Aprendi com o jornalista Dulcídio Moreira que a elegância dos sapatos distingue tanto ou mais quanto a dos bons ternos. Um sapato cego, se...

Dulcídio de muitos portos

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Aprendi com o jornalista Dulcídio Moreira que a elegância dos sapatos distingue tanto ou mais quanto a dos bons ternos. Um sapato cego, sem brilho nem classe, podia derrotar um terno inteiro de casimira ou de linho irlandês, luxo que não devia faltar no guarda-roupa da usina ou do alto comércio. Veja-se uma foto de evento político ou oficial dos anos 40, com Virginio Veloso, José Américo, Argemiro, Renato Ribeiro, de grupos políticos diferentes, mas alvejando iguais no diagonal york-street ou no linho irlandês.

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Johanser Martinez
Dulcídio ensacava numa calça qualquer, até de brim (não havia jeans) a camisa de colarinho impermeável, bem colada no busto largo de ex-marinheiro e na barriga discreta, elegância com que ele se dava por satisfeito desde que tudo fosse arriar num par em boa forma e bem polido de sapatos. De preferência um DNB de bico arredondado, mais para os baixinhos como ele e Getúlio Vargas que, com alguns milímetros de salto, ganhavam um pouco mais do que lhes dera a natureza.

Dulcídio não fala dele. Apareceu moço no jornalismo, depois de desembarcar marinheiro dos mais cobiçados portos do mundo. De pé, no amplo e luzente assoalho de madeira da redação de A União, sua postura era a de quem nunca deixara o convés, as pernas descendo em ângulo aberto como se continuassem a fazer o equilíbrio. Foi provinciano apenas de nascimento porquanto o espírito, sem exibicionismos, não deixava de refletir sua intimidade com os mais distintos pontos de cem réis das Américas e Europa.

Ao lado de José Leal garantiu a cobertura, pelo seu jornal, dos três anos finais da segunda Grande Guerra.

Excluindo-se a instantânea universalidade das comunicações de hoje, podemos avaliar a façanha extraordinária representada pelas condições de produção desse noticiário, captado de um rádio que bombardeava tanto quanto o front e precário de frequências; José Leal copiando a lápis e Dulcídio, bem exibido, datilografando direto do rádio ao ritmo dos Heron Domingues. Um ritmo e uma interpretação tais que davam a ideia de transmitir a guerra em cima da trincheira.

Das muitas lembranças de Dulcídio, dentre elas a de lançar-se ao trabalho portando, de um lado, a máquina de escrever e, do outro, a de fotografar (durante anos correspondente do Estado de S. Paulo), não consigo esquecer, por mais irrelevante que pareça, seu modo distinto de vestir sem sair da esportiva.

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Quando tinha de vestir o paletó era sem gravata, a gola da camisa por cima, como vestiam os meninos de família. Era assim que o encontrava numa mesinha do Café Alvear aprontando o que acabava de apurar como repórter e correspondente cativo do jornal paulista. Seu texto fluía na velocidade dos seus dedos, como se o fato, apenas ele, escolhesse, ditasse a palavra de sua reprodução, sem a menor interferência lírica ou literária do leitor de Herman Melville, Charles Dickiens ou Conrad.

Fugia das rodas literárias, falava pouco ou quase nada do que lia, mas raramente sobrava nos assuntos e temas que ouvia ou lhe falavam. Guardei dele, durante muito tempo, uma versão espanhola ou chilena da minha primeira leitura sobre técnica americana de jornalismo: “El periodismo, arte e técnica”, no exato momento em que o Diário Carioca punha em prática o jornalismo assimilado dos Bond Frazer e Cia.

Desenhava à mão livre, ilustrando os anúncios de sua agência de publicidade, pioneira entre nós, e dominava os recursos da arte gráfica da época. Isso me causou um certo desconforto, quando fui contratado para instalar e dirigir a Imprensa Universitária, na gestão do reitor Mário Moacyr Porto. “O que me disseram, seu Gonzaga, é que você é quem mais entende de arte gráfica entre nós” – foi o reitor abrindo a conversa ou a entrevista. E eu sem poder omitir o nome de Dulcídio: “Ainda não cheguei a isto, dr. Mário. Temos o Dulcídio Moreira, que além de dominar os avanços da indústria gráfica, é ilustrador, desenha”. Como o reitor ficasse por aí, eu também não insisti.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

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