Situada na Cidade Velha de Jerusalém, a Masjid al-Aqsa (Mesquita distante) integra o complexo fortificado de 14 hectares conhecido como Monte do Templo ou Haram al-Sharif (Nobre Santuário), considerado o terceiro lugar mais sagrado do Islão. Segundo a tradição e a crença popular, é nos chamados "Arcos da Balança" (Qanatir, ou arcos de transferência), situados nas escadarias que conduzem à plataforma da Cúpula do Rochedo, que, no fim dos tempos, no "Dia do Julgamento", ficarão suspensas as balanças divinas destinadas a pesar as ações e os pecados das almas.
Mesquita al-Aqsa, Jerusalém, Israel + Palestina ▪ Foto: Y. Gürbüz
Outro lugar de grande simbolismo é o santuário da Cúpula do Rochedo (Qubbat as-Sakhra), que não é uma mesquita, embora seja por vezes designado, de forma imprópria, por "Mesquita de ‘Umar". O santuário é particularmente venerado porque, segundo a tradição islâmica, terá sido daquele local que o profeta Maomé ascendeu aos céus, no episódio conhecido como al-Mi‘raj.
Vista aérea da Cidade Velha de Jerusalém, com o Monte do Templo em primeiro plano. Ao centro, destaca-se a Cúpula do Rochedo, ao lado da Mesquita al-Aqsa; na parte inferior, aparecem as antigas estruturas junto ao Muro Sul. ▪ Foto: Godot / Wikimedia
Similar exemplo de longevidade e protagonismo histórico-cultural, a Universidade (al-jami’at) de Al-Azhar no Cairo, fundada em 970, conhecida como “A Mesquita esplêndida”, nome derivado do da filha do profeta, Sayyidah Fatima az-Zahra é, simultaneamente, mesquita e academia especial no ensino de doutrinas religiosas e legais.
Mesquita Al-Azhar, no Cairo, Egito. ▪ Foto: Lapping, PxBay
De entre os vários templos islâmicos com projeção mundial destacam-se ainda:
▪ Na Tunísia, as Mesquitas de Al-Zaytunah, a primeira universidade do mundo árabe fundada pelo emir omíada Ubayd Allah ibn al-Habhab; a mesquita de Kairouan que, em árabe, significa “cidade-fortaleza”, tida como uma das cidades islâmicas mais importantes do mundo, fundada em 670 por ‘Uqba Bin Nafi; a “Mesquita do Barbeiro” (Zaouiyat Sidi Sahbi ou Maqam Abi Zum’a al-Balawi), também popularmente conhecida como Masjid al-Hallaq, por se supor guardar os restos mortais de um companheiro de Maomé, a quem se lhe deu esta denominação por, em vida, ser portador de três pelos da barba do profeta, como se de uma relíquia se tratasse.
Tunísia: (1) Mesquita de Al-Zaytunah ▪ (2) Mesquita de Kairouan ▪ (3) Mesquita do Barbeiro / Fotos: T.A, M. Skarejko e D. Jarvis
▪ A Mesquita Badshabi, localizada em Lahore, construída em 1637 pelo sexto imperador mogol Aurangzeb, um dos marcos mais icónicos do Paquistão e uma obra-prima da arquitetura mogol.
Mesquita Badshabi, Lahore, Paquistão ▪ Fonte: History Encyclopedia
▪ A impressionante Mesquita Mazar’i Sharif (“Túmulo do Santo” ou “Nobre Santuário”), no Afeganistão, também conhecida como o Santuário de Hazrat ‘Ali e Mesquita Azul, onde se supõe esteja o túmulo do primo e genro do Profeta Maomé (embora a maioria dos shi’itas considere que ele está sepultado em Najaf, no Iraque). É igualmente um local importante para peregrinos, especialmente durante a celebração anual do Nowruz (Ano Novo).
Mesquita de Mazar’i Sharif, Afeganistão ▪ Fotos: M. Hvorecky / A. Elhan / Mortazaali
▪ O complexo do Palácio de Topkapi Surayi, em Istanbul (Turquia), com várias mesquitas e espaços de culto espalhados pelos seus diferentes pátios e secções privadas.
Palácio de Topkapi, Istambul, Turquia ▪ YT TT
▪ No Mali, perto do rio Bani, a Grande Mesquita de Djenné, uma obra-prima da arquitetura sudano-sahariana do século XIII é o maior edifício de reboco de argila e tijolos de barro (fenbeye) do mundo, sustentada em vigas salientes de madeira de palmeira (toron) que funcionam como andaimes permanentes e três grandes minaretes encimados por ovos de avestruz, simbolizando fertilidade;
Grande Mesquita de Djenné, Mali ▪ Foto: Qiv / Wikimedia
▪ A Grande Mesquita de Samarra (ou Mesquita Al-Malwiya; algo como “retorcido” ou “concha de caracol”), localizada no Iraque, encomendada em 848 d.C. e concluída em 851 d.C. pelo califa abássida Al-Mutawakkil. Na altura da sua construção, era a maior mesquita do mundo, estendendo-se por uma área de cerca de 17 hectares. O seu elemento mais icónico e sobrevivente é o minarete em espiral, inspirado nos zigurates da Mesopotâmia, construídos pelos antigos povos sumérios, babilónios e assírios para ligar a terra aos deuses, com 52 metros de altura e 33 metros de diâmetro.
Grande Mesquita de Samarra, Iraque ▪ Foto: S. Daneshvar
Considerada uma das mais antigas e importantes universidades do mundo, especialmente para os sunitas, a Mesquita-Madrasah do Sultão Hassan (Masjid wa-Madrasat as-Sultan Hasan), no Cairo, é uma das maiores e mais impressionantes obras-primas da arquitetura islâmica mameluca do mundo. A construção deste espaço começou em 1356 e foi tão instável como o próprio governo do Sultão Hassan. Projetada para ter 4 minaretes, durante a construção no século XIV o que ficava logo acima da entrada caiu e matou cerca de 300 pessoas. Pouco depois do acidente, o sultão foi assassinado e as obras da mesquita, que já duravam há três anos e custaram muito dinheiro, foram rapidamente encerradas. Outro minarete cairia em 1659, assim como a cúpula, que era de madeira. Atualmente está restaurada e nela são ensinadas as quatro escolas sunitas de jurisprudência (madhhabs): Shafi’i, Maliki, Hanafi e Hanbali.
Mesquita do Sultão Hassan, Cairo, Egito ▪ Foto: M. Moussa
A cidade de Isfahan, antiga capital do Irão, tornou-se a capital do império safávida durante o reinado de Shah Abbas I, "o Grande", que subiu ao trono em 1587. Sob o seu governo, a cidade conheceu um extraordinário florescimento arquitetónico e cultural e tornou-se um dos grandes centros religiosos do Islão xiita, marcado por uma ortodoxia particularmente vincada. Conhecida então como a "Veneza do Irão", Isfahan chegou a acolher 137 palácios. Entre os seus monumentos religiosos destaca-se a histórica Mesquita Jameh, a mais antiga da cidade, com a célebre cúpula de Nizam al-Mulk e os seus quatro pátios. A sua arquitetura, desenvolvida ao longo de séculos, estabeleceu um modelo que viria a influenciar a construção de mesquitas em grande parte da Ásia Central.
Mesquita Jameh, em Isfahan, Irão ▪ YT Persian Trips
Na monumental Praça Naqsh-e Jahan, no lado sul, ergue-se a icónica Mesquita do Imam (Emam Mosque ou Mesquita Shah), célebre pela enorme cúpula dupla, com 52 metros de altura, e pelo imponente portal de entrada, com 27 metros. As superfícies são inteiramente revestidas por azulejos vidrados de sete cores, dominados pelos tons de azul e turquesa e enriquecidos com caligrafia clássica (khat). O edifício é também conhecido pelas suas propriedades acústicas: no centro da cúpula, um sussurro ou o simples bater dos pés pode produzir um eco claramente audível em diferentes pontos do complexo, que se estende por cerca de 15.000 m².
Vista aérea da Praça Naqsh-e Jahan, em Isfahan, no Irão, um dos grandes conjuntos históricos da arquitetura persa. Em primeiro plano, destaca-se a Mesquita do Iman, enquanto o imenso espaço ajardinado se estende até a Mesquita Sheikh Lotfollah, ao fundo. ▪ Foto: P. Forouzanfar
No lado oriental da praça encontra-se a Mesquita Sheikh Lotfollah, construída como mesquita real privada e, por isso, sem minaretes. Juntamente com a Mesquita Jameh e a Mesquita do Imam, constitui um dos grandes conjuntos da arquitetura religiosa de Isfahan. A Praça Naqsh-e Jahan e os seus monumentos são classificados como Património Mundial pela UNESCO, em reconhecimento do seu extraordinário valor histórico, arquitetónico e artístico.
Mesquita Sheikh Lotfollah, na praça Naqsh-e Jahan, em Isfahan, Irão ▪ Foto: Mjbahonar
Considerado o principal símbolo nacional do Paquistão, localizada no sopé das Colinas de Margalla em Islamabad, a Mesquita Faisal (Faisal Masjid), inaugurada em 1987, destaca-se por não ter uma cúpula tradicional. O seu design inovador assemelha-se a uma tenda beduína no deserto, com oito faces, combinado com linhas geométricas modernas. Conta com quatro minaretes de 90 metros de altura, os mais altos da Ásia Meridional, e o seu complexo tem capacidade para acolher cerca de 300.000 fiéis em simultâneo entre o salão interior e os pátios. O piso exterior é em mármore branco térmico, concebido para manter uma temperatura fresca, mesmo sob o sol forte. Alberga ainda uma biblioteca, um museu de arte islâmica, uma sala de conferências e uma loja de café.
Mesquita Faisal ▪ Foto: K. Sajid
Com a sua estrutura imponente, três grandes portais, quatro torres e dois minaretes com cerca de 40 metros de altura e um amplo pátio com 99 m² que consegue receber mais de 25.000 fiéis ao mesmo tempo, a Jama Masjid (Mesquita de sexta-feira) ou Masjid-i Jehan Numa (que significa “mesquita que reflete o mundo”) na parte antiga de Delhi, mandada construir pelo imperador mogol Shah Jahan, entre 1644 e 1656, é uma das mais belas e importantes mesquitas da Índia, situada em frente ao famoso Forte Vermelho.
Mesquita Jama ▪ Foto: Pinakpani
Em 527, o imperador Justiniano ordenou a construção, na contemporânea Istanbul, na Turquia, da Basílica de Santa Sofia (Hagia Sophia, em turco moderno) já reconhecida como a maior igreja da cristandade, durante muitos séculos catedral de São Pedro dos cristãos ortodoxos orientais. Quantidades imensas de pórfiro vermelho, mármore branco e amarelo e serpentina verde foram trazidas em embarcações e o templo foi erigido em seis anos, a partir de 532.
Santa Sofia ▪ Fonte: Wikimedia
A cúpula e o teto eram cobertos de mosaicos bizantinos dourados que se refletiam nas superfícies polidas do edifício. Diz-se que quando Justiniano caminhou pelo santuário pela primeira vez, depois de pronta, terá exclamado: “Salomão, meu triunfo é maior que o teu!”. Sujeita a terramotos e a saques, Santa Sofia (“Sofia”, em grego, quer dizer “Sabedoria”), tornar-se-ia mesquita, em 1453, com a captura de Constantinopla pelos turcos otomanos.
Santa Sofia ▪ Fotos: C. Gilliland / O. Amin / A. Savin
Quatro minaretes foram construídos em redor da cúpula central. Posteriormente a ter ruído, em 1346 foi restaurada e, hoje, mesmo tendo o dourado original perdido algum do seu brilho e o templo sido transformado em museu, os minaretes parecem ainda fazer parte do projeto original.
Santa Sofia ▪ Fotos: Myrabella / E. Lefterov
No seu assombroso interior, capaz de suster o fôlego, o príncipe Vladimir de Kiev exclamava de forma sumptuosa e incontestável: “não sabíamos se estávamos no céu ou sobre a terra”. Refiram-se os dois escudos ou medalhões caligráficos otomanos, com cerca de 7,5 metros de diâmetro cada um, desenhados pelo renomado calígrafo otomano Kazasker Mustafa Izzet Efendi entre 1847 e 1849, durante as restaurações ordenadas pelo Sultão Abdulmejid, com os nomes de “Allah” e “Maomé” em folhas de ouro sobre um fundo verde-escuro, e que ladeiam o mosaico da Virgem e do Menino, na abside. Os restantes nomes representados são os dos primeiros quatro califas (Abu Bakr, Umar Ibn al-Khattab, Uthman Ibn Affan e ‘Ali Ibn Abi Talib) e os netos do Profeta (Hasan Ibn ‘Ali e Husayn Ibn ‘Ali).
Interior da Santa Sophia, em Istambul, antiga basílica bizantina construída no século VI por ordem do imperador Justiniano. Na imagem, a grande cúpula e os mosaicos convivem com os monumentais medalhões caligráficos otomanos que trazem os nomes de Maomé (esq.) e Allah (dir.). ▪ Foto: C. Meneboeuf
Em estilo cupuliforme, a célebre Mesquita Azul de Istanbul (oficialmente Mesquita de Sultanahmet), assim conhecida pela decoração do seu interior em azulejos azuis, construída entre 1609 e 1616 pelo arquiteto Sedefkar Mehmed Agha sob o comando do Sultão Ahmet I, é uma das grandes aquisições da construção otomana de mesquitas, com espaço perfeito para o culto, por via das suas sólidas paredes rodeadas por um domo, sustentando o peso da cúpula central com semicúpulas laterais.
Mesquita Azul, Istambul, Turquia ▪ Foto: Bigdaddy, via Wikimedia
Um exemplo de mesquita impressionante voltada para o século XXI, que mistura tradição com modernidade, é a grande Mesquita Sheikh Zayed, inaugurada em 2008, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Administrada de acordo com os padrões mais modernos, este edifício inclui uma biblioteca de última geração com instalações modernas para o desenvolvimento de pesquisa e conhecimento. São organizados eventos culturais e sociais que incluem seminários, palestras, exibições, cursos para ensino do Alcorão, arquitetura islâmica, caligrafia, sintaxe árabe e também competições sobre recitação alcorânica e de aptidão a entonar o adhan (“chamamento”, “apelo” à prece).
Mesquita Sheikh Zayed, em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos ▪ Foto: FritzCat, via Wikimedia
Para o crente muçulmano, a mesquita representa o principal local de culto, um espaço sagrado de prostração perante Deus e o coração social e espiritual da comunidade islâmica (‘ummah). No espírito tradicional, reflete um entendimento ecuménico baseado no respeito, derivado da crença de que o Islão é uma religião de tolerância e amor. A mesquita deve ser acolhedora e um espaço humanitário aberto a todos os visitantes. De facto, além da sua função primordial de abrigar os fiéis em oração, as mesquitas também são espaços de convivência, monumentos de fé e onde se reúne a comunidade ao longo dos séculos. Muitas das construções têm jardins, pátios internos, escolas, casas de banho e salões de conferências.
Mesquista Jama, em Delhi, India ▪ Acervo: A. Rodrigues
Outra função das mesquitas é servir de ponto de encontro dos grupos sufis (turuq ou tariqa).
Atualmente, em algumas regiões da Turquia, Ásia e em alguns países árabes onde o sufismo se mantém ativo, as mesquitas são os centros de confluência desses grupos.
As mesquitas, com as suas cúpulas que desafiam as leis da gravidade, minaretes imponentes que riscam o céu, azulejos decorados, mosaicos coloridos, orações traduzidas em arte caligráfica, tapetes, candelabros e fontes de água de beleza inigualável, estão vinculadas a um processo histórico e cultural, à relação do fiel com os seus ritos religiosos. Mais do que uma estrutura religiosa, tornam-se um elo com o passado. Historicamente, foi em torno da mesquita que tudo se estabeleceu no espaço habitual dos muçulmanos. A vida social, política e económica da cidade girava em torno da mesquita. E, ainda hoje, em certas regiões, se preservam essas práticas.
É na mesquita que o muçulmano mantém viva a sua espiritualidade, fortalece o vínculo com o seu Criador, e se encontra e comunica com outros muçulmanos renovando o seu sentido de membro de uma comunidade.