Fui ao Google buscar uma definição genérica para a palavra “herói”. E lá encontrei: “Herói é o termo atribuído ao ser humano que executa aç...

Um herói paraibano

ambiente de leitura carlos romero francisco gil messias queijo de cabra manelito dantas fazenda carnauba ariano suassuna caprinocultura taperoa paraiba manoel dantas vilar

Fui ao Google buscar uma definição genérica para a palavra “herói”. E lá encontrei: “Herói é o termo atribuído ao ser humano que executa ações excepcionais, com coragem e bravura, com o intuito de solucionar situações críticas, tendo como base princípios morais e éticos.”. E um acréscimo importante: a ação do herói, para ser tida como tal, há que ser altruísta, ou seja, desapegada, filantropa, dadivosa. Perfeito. Para mim, esta definição serve muito bem para o grande paraibano Manoel Dantas Vilar Filho, o célebre Manelito, de Taperoá, falecido há poucos dias.

ambiente de leitura carlos romero francisco gil messias queijo de cabra manelito dantas fazenda carnauba ariano suassuna caprinocultura taperoa paraiba manoel dantas vilar
Não o conheci de perto nem de longe. Apenas pelo que ouvi e li a seu respeito. Foi o suficiente para entender que ali estava um homem diferenciado e que fazia, por suas iniciativas agropecuárias no cariri, muita diferença – para melhor, evidentemente. Numa Paraíba tradicionalmente tímida – e até apática – em termos de empreendedorismo econômico, principalmente na área do chamado agronegócio, ele mostrou, a quem quis ver, e numa região das mais difíceis, o semiárido, que era perfeitamente possível conviver-se com a seca e, em consequência, gerar insuspeitadas riquezas, num cenário indolentemente acostumado com a penúria.

Numa Paraíba de maioria empresarial e proprietária acomodada, e até mesmo preguiçosa, que viu, como que passiva e resignada, falir ou decair a atividade açucareira, a algodoeira, a de produção de abacaxi e tantas outras em que já nos destacamos, esse homem de jeito simples e manso, a despeito de pertencer a uma família de valentes, implantou em sua famosa Fazenda Carnaúba, em Taperoá, um projeto notável de caprinocultura, envolvendo a criação e desenvolvimento de um rebanho selecionado, a produção de queijos especiais, o cultivo e o aproveitamento de plantas nativas e de capins adequados ao clima e ao solo regional, além de outras práticas pioneiras que demonstraram, de uma vez por todas, a viabilidade econômica, humana e cultural de uma área desde sempre mal aproveitada e até mesmo abandonada às duras condições impostas pela natureza desafiadora.

ambiente de leitura carlos romero francisco gil messias queijo de cabra manelito dantas fazenda carnauba ariano suassuna caprinocultura taperoa paraiba manoel dantas vilar
E imagino que tenha sido como um autêntico desafio que Manelito herdou as terras paternas, comprometendo-se a trabalhá-las e a desenvolvê-las, como se quisesse mostrar ao pai morto e a todos, enfim, que não fora em vão todo o esforço até então despendido, por sucessivas gerações, no patrimônio familiar de tantos anos. E seu instrumental de ação não foi outro senão a pura razão, a melhor e mais disponível conselheira, a mãe natural do bom senso, que costuma abrir os olhos dos homens para realidades que não raro sempre estiveram à mão, normalmente ocultas apenas àqueles e àquelas que não querem ver. No fim, penso, foi tudo uma questão de dar melhor uso ao que já existia, mas o problema é que descobrir as coisas óbvias é que são elas.

Lembro-me de uma viagem que fiz a Sousa há vários anos. Eu ia no carro, no banco do passageiro, observando atentamente a paisagem tão rústica, toda feita de pedra, serras ásperas, praticamente nenhum verde. Cheguei a dizer que habitar aquelas lonjuras tinha sido uma decisão equivocada dos pioneiros. Por que, perguntava-me, fundar cidades em região tão pouco hospitaleira, se havia em outros lugares do próprio Estado terras mais dóceis para os homens e os animais? Por mim, deveriam ter ido somente até a serra da Borborema; dali para a frente, que ficasse a natureza virgem, com sua rudeza intocada. Hoje sei que o equivocado era eu. E a obra edificante de Manelito, que conheci através de reportagens de TV e jornais, está aí para comprovar, não bastasse o exemplo sempre citado dos israelenses, vitoriosos sobre o deserto.

ambiente de leitura carlos romero francisco gil messias queijo de cabra manelito dantas fazenda carnauba ariano suassuna caprinocultura taperoa paraiba manoel dantas vilar

Sendo a Paraíba tão devagar e não raro abúlica, é provável que o exemplo do grande homem de Taperoá, primo e sócio de Ariano Suassuna, não tenha sido ainda seguido por outras iniciativas públicas e privadas. É muito possível, infelizmente. Mas a semente foi plantada pelo bravo Manelito. Semente que - está provado - frutifica abundantemente quando há trabalho e vontade para realizar sonhos aparentemente utópicos.

Que o nosso semiárido um dia se transforme numa imensa Fazenda Carnaúba. E que Manelito seja sempre lembrado.





Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB
COMPARTILHE
comente via facebook
COMENTE

leia também