A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro.
Hermann Hesse
Rastejo. Tateio. Apalpo como quem busca o braile da memória na mais vã tentativa de encontrar o caminho, mas avança na contramão. Como é difícil interpretar-se pela tendência que temos de nos reconhecermos mais ou menos fracos diante do universo de possibilidades que temos diante de nós. Por isso a angústia, a vertigem do óbvio, o lugar-comum da sabotagem, a sensação de despreparo diante da vida inédita e, ao mesmo tempo, reprodutora de representações banais.
Caspar David Friedrich
A própria consciência promove a discórdia. O que dirá o inconsciente quando o choro puder florescer um eu aparentemente distante, o contrapeso da verdade inventada, da fantasia investida para surpreiver ao mundo em que estamos apenas fingindo sanidade. Mas, por fim, a cólera vem e mostramos a face represada, o grito rouco ganha potência e assusta até mesmo o autor, que se desconhece, que se envergonha e tenta inutilmente se redimir. Então, muda-se o assunto para não emudecer, porque a sequência desordenada de palavras dá o conforto que procura.
Caspar David Friedrich
Eu não desejaria a eternidade em (a)braços que não contemplassem o agora. Folheei os álbuns de fotografias e não teve nada nas imagens que, de fato, me retratassem. Havia porta-retratos, mas não portavam reminiscências. Eram apenas feixes de luz, algumas pessoas aprisionadas no tempo. Um mundo plastificado. Colecionando relógios, não retenho as horas.
Caspar David Friedrich
Já contei muitas histórias para mim, renunciei meu nome de batismo a fim de me conferir outra identidade. Mas é injusto dizer “estou sozinho”, pois um contingente enorme está espelhado em meu peito.
Por vezes inverti a ordem do que era essencial e me amargurei, regurgitei a peçonha desse erro em sucessivos escarros. “Percebi que todas as coisas que temia e receava só continham algo de bom ou de mau na medida em que o ânimo se deixava afetar por elas”, escreveu Spinoza. Por que pagar pedágio ao sofrimento?
A resposta que dei à dor foi a poesia. E ao silêncio eu o reverti em palavras. Lavrei todo o terreno do obscuro para que germinasse o significado. Cresceu o norte e nasceu a minha rosa dos ventos interior. Não sou mais uma bússola quebrada. Alguma direção já tenho e isso me guia a ser um pouco mais do que jamais fui, emoldurado na condição de ser errante, agente da palavra, numa espantosa mística...









