Conta-se que no século XVIII um certo credor alemão, ao receber como pagamento informal um pacote com algumas partituras, espantou-se ao ab...

O precioso perdão

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Conta-se que no século XVIII um certo credor alemão, ao receber como pagamento informal um pacote com algumas partituras, espantou-se ao abri-lo. Familiarizado com a linguagem musical, foi capaz de ouvir a orquestra inteira no que viu ali escrito, de forma sublime. Como seria possível que obras tão belas estivessem sendo assim perdidas, trocadas como moeda comum, sem atribuição nem relevância?

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Eram manuscritos originais de Johann Sebastian Bach, tratados com desprezo pelo filho mais velho, Wilhelm Friedemann, que herdou grande parte do acervo do pai. Após usufruir algum prestígio, não apenas porque descendia do extraordinário compositor de Eisenach, mas por seu talento musical, o primogênito Wilhelm viu sua vida se degenerar. Supostamente predileto entre muitos irmãos, ele teve tudo para progredir. Estudou música com o pai, cursou Direito em Leipizg, Matemática em Saale, trabalhou como organista em Dresden e chegou a ocupar cargos oficiais na Prússia.

Mas o espírito indisciplinado e egoísta foi afastando-o das boas relações profissionais, das amizades, isolando-o e arruinando seu futuro. Após perder o último emprego, sobreviveu dando aulas de teclado como autônomo, deixando escorrer entre dedos habilidosos o talento legado pela inspiradora genética. Para suporte financeiro, recebia valores irrisórios por meio de escambo com partituras do pai, algumas nunca executadas, mesmo sabendo, decerto, que a troca estava muito aquém da preciosidade de que se desfazia irresponsavelmente.

Johann Sebastian Bach é “um caso à parte” na literatura musical, aclamado por muitos pesquisadores, maestros e intérpretes como o “deus da Música”, autor de extensa e colossal obra constituída por universo tão abrangente quanto magnífico. Na técnica de composição contrapontística, pela qual várias vozes se justapõem harmonicamente em planos sonoros diversos, capazes de formar um formidável conjunto melodioso, ele foi imbatível em seu período. Sua obra vem servindo, por mais de três séculos, de lastro técnico e didático a muitos compositores que o sucederam, com infinitas possibilidades investigativas e recriadoras. Além de ser incluída no currículo de todos os níveis acadêmicos de ensino musical e encantar plateias de todos os continentes ininterruptamente.

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Johann Sebastian Bach (1685—1750)
Por falta de ambição, devoção ao trabalho e à família, Bach não ousou distanciar-se de seu habitat. Limitou o trabalho e a moradia às cidades por perto de onde nasceu. Consequentemente, sua obra permaneceu desconhecida e somente um século após sua morte espargiu-se com merecido esplendor.

O maior responsável pelo que se pode chamar de “O Renascimento de Bach” foi o hamburguês Felix Mendelssohn, autor de obra gigantesca e diversificada. Nascido 60 anos depois que Bach faleceu, desde cedo revelou-se precocemente prodigioso a ponto dos professores da Academia de Canto de Berlim, onde estudava, afirmarem que “nada mais havia a ensiná-lo”...

Diferentemente da história da maioria dos compositores eruditos, marcados por dificuldades e limitações de toda ordem, Mendelssohn recebeu apurada educação, não apenas musical, mas em história, filosofia, literatura e arte. Cresceu rodeado de abundância material e em meio intelectualmente sofisticado. Com apenas 9 anos, publicou uma tradução de Andria, obra célebre de Terêncio, poeta da antiga Roma. Aos 12 compunha sinfonias para cordas, aos 15 concluiu sua primeira grande sinfonia orquestral e aos 17, já familiarizado com a leitura dos clássicos, fascinou-se com a fantasia shakespeariana e escreveu a abertura “Sonho de uma Noite de Verão”, em que inseriu com pertinaz singularidade romanesca a celebrada Marcha Nupcial, que estreou no ano seguinte, já revelando ao mundo a proeminente genialidade.

Contrapondo-se à ideia de que grandes obras de arte foram concebidas em ambiente de privações, sofrimento ou angústia, Mendelssohn é a comprovação de que embora tenha imprimido exuberante alegria e lirismo refinado em grande parte de sua produção, igualmente a contemplou com seriedade, introspecção, heroísmo e religiosidade. Escreveu vários quartetos, lieder, concertos, sonatas, caprichos, aberturas, fantasias, canções para piano e literatura, motetos, diversas óperas, poemas, cantatas, salmos, oratórios, uma infinidade de peças românticas para piano conhecidas como “Canções sem palavras” e cinco belas sinfonias.
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Felix Mendelssohn (1809—1847)
Caso não houvesse sido tão breve a sua encarnação de apenas 38 anos, decerto teríamos mais um “deus da música“ com um conjunto tão extenso quanto o do gênio barroco.

Uma de suas mais significativas realizações, entretanto, foi a dedicação à redescoberta da obra de Bach, inconcebivelmente obscurecida após sua morte. O marco do Renascimento do Mestre de Leipizig no século XX foi a regência pelo próprio Mendelssohn, com 20 anos de idade, na Academia de Canto de Berlim, de um dos grandiosos corais orquestrados por Bach, a “Paixão Segundo São Mateus”, esquecida há um século sem ser executada.

E assim passou a disseminar a magnitude do ídolo confesso com empenho apaixonado, interpretando sua obra publicamente em muitas oportunidades. Chegou a tocar várias vezes o concerto para três cravos sendo acompanhado em memorável performance por Franz Liszt e Ferdinand Hiller.

A dedicação empregada no notável projeto repercutiu de tal forma que sua obra impregnou-se da alma de Bach. Em muitas criações utilizou a técnica polifônica, o canto coral, a liturgia religiosa, a fuga, nas quais emerge nitidamente o espírito bachiano. Sem dúvida, uma proeza que lhe cobriu de alegria e plenitude, como se tivesse pago uma grande dívida que ele e o mundo tinham com Johann Sebastian. Enfim, havia-o retirado do pequeno raio em que seu trabalho esteve circunscrito, lançando-o ao mundo com justa e meteórica luminescência.

Críticos, escritores, pesquisadores se debruçaram exaustivamente a estudar a lendária simbiose entre os dois grandes músicos alemães. E nela encontraram as mais variadas explicações. Uma chamou atenção pela peculiaridade mística, em se tratando de uma revelação mediúnica. Através do respeitado escritor carioca Hermínio Miranda, autor de mais de 50 substanciosos livros, inclusive como parceiro de Ernesto Bozzano,
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Wilhelm Friedemann Bach (1710—1784)
pesquisador da fenomenologia paranormal, professor de Filosofia da Ciência da Universidade de Turim (Itália) e membro do Instituto Internacional de Metapsíquica (Paris).

A Hermínio chegaram informações do mundo espiritual de que Mendelssohn era justamente Wilhelm Friedemann, filho de Bach, que, tão logo se conscientizou do grande erro cometido com a obra de seu pai, se afinara na construção da ideia de voltar ao mundo terreno em missão de resgatá-la. A sintonia com tal propósito foi tão intensa que possibilitou a conexão com o ambiente fausto da família Mendelssohn-Bartholdy, solidamente propício à realização de seus planos de justiça e recuperação moral. E assim, conseguiu fazer reflorescer o tesouro inestimável criado por Bach.

O regozijo perante a conclusão do que planejou mostra-se claramente na exuberante felicidade que emana de muitas das peças de Mendelssohn. O primeiro concerto para piano, sobretudo o primeiro e terceiro movimentos, é repleto de jubilosa e contagiante euforia.

Na segunda sinfonia, conhecida como Hino de Louvor, ele mescla a cantata com a forma sinfônica de maneira inovadora. Embora a história se refira a este trabalho como encomenda do Instituto Gutemberg para celebrar os 400 anos da imprensa, o autor fez novas inserções para reestreá-la seis meses depois em Leipizig, o icônico reduto de Bach, evidenciando a ligação com sua imagem.


Embora Mendelssohn tenha se revestido de toda a luminosidade de Bach na suntuosidade dos majestosos oratórios “Elijah” e “Paulus”, há quem identifique nesta 2ª sinfonia uma grande homenagem ao mestre que tanto o inspirou. Após o 1° movimento que a introduz como prelúdio do espetáculo de louvor que se segue, e mais dois puramente orquestrais, o Hino se configura com o autêntico caráter composicional de Bach. Com fugas, recitativos, partes que lembram as missas, cantatas, e no próprio texto escolhido, Mendelssohn presta-lhe, realmente, um honroso tributo.

Estruturado literariamente nas expressões de “Louvor a Deus”, “Fidelidade Divina” para ascensão dos espíritos “das trevas à Luz”, o filho redimido, ora discípulo fiel, emoldura definitivamente Bach na mais expressiva mensagem de gratidão em que, com toda certeza, obteve do deus da música o precioso perdão.


Germano Romero é arquiteto e bacharel em música
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  1. Maravilhoso/eloqüente texto..Caro Germano!!! Uma aula antepassada da relação histórico musical destes "geniosos"compositores.
    Bravissimo👏🏻👏🏻👏🏻com toda as ênfases!!

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  2. Muito grato pela atenção, Paulo, pelo compartilhamento e retornos de suas impressões de leitura. A ALCR também agradece. Abraços

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