo. Ou seja: gostamos de numerologia. Há quem diga que é crendice. Mas, afinal, como não ter um pouco disso no Brasil? O sincretismo, aqui, é cultural.
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As pessoas se interessaram pela palavra. Ela soa macia, quase como o gesto que descreve. Perguntaram qual era o significado exato. Respondi que era um carinho feito nos cabelos. Elas entenderam. Só que não – o que também é, por si só, uma expressão bem brasileira.
Porque cafuné não é apenas um gesto. É uma forma de afeto. É intimidade, cuidado, proteção. É um avô com o neto, uma mãe com a filha, um casal assistindo a um filme. É um "me faz um cafuné?", que significa muito mais do que mexer nos cabelos. É quase um pedido de abraço.
A tradução existia. A experiência, não.
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Outro dia me peguei pensando em uma expressão igualmente brasileira: Tem gente! Quem nunca ouviu?
A cena é quase universal. Estamos em um restaurante, aeroporto, shopping ou na casa de alguém. Aproximamo-nos da porta do banheiro, giramos a maçaneta e, do outro lado, ouvimos:
"⏤ Tem gente!"
Parei para pensar nisso e achei engraçado. Afinal, se antes de tentar abrir a porta alguém perguntasse "Tem gente?", dificilmente a resposta seria:
"⏤ Não, não tem ninguém. Pode entrar".
Ou ainda:
"⏤ Não, não tem gente. Tem um hamster".
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É uma informação mais ampla, quase filosófica.
Há gente. A existência humana foi constatada naquele lugar.
Fico imaginando um estrangeiro aprendendo português e tentando compreender a lógica da frase. Em inglês, talvez fosse there's someone in here (tem alguém aqui dentro) ou simplesmente occupied
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Porque o que a frase realmente comunica é:
"Eu estou aqui. Eu existo. Estou ocupando este espaço neste exato momento".
Convenhamos: há algo de existencialista nisso.
Aliás, o português brasileiro parece gostar dessas pequenas construções que carregam mais significado do que aparentam.
Pensemos em saudade. Durante décadas repetiu-se que ela não tinha tradução. Mas sabemos que outras línguas possuem palavras semelhantes. Ainda assim, nenhuma delas é exatamente a nossa saudade.
Não importa profissão, idade, religião ou posição social. Diante de uma porta fechada de banheiro, todos somos apenas gente. Não há doutores, políticos, cientistas ou celebridades.Saudade não é apenas sentir falta. É sentir falta de algo que continua vivendo dentro de nós. É uma ausência que permanece presente.
Outro exemplo é jeitinho. Traduzir fosse, talvez, mais fácil do que explicar, que é outra história. Dependendo do contexto, pode ser criatividade, improviso, adaptação, solidariedade ou até transgressão – sim, e como. O significado muda conforme a situação, mas todos os/as brasileiros/as parecem reconhecê-lo instantaneamente. Vejamos uma situação de "jeitinho" pela qual passei recentemente – não fui eu a usá-lo, esclareço antecipadamente. Cheguei apressada a um laboratório de exames clínicos, às 11:50 da manhã – o laboratório fechava às 12 horas. Retirei minha senha, sentei-me, esperei ser chamada. Era sábado, o lugar estava relativamente cheio, com pessoas na mesma situação que eu.
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Essa senhora tão "fina" tentou pegar uma senha. Mas o programa de senhas encerrava ao meio-dia, pois era o final do expediente da clínica. Chamou um atendente para ajudá la, pois achou que estava fazendo algo errado. O atendente explicou sobre a impossibilidade de retirar a senha, pelo horário. Então ela passou a mentir. Disse que chegou antes do meio-dia – não, eu estava observando. Disse que só precisava retirar o resultado de uns exames e o atendente, na boa fé, disse "isso é tranquilo, dá para fazer. Se fosse coleta, daí não mais". Ela garantiu que não era coleta, eram só resultados mesmo.
Foi encaminhada para um guichê de atendimento. Afinal, era só pegar um papel com os resultados. Nesse meio-tempo, eu fui chamada. Sentei-me ao lado da senhora de classe, mas de classe mentirosa, de classe sem-vergonha. Digo isso, pois a ouvi sendo enviada para a coleta de exames,
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Isso se chama canalhice, mas no Brasil é só mais um exemplo de "jeitinho". As palavras, afinal, carregam não apenas significados, mas modos de ser e viver. Voltando ao caso do banheiro, talvez seja por isso que gosto tanto de "tem gente". Ela é uma frase democrática.
Não importa profissão, idade, religião ou posição social – e nem "jeitinho". Diante de uma porta fechada de banheiro, todos somos apenas gente. Não há doutores, políticos, cientistas ou celebridades. Há gente. Simplesmente gente.
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Pensando na vida, na agenda, no tanto de café que bebeu. Sendo, naquele momento, apenas um ser humano como qualquer outro.
A situação poderia ser resolvida com um programa de computador, como vi nessa clínica que comentei. Entra-se, fecha-se a porta e do lado de fora se lê "Ocupado". É conveniente, mas não é tão forte como "tem gente"! Pois essa expressão reduz toda a complexidade humana àquilo que temos em comum.
Do lado de dentro do banheiro, alguém fala.
Do lado de fora, alguém espera.
E, por um breve instante, sem saber quem está dentro ou fora, as duas pessoas concordam em uma verdade simples:
Tem gente.
E isso basta.
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Os japoneses parecem ser especialistas em criar palavras que fazem tradutores ter que "revirar os olhos". Uma delas é "komorebi", termo utilizado para descrever a luz do sol filtrada pelas folhas das árvores. Sim, existe uma palavra para isso. Não só para "sol", não só para "árvore", mas para aquele efeito específico da luz atravessando a copa e desenhando sombras no chão.
Outra é "ikigai", frequentemente traduzida como "razão de viver". Mas a tradução não parece suficiente. "Ikigai" pode ser o motivo pelo qual alguém acorda todas as manhãs, um propósito, uma missão, uma alegria silenciosa, algo que dá sentido aos dias. Não precisa ser grandioso. Para alguns, o "ikigai" pode ser uma profissão. Para outros, um jardim, uma família, um livro ou até um gato. Pausa para reflexão: pode ser mais de um. Qual ou quais são os seus?
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Os alemães também não ficam atrás. Criaram a famosa "Schadenfreude", a satisfação sentida diante do infortúnio alheio. Não é uma palavra bonita em termos, diríamos, espirituais, mas é um conceito tão humano que mereceu um vocábulo próprio.
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Nós, brasileiros, temos a preciosidade "amanhecer". Em inglês, o dia não amanhece: "o sol nasce", se levanta (sunrise). Em português, o próprio dia parece acordar. É uma diferença sutil, mas poética.
E temos o curioso "quebrar um galho", expressão que, traduzida ao pé da letra, faria qualquer estrangeiro imaginar algum tipo de vandalismo botânico. Na verdade, significa ajudar alguém, resolver uma situação provisoriamente, encontrar uma solução possível para um problema imediato. Não deixa de ser, também, o popular "jeitinho". De "enfiar o pé na jaca" e "chutar o balde". Alguém há de "rodar a baiana" e "pagar o pato". Ou não? Ah, essa língua portuguesa, variação Brasil – alegre e criativa, como seus habitantes.
Expressões tão cotidianas que passam despercebidas. E justamente por isso revelam ainda mais sobre quem somos.


















