Durante certo tempo, pensei que escrevia porque gostava das palavras. Hoje sei que elas vieram depois. Muito antes delas, vieram as le...

Por que escrevo

Durante certo tempo, pensei que escrevia porque gostava das palavras. Hoje sei que elas vieram depois. Muito antes delas, vieram as lembranças. Foi a necessidade que me ensinou a escrever; as palavras apenas encontraram um modo de dizer aquilo que a memória insistia em guardar.

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Minha história com a palavra escrita começa na infância, quando eu ainda nem sabia o que era poesia. Eu apenas observava o mundo. Descobria a beleza das pequenas coisas no canto dos passarinhos, nas trilhas das formigas carregando folhas nos períodos de chuva, no movimento das cabeças das lagartixas e dos calangos na Praça da Independência. Escutava as conversas dos mais velhos e acompanhava o movimento das ruas, acreditando que cada lugar escondia uma história.

Sem perceber, aprendia a olhar e a escutar. E todo poeta, antes de aprender a escrever, precisa estar atento a essas pequenas e essenciais minudências da vida.

Cresci em uma casa onde os livros faziam parte da mobília. Minha mãe era professora, mais tarde formou-se em Direito e também escrevia poemas. Talvez, sem perceber, tenha sido minha primeira professora de literatura.

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Em nosso lar havia livros, coleções e enciclopédias, entre elas, a Barsa e o Novo Tesouro da Juventude, reunidos em uma pequena e organizada biblioteca. Foi naquele verdadeiro castelo do saber que descobri as aventuras, os encantamentos e as possibilidades proporcionadas pelas obras literárias.

Enquanto muitas crianças se divertiam apenas com seus brinquedos, eu também brincava, principalmente com a bola e o jogo de botão. Mas havia algo a mais: as viagens proporcionadas pelas histórias deslumbrantes dos livros.

Desde cedo, costumavam me olhar como um “menino-velho”. Sempre gostei mais de ouvir do que de falar e tinha curiosidade pelas histórias dos adultos. Talvez isso tivesse relação com o fato de eu ser o décimo segundo filho de uma família de treze. Meu jeito observador acabou me acompanhando até mesmo no futebol.

Ainda na escolinha de futebol de salão do São Gonçalo, no bairro da Torre, em João Pessoa, Paraíba, ganhei do treinador Tiziu um apelido que nunca esqueci: “Veinho”.

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O apelido pegou. Talvez porque eu tivesse modos mais tranquilos, talvez porque não fosse muito de sorrir. Ou, quem sabe, porque parecesse mais maduro do que a idade cronológica (eu tinha apenas doze anos).

Hoje penso que aquele apelido dizia muito sobre quem eu já era: alguém que observava a vida com olhos antigos, mesmo sendo ainda um menino.

Na adolescência, o futebol ocupou boa parte dos meus dias. Nos campos de terra das periferias e nas quadras, compreendi que a vida nunca segue exatamente um roteiro. Um drible inesperado, um gol improvável, uma derrota silenciosa ou uma vitória inesquecível podiam ensinar mais do que muitos conselhos.

Foi naquela ambiência que aprendi a reconhecer a emoção contida nos gestos simples, nas pequenas coisas e naqueles instantes de espanto que, quase sempre, passam despercebidos.

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Eu já começara a escrever por volta dos quatorze ou quinze anos. Mais tarde, compreendi que um poema também podia nascer assim: de um breve instante inesperado, de algo improvável ou silencioso, de uma cena aparentemente insignificante que, por alguma razão, permanece dentro de nós.

Guardo essa descoberta até hoje.

Os anos passaram. Tornei-me adulto. Vieram as responsabilidades, o trabalho na burocracia estatal, as salas de aula e os desafios impostos pelo mundo. Nesse período, a escrita deixou de ser apenas uma companhia e se tornou uma necessidade.

Havia em mim memórias que pediam para permanecer, sentimentos que não cabiam nas conversas cotidianas e silêncios que só encontravam sentido quando se transformavam em palavras, sobretudo em poemas.

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Ao longo do caminho, fiz amigos, construí laços, vivi alegrias e tristezas e enfrentei perdas. Cada pessoa que passou pela minha vida deixou uma palavra, uma imagem, uma lembrança ou um sentimento que, de algum modo, encontrou abrigo na poesia.

Meus filhos, Rafael e Marina, prolongaram e alegraram a minha história. Meu neto, Heitor, devolveu à minha alma o encantamento das primeiras descobertas. Com eles, compreendi que a vida nunca termina em nós; ela continua escrevendo seus próprios versos nas gerações que chegam.

Também encontrei no cordel uma maneira de conversar com as minhas origens. Nele, reconheci a voz do povo, a musicalidade da fala nordestina e a sabedoria das histórias contadas pelos meus ancestrais.

Quando escrevo, sinto que o mar de João Pessoa, cidade que me acolheu e me ajudou a ser quem sou, e a força do Sertão onde nasci, em Sousa, na Paraíba, caminham de mãos dadas dentro de mim.

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O mar me oferece a serenidade do horizonte. O Sertão me ensina a resistência de quem nunca desiste. Afinal, como escreveu Euclides da Cunha, “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Hoje, depois de tantos anos, com os cabelos brancos e ralos, percebo que não escrevo apenas por escrever.

Escrevo para conservar a memória; para agradecer os encontros e os desencontros; para compreender as perdas; para celebrar as reconciliações; e, sobretudo, para impedir que o tempo apague aquilo que considero essencial: o humano que existe em mim.

Por isso, quando alguém me pergunta por que escrevo, já não procuro uma resposta elaborada.

Escrevo porque a vida me confiou histórias que não merecem desaparecer.

Enquanto eu puder transformá-las nas palavras que me chegam e se achegam, continuarei acreditando que a poesia, a minha arte, é uma das formas mais bonitas de vencer o esquecimento.

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Em mim, cada poema que escrevo é uma casa construída com palavras. Uma casa onde memórias, lembranças e sentimentos encontram abrigo; onde aquilo que vivi continua germinando, como uma semente que o tempo não consegue destruir.

E talvez seja essa, afinal, a razão mais profunda de eu escrever: para que aquilo que passou continue, de algum modo, vivendo.

ESCREVER ME SALVA
Escrever é transpirar,
É arte que me domina;
É luz que se descortina,
Que surge pra me salvar.
Escrevo pra respirar
(meus versos são emissores),
Só eu sei dos bastidores,
Meu destino vou cumprindo:
Quem me vê, assim, sorrindo,
Não conhece as minhas dores.

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