É comum escutar a expressão dos colegas do meu tempo de “foca”, de que o Jornalismo de antanho, aquele que fazíamos, era melhor do que o...

Mídia sem saudosismo


É comum escutar a expressão dos colegas do meu tempo de “foca”, de que o Jornalismo de antanho, aquele que fazíamos, era melhor do que o realizado neste limiar de milênio. A estes sempre respondo que bom é o Jornalismo atual com todos os recursos disponíveis, resultantes do desenvolvimento da microeletrônica. Quando iniciantes na “pia de Gutenberg” éramos, apenas, mais saudáveis, mais dispostos e em processo de descoberta do mundo.

Mesmo com a perniciosidade dos fakes, as tecnologias interativas acessíveis aos aparelhos celulares criaram um novo paradigma de comunicação
Nunca fui chegado ao saudosismo e não tenho a menor habilidade para a cultura museológica. Por isso mesmo, não disponho de negativos de muitos fatos ocorridos nos últimos cinquenta anos. Como repórter e vigilante fotógrafo do cotidiano testemunhei e fotografei muitos eventos, aqui e alhures.

É inegável que os novos recursos, sobretudo a internet, facilitam a técnica jornalística, mas sinto falta da reportagem de caráter humano. Acredito que todo processo de globalização da economia, decorrente do neoliberalismo, tem levado à insensibilidade e, muitas vezes, ao desprezo pela própria vida.

No entanto, é com perplexidade que vejo a comunicação midiática descambar para o grotesco quando banaliza a morte, a violência e o sexo subvertendo a própria dignidade humana ao exagerar na divulgação de fatos como os “leilões de virgindade”, que estão sendo absorvidos como a coisa mais normal do mundo. Ocorre que a degeneração dos valores catalisa a queda de qualquer nação. É, pelo menos, o que a História tem mostrado.

Por outro lado, paradoxalmente, a espetacularização da notícia, com a consequente exploração exagerada dos instintos mais primários do ser humano – o sexo e a violência -, agrava a crise das mídias tradicionais, inclusive, dos grandes conglomerados televisivos.

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A televisão, outrora a “babá eletrônica” de todas as idades, perdeu a centralidade no cotidiano das pessoas. Pesquisas apontam que a maioria dos consumidores do citado meio de comunicação, atualmente, é de pessoas com mais de 40 anos de idade, mesmo assim de forma superficial. Semelhante ao jornal impresso – que vem paulatinamente desaparecendo –, a televisão aberta vive a maior crise de audiência registrada em toda História.

Mesmo com a perniciosidade dos fakes, as tecnologias interativas acessíveis aos aparelhos celulares criaram um novo paradigma de comunicação. Não se aceita mais o órgão de imprensa como detentor unilateral da notícia. Esta tem que ser captada através da dialogia, pois a Comunicação é uma via de mão dupla. Daí a crise da imprensa tradicional que, nadando contra as águas, insiste em querer ser a detentora do monopólio da fala.

Acabou a magia do rádio e da televisão, no tempo em que as pessoas que davam entrevistas nestes veículos eram cumprimentadas, parabenizadas ou apupadas. Acabou o furo jornalístico com as novas ferramentas de comunicação que possibilitam a veiculação de um fato em tempo real, sem a necessidade de deslocamento de equipes.

O problema é que os estudos sobre tal temática estão aquém da avassaladora complexidade de uma sociedade que está protagonizando o cumprimento da profecia de que haveria um dia em que o galo cantaria no Oriente e seria ouvido no Ocidente.


Josinaldo Malaquias é jornalista, advogado e doutor em sociologia
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  1. Excelente! saudosismo diante do desaparecimento de um médio que ja cumpriu seu papel historico náo é um bom sinal pra ninguem.

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  2. Excelente! saudosismo diante do desaparecimento de um médio que ja cumpriu seu papel historico náo é um bom sinal pra ninguem.

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