Ao saudoso Sérgio Porto (in memoriam)
1
Quando Ulisses retornou,
Muita gente enlouqueceu,
Um poema de Orfeu,
Caixa d’Água recitou.
Quando o mar ele cruzou,
Chamou Padre Zé Coitinho,
Na Mata do Buraquinho,
Para celebrar o ato,
Comeu porco e comeu pato,
Macaxeira foi padrinho.
2
Muito tempo andou sozinho
E arrumou mulher de ruma,
Ariano Suassuna
Decretou o seu caminho:
“– More em Juazeirinho,
Bem distante desse mundo,
Se chamando Zé Raimundo;
Passe férias em Arara,
Vá comendo capivara
Ou morrerá no mar profundo.”
3
E Ulisses, com Vassoura,
No cavalo aboletou-se,
Mocidade afobou-se,
Pegou logo uma tesoura.
Foi comer uma cenoura,
Mas muralhas de Micenas,
Cortou rente as melenas
De uma grega e de uma turca,
E vestiu-se com uma burca,
Na Acrópole de Atenas.
4
Navegou o mar Egeu,
Se agarrou com Polifemo,
Recorreu ao Supremo,
E prefeito se elegeu.
De repente, devolveu
Cargo tão afuleirado,
Fugiu todo arretado,
Pegou frete em Jaguaribe,
Tomou banho em Paratibe,
De Calipso acompanhado.
5
“– Eu estou entediado”,
Disse Ulisses a Nausica,
Cujo pai, pedindo: “– Fica!”,
O deixou contrariado.
E, então, ressabiado,
Fez pedido a Zé Pereira:
“– Mande um padre e uma freira
Me levar para Princeza,
Pois vai ser uma beleza
Trocar bala por besteira.”
6
O herói seguiu tranquilo,
Quando se viu nomeado,
Com Penélope ao seu lado,
Para ser fiscal do Nilo.
Vendeu a Vênus de Milo,
Todo bronze derreteu,
Fez igual a Prometeu,
Dando forma ao barro,
Trocou tudo por um carro,
E no mundo se meteu.
7
Só voltou à Paraíba,
Em embarcação costeira,
Foi morar numa ladeira,
Junto com uma guariba,
Foi aí na Pindaíba,
Sem dinheiro, nem tostão,
Candidato ao Redenção,
Com a coragem e a cara,
Fez a Rádio Tabajara
E mudou de estação.
8
Construiu o São Francisco,
Só de pedra cantaria,
Pra ter missa todo dia,
E deixar de ser arisco.
Não deixou sequer um risco
Ficar fora do seu prumo.
Enricou com o consumo
De cera pra fazer vela,
Gastou tudo em novela
E perdeu pra sempre o rumo.
9
Já cansado e sem alento,
Foi ser monge em Guarabira,
Lá comeu muita traíra,
Mesmo assim não tomou tento.
Atentou o pensamento
De para Ítaca voltar.
Comprou logo um lugar
Na primeira marinete,
Se passou por um grumete,
Num navio, pra embarcar.
10
Fez um périplo bem longo,
Conheceu o Jalapão,
Leu todo o Grande Sertão,
Deu as caras no Valongo.
Foi chamado songomongo,
A passagem não pagou,
O piloto o despejou
No açude de Curema,
Transformou-se em sariema,
E com Circe se amigou.







