Após passarmos o mês de janeiro de 1976 no Pantanal do Mato Grosso, participando do Projeto Rondon, Ilma, eu e Alcides Diniz tomamos um ...

A conquista dos Andes (Parte 2)

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Após passarmos o mês de janeiro de 1976 no Pantanal do Mato Grosso, participando do Projeto Rondon, Ilma, eu e Alcides Diniz tomamos um trem e partimos para aquela que seria a maior de nossas aventuras: a nossa Conquista dos Andes.

Passamos a primeira semana de fevereiro conhecendo La Paz, a capital da Bolívia, onde acumulamos informações suficientes para dar continuidade ao nosso projeto de viagem. No oitavo dia pela manhã tomamos uma jardineira para o Peru. É uma espécie de ônibus que tem o bagageiro no teto. Outrora muito comum aqui no Brasil, onde também era chamado de Sôpa (não sei porquê). À época já tínhamos ônibus mais modernos.

E partimos ansiosos para conhecer o Peru, tendo Cusco (Cuzco) e Machu Picchu como principais destinos. A cidade de Puno seria a nossa primeira etapa; porém, pouco depois de sair de La Paz, paramos em Desagüadero, para obter o visto de entrada no território peruano.
O local, na realidade, é um bloqueio de acesso aduaneiro. Recebe este nome por estar no ponto onde as águas do lago Titicaca transformam-se no rio Desaguadero, que por sua vez desemboca no Lago Poopó, mais de 400 quilômetros ao sul.

Enquanto esperávamos o posto de fronteira abrir (o que aconteceu somente após o almoço) e depois de comermos alguma coisa, pudemos tirar lindas fotografias, especialmente de cima da ponte, que era muito elevada e fornecia uma visão panorâmica do lago.

Ao entrarmos no Peru, tomamos uma estrada não asfaltada, que fazia a ligação com a cidade de Puno (bem mais ao norte) contornando o Titicaca. Contaram-nos que a estrada era uma rota ainda do tempo dos incas.

Lá pelo meio da tarde, o ônibus, que vinha apresentando problemas, quebrou onde outrora existiu um tambo. Os tambos são paradas ou etapas que os incas construíram ao longo dos seus caminhos. Serviam como abrigo ou repouso. Eram pequenas construções de pedra, erigidas pelo povo andino para os seus viandantes. Foram muito importantes para a expansão do Império Inca. Onde paramos existiam apenas ruínas de pedras. Perto dali havia uma pequena igreja, cujas pedras — conforme nos contaram — pertenceram originalmente ao tambo local, que foi derrubado pelos religiosos espanhóis para construir o templo.

Até então a viagem decorria tranquilamente. Estávamos sentados na segunda fileira da ala esquerda, atrás do motorista. Logo atrás deste, e na nossa frente, sentavam-se dois jovens rapazes que pertenciam à Sociedade em Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), entidade internacional criada pela ala conservadora mais radical da Igreja Católica. Eram colombianos e retornavam de um congresso que havia acontecido no norte da Argentina, país que estava prestes a sofrer um golpe militar cruento, promovido pela extrema-direita, com o registro de muitos milhares de mortos e desaparecidos.

Na ala direita do ônibus estava o ajudante e atrás dele, à minha direita, sentava-se um simpático casal de peruanos, com quem eu conversava muito, obtendo informações importantes para a viagem. Atrás destes ficava a porta de acesso ao interior do ônibus. Alcides estava sentado logo atrás de nós. Entre o motorista e seu ajudante ficava o motor enorme do ônibus.

Passamos horas esperando pelo socorro mecânico, que só chegou no finzinho da tarde. Já anoitecendo, retomamos a viagem, que reservava a primeira emoção.


Não percebi que havia adormecido. Despertei subitamente, observando que estávamos parados em meio à escuridão. Ilma me disse, baixinho: “Fomos parados pelo exército peruano!”

À luz dos faróis, vi diversos homens fardados discutindo alguma coisa. Até então ninguém havia descido do ônibus. Dentro, silêncio fúnebre. De repente um dos soldados caminhou até a porta aberta do veículo e entrou. Trocou algumas palavras com o motorista, que lhe entregou um papel com a relação de passageiros.
Com uma grande lanterna, de foco muito forte, o oficial leu todos os nomes e dirigiu-se para o fundo da viatura, focando o rosto de cada passageiro ao passar. Dava para sentir a eletricidade no ar.

Logo que o soldado passou por mim, o peruano que estava sentado ao lado jogou um pequeno pacote no meu colo, dizendo “Por favor!” Gelei! Se o soldado tivesse voltado naquele momento e nos flagrado, eu entraria numa fria. Daqui que eu conseguisse explicar, não imagino o que poderia me acontecer. Ao segurar o pacote percebi que era quadro e pequeno, porém bem pesado. Balas, provavelmente.

O cérebro funcionava a mil. O que fazer? Nisso ouvi gritos vindos lá dos fundos. Subitamente deixei o pacote escorregar pelas minhas pernas até o piso e empurrei-o o mais que pude para longe de mim, embaixo da poltrona à minha frente, onde estava sentado o rapaz da TFP! Imagino que ele tinha muito mais fé de ofício do que eu...!

Logo o soldado retornou puxando uma pobre mulher, que chorava. Na outra mão trazia uma grande trouxa de roupas. Desceu com ela e mandou o ônibus seguir. Alguém comentou que a moça era contrabandista de cigarros americanos.

Em Puno, o peruano me indagou pelo pacote, tendo eu indicado o lugar onde estava. Que fria, meu Deus!!


Chegamos a Puno lá pelas 20 horas e nos hospedamos em um modesto hotel em frente à estação da ferrovia. Exaustos, ficamos por lá, e não exploramos a cidade.

No dia seguinte, acordamos bem cedo para poder comprar bilhetes de trem para Cusco. O frio era de rachar! Também, mais de 3.800 metros! Bilhetes na mão, ficamos aguardando o trem para aquela etapa que seria a mais desejada: conhecer Cusco, e de lá Machu Picchu!

O núcleo do grupo continuava junto: Ilma, eu, Alcides, Fernando e uma colega dele, bancária, de São Paulo, chamada Bel. Aos poucos fomos aglutinando outras pessoas, que se sentiam atraídas por nossa animação. Duas dessas pessoas, que mais nos impressionaram, foram o mineiro Márcio Metzker e sua jovem esposa, Elde. Ele, um simpático jornalista que tinha objetivos de viagem semelhantes aos nossos. Eram recém-casados. Aproximou-se também um fisioterapeuta alemão, Wolfgang, que nos acompanhou durante todo o período em Cusco e Machu Picchu.

A viagem foi muito animada pelos grupos de estudantes brasileiros. No primeiro trecho a ferrovia atravessou muitas áreas cultivadas, um bonito quadriculado de plantações. Era a região do planalto peruano, ainda sob a influência do lago Titicaca. Depois a ferrovia começou a subir de altitude, o trajeto percorrido era cada vez mais elevado, próximo à crista das montanhas. Os campos cultivados desapareceram, a paisagem fantasticamente andina.

A viagem sempre foi acima dos 3.000 metros. E em alguns trechos superava os 4.000 metros. Como os vagões não dispunham de calefação, o frio foi se intensificando, ao ponto de visualizarmos o hálito do outro. Para a pele de um nordestino...

Ainda bem que por cautela, no segundo dia em La Paz havíamos comprado ponchos de lã de alpaca ou lhama, e gorros de tricô. Ilma, que é muito friorenta, também comprou um par de botas que, recheadas de várias meias de lã, tornava o frio mais suportável. Passamos muito perto de alguns dos picos mais elevados do Peru.

Tenho uma lembrança muito boa dessa viagem graças a um detalhe. Eu gosto muito de músicas. Como íamos passar um longo período no Pantanal do Mato Grosso, e eu não sabia do gosto musical de lá, gravei muitas músicas numa fita-cassete, que nos acompanhou ao longo de toda a viagem. Graças a essa fita eu tive o prazer de escutar El Condor Pasa, de Simon e Garfunkel, em pleno habitat dos condores, vendo os abismos abaixo de nós. Que emoção, para mim!


Chegamos a Cusco à noite, e seguimos em carroceria de caminhonetes até o centro da cidade. Conseguimos leitos em hotel, porém com um detalhe que gerou protesto dos recém-casados: quartos coletivos, com até nove camas!


Dia seguinte fomos conhecer a cidade. Cusco é uma bela cidade antiga. O estilo arquitetônico é predominantemente colonial. Denominada pelos incas como O Umbigo do Mundo, o maior destaque é a sua grande e ostentosa catedral Basilica da Virgem da Assunção, forrada de ouro, que fica na Plaza de Armas, uma enorme praça quadrada, cercada de edificações dotadas de calçadas cobertas. Para esta praça convergiam os quatro cantos do império, segundo os incas.

Quando Francisco Pizarro lá chegou encontrou o império dividido por uma disputa travada pelos filhos do último imperador, Huayna Capac. Os filhos de Capac, Atahualpa e Huáscar, disputavam a sucessão do trono do Império Inca. Atahualpa venceu e capturou Huáscar.

Nesse ínterim, Pizarro, que havia partido do Panamá com “três navios, 200 homens, 27 cavalos”, e acompanhado por alguns sacerdotes, chegou às regiões do Império Inca. Ele, então, ficou sabendo, por meio de seus intérpretes, do conflito travado entre Huáscar e Atahualpa. Inicialmente foi recebido pacificamente por Atahualpa em Cajamarca. Porém aconteceu um desentendimento entre incas e espanhóis, quando os indígenas recusaram a conversão ao catolicismo.

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Aproveitando-se da fraqueza de Atahualpa e seus homens, consequente à guerra civil, os espanhóis capturaram o imperador e promoveram um banho de sangue. Preso, Atahualpa secretamente enviou uma ordem para os seus comandados assassinarem Huáscar, para que este não pudesse se aliar aos espanhóis.

Em troca da sua liberdade, Atahualpa ofereceu “uma sala cheia de ouro aos espanhóis.” Ele cumpriu sua promessa e entregou a seus inimigos da Espanha uma grande quantidade de utensílios de metais preciosos. Porém os espanhóis não libertaram Atahualpa. Diz a história que Pizarro, que a princípio não tinha intenção de matar Atahualpa, ao saber que este havia sido responsável pela morte do irmão, acusou-o de doze crimes, sendo os principais o assassinato de Huáscar, prática de idolatria e conspiração contra o Reino de Espanha, tendo sido julgado culpado por todos os crimes e condenado a morrer queimado.

Tarde da noite, ao ser conduzido ao local da execução, Atahualpa implorou pela sua vida. Valverde, o padre que havia presidido o processo propôs que, se Atahualpa se convertesse ao cristianismo, reduziria a sentença condenatória. Ele acreditou e concordou em ser batizado. Porém foi novamente enganado: em vez de ser queimado na fogueira, foi morto por estrangulamento no dia 29 de agosto de 1533. Com a sua morte também acabava a "existência independente de uma raça nobre".

Isso foi o começo do fim do Império Inca. Com a sua morte o império enfraqueceu-se consideravelmente. Os espanhóis nomearam Manco Cápac como o novo imperador. O Império Inca, então, esfacelou-se.

Os espanhóis partiram para dominar Cusco, a capital, que caiu no mesmo ano de 1533. Ela teve os seus principais edifícios e templos destruídos. Os alicerces foram conservados, e as pedras aproveitadas para edificar as igrejas e outros prédios, transformando Cusco numa típica cidade colonial espanhola, assim conservada até os dias de hoje.


Cusco estava muito fria quando lá chegamos, à noite. Tambem, pudera: 3.400 metros de altitude numa cidade com uma pavimentação toda de pedras, e sem nenhum asfalto.

Almoçando nos seus restaurantes nós bebericávamos a cerveza cuzqueña, muito gostosinha. Mas à noite, nos cafés, nos aquecíamos tomando chás, singani e pisco. Esta, uma deliciosa bebida licorosa feita de uvas, e disputada para ser considerada bebida nacional do Peru e do Chile. Possui um sabor que lembra o anis. Nesses cafés também encontrávamos muitos enxadristas jogando.

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Praça das Armas, Cusco Karl Norling
Para a nossa surpresa, caminhando pela Plaza de Armas encontramos farta literatura que no Brasil seria classificada como subversiva, vendida abertamente em torno da praça. Comprei um ou dois livros, debaixo dos protestos de Ilma.


Faço uma pausa para fazer algumas considerações sobre os povos andinos que conhecemos, na nossa longa viagem, com os quais tivemos a oportunidade de interagir, relacionar.

Em sua quase totalidade, trata-se de pessoas muito gentis, simpáticas e muito acolhedoras, tanto no Peru quanto na Bolivia. Um detalhe nos chamou a atenção: quanto mais distante das fronteiras do Brasil, melhor o tratamento dessas pessoas para conosco. Nunca tivemos conhecimento de atitudes grosseiras ou arrogantes da parte deles. Pelo que nos contaram, somos para eles o que os americanos são para nós: imperialistas exploradores. E esse sentimento é muito maior quando perto do Brasil. Quanto mais distante, melhor nos tratavam. Os casos de furtos e outras desonestidades praticadas contra alguns turistas, encontramos em todos os lugares. Porém foram mais frequentes quando próximos ao Brasil.


Programamos para o segundo dia em Cusco o nosso objetivo maior: conhecer Machu Picchu. Para isso tivemos que deixar o hotel em que estávamos.

Nesse dia, escuro ainda já estávamos na estação, bilhetes comprados. À época já existia um trem de turismo, mas o que usamos foi o popular. Hoje já dispõem de uma linha regular de trem de turismo com muito luxo para fazer essa visita.
Na viagem disputamos lugares sentados quase que na tapa. Com muita dificuldade consegui um lugar para Ilma se sentar.

Pouco antes de partirmos, corredores lotados, aproximou-se uma mulher peruana com duas crianças de colo e uma grande trouxa nas costas. Sem a menor cerimônia, depositou um bebê no colo de nossa amiga Bel e um menininho no colo de um rapaz, que estava sentado. Pisando no assento e apoiando-se nas costas de quem lá estava, ergueu o imenso saco e colocou-o no bagageiro. Por sorte, o rapaz educado lhe cedeu o assento, e ela pôde viajar com os dois pimpolhos no colo.

Ao longo da viagem protagonizamos um meio-strip tease. Eu explico. Machu Picchu fica a 2.400 metros de altitude, portanto 1.000 metros abaixo de Cusco. À medida que a viagem prosseguia o calor aumentava, e fomos aos poucos nos despindo dos nossos agasalhos.

Lembro-me da agradável surpresa de ter visto na encosta através da janela... um gladíolo vermelho! Logo mais outro! Depois mais outros... É que Machu Picchu se situa na vertente amazônica dos Andes. A maior parte do trajeto percorrido pela estrada de ferro é ao longo do rio Urubamba, que vem a ser a origem do rio Amazonas.

Descemos na estação à margem do rio Urubamba, aos pés da montanha de Machu Picchu: 500 metros de altura. Subimos por uma estrada de barro, num micro-ônibus, percorrendo cautelosamente essa estrada que leva o nome Hiram Bingham, em zig-zag até o topo, onde está uma das ruinas mais espetaculares e conservadas da antiguidade.

Machu Picchu, que significa Velha Montanha em quéchua, foi construída pelos incas no século XV, e foi descoberta em 1911 pelo explorador Hiram Bingham.

No entanto o seu feito foi contestado pelo cusquenho Agustín Lizárraga, que afirmou que lá esteve em 1902, quando deixou uma marca em uma das pedras.

Porém alguns historiadores afirmam que o empresário alemão Augusto Berns explorou a zona de Machu Picchu em 1867, e que não se interessou em ficar com o crédito disso, pois também tinha saqueado seus tesouros, com a cumplicidade das autoridades peruanas.

Ao lado de Machu Picchu vemos um pico mais elevado, chamado Huayna Picchu, ou Nova Montanha no mesmo dialeto quéchua.

Ao chegarmos ao alto de Macchu Picchu nos dirigimos primeiramente à Rocha Sagrada, que é o ponto mais alto da cidadela e observatório astronômico. É lá onde tem um primitivo relógio do sol. Nos chamou a atenção o fato de que as pedras são linearmente unidas, sem nenhum vestígio de argamassa, e sem nenhum espaço entre elas, nem um micra! Eram os Deuses Astronautas?

Descemos para conhecer as habitações. Perfeitas, faltando-lhes apenas os tetos de palha. Chamou-nos a atenção a presença de banheiros, dotados de canaletas transportando água, e de nichos para saboneteiras.

Olhando tudo, não deixamos de ter a sensação de que havia pessoas trabalhando ali, que largaram as ferramentas para almoçar e nunca mais retornaram, tão bem conservadas estão as ruinas(?) da cidadela.

Ingenuamente subi numa parede para bater uma fotografia de Ilma, e logo fui surpreendido por apitos severos. Imediatamente pulei lá de cima quase torcendo o tornozelo, ruborizado pela idiotice que cometi.
Logo apareceu um vigilante armado de um cassetete, que me repreendeu severamente, acho que em quéchua ou aimará, sei lá! Não importa a língua, o fato é nunca mais esqueci de tal asneira.

Passeando pela cidade, visitamos dois templos, o Templo Inca e o Templo do Sol. O Palácio do Inca e o Palácio dos Morteiros. Na praça principal pudemos chegar perto de alguns lhamas, porém com medo de levar uma cusparada.

Das edificações laterais podíamos ver o rio Urubamba mais de 500 metros lá embaixo. Fiz uma fotografia de Ilma ali sentada, morrendo de medo.

Alguns dos companheiros de viagem nos chamaram para ir até o Huayna Picchu, ali perto, onde havia o Templo da Lua, de onde teríamos uma visão panorâmica de Machu Picchu. Mas tivemos receio de cair, pois a trilha era muito estreita, sem nenhuma segurança.

Quando os amigos voltaram, os vigilantes nos puseram para fora, pois tinha encerrado o horário de visitação. Tomamos o último micro-ônibus, e na estação fomos informados que o último trem para voltar para Cusco havia passado.

Na estação, para nossa surpresa, havia um rapaz brasileiro. Era uma figura de dar dó: vestido em farrapos, descalço, escorado na parede da estação, comendo uma banana que alguém havia lhe dado. Tinha um sorriso meio esquisito, abobalhado. Fomos por ele informados de que poderíamos conseguir abrigo na próxima estação, Aguas Calientes.

Demos a ele um auxílio em dinheiro, agradecemos e seguimos a pé para Aguas Calientes: um pequeno grupo caminhando sobre os trilhos do trem. Na estação, soubemos do chefe que dormiríamos no próprio salão, dezenas de camas espalhadas. Pagas, é claro. Ele nos disse que, do lado oposto da linha férrea, subindo a montanha, havia uma fonte de águas termais. Daí o nome do lugar: Aguas Calientes.

Caminhamos no escuro do finzinho da tarde e, a certa altura, subitamente nos deparamos com vapores subindo do chão, num poço de água quente. Que banho!

Ao retornar para a estação, que ficava na montanha em frente a nós, tivemos uma imagem que me impressionou bastante: a montanha era igualzinha àquela do filme Fantasia , de Walt Disney! Que imagem! Olhando lá de cima, à noite, vimos aquela elevação escura, com a estaçãozinha mal iluminada no sopé, igual à imagem fantasmagórica do filme de Disney, que surge quando o pico da montanha negra toma vida na forma de um monstro e passa a ameaçar o povoado em sua base, usando para isso monstrinhos infernais e almas penadas que voam do humilde cemitério até o topo da montanha. O segmento, no filme, é A Night on Bald Mountain, que é também o título da sinfonia de Modest Mussorgsky.

Nessa noite jantamos num modesto restaurante ao lado da estação, quando pudemos comer um delicioso pimentão recheado com uma massa de carne moída e arroz, feito pela esposa do chefe da estação. À distância não posso afirmar se realmente era gostoso ou se era a nossa fome. Prefiro achar que, sim, foi uma delícia!

Dia seguinte, bem cedo retornamos a Cusco. Quando chegamos na estação aconteceram dois fatos desagradáveis. O primeiro foi que o nosso companheiro de viagens, o oftalmologista paraibano Alcides Diniz, por pouco não sofreu um assalto. Pois quando o trem parou na estação, ele tentou descer no meio da multidão que ocupava o corredor do vagão. Pois, não é que um sujeito, na cara de pau, obstruiu a sua passagem e meteu a mão nos seus bolsos do casaco, tentando abri-los. Alcides deu-lhe um safanão e conseguiu escapar!

O outro fato foi que uma moça brasileira desceu do trem segurando firmemente a alça da sua bolsa. Já na plataforma constatou que estava segurando apenas a alça em torno do ombro: a alça havia sido cortada e a bolsa fora roubada!

Em Cusco, só encontramos vaga num hotel com quartos coletivos, onde tivemos que ficar. Para desespero dos recém-casados: “De novo não!?!” Nos últimos dias tivemos notícias preocupantes trazidas por estudantes que retornavam de Lima: ocorriam muitos protestos contra o governo do presidente Alvarado, e muita repressão, com a policia na rua espancando e prendendo estudantes.

Decidimos então mudar de destino e elaborar um novo roteiro de viagem que fosse mais seguro para as meninas, buscando conhecer o melhor que pudéssemos, correndo o menor risco possível.

Assim, no dia seguinte, partimos para a terceira etapa da nossa aventura: conhecer o Oceano Pacífico no Chile!

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  1. Aventura de tirar o fôlego, Zé Mârio. O episódio do pacote no ônibus é digno de uma cena cinematográfica. Aguardemos a terceira parte dessa aventura deliciosamente descrita!

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  2. Excelente, nos conduz por seus passos e sentimentos com segurança e transparência. Sôpa (gostei do circunflexo) era apodo pejorativo que significava "tudo misturado" sem distinção entre as categorias sociais. Coisas de antigamente?

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  3. Eis aí um mapa turístico de valor excepcional.
    Além de representar uma aventura, que à época se fazia possível, pois a insegurança pessoal era muito menos significativa, grava marcas indeléveis no ser de cada um dos seus protagonistas, como bem nos deixa ver o autor.
    "Expedições" desse porte e sua natureza não eram muitos comuns, daí o seu valor sentimental, acentuado por dificuldades que as novas gerações nem se dão conta do que representam no "eu" de cada um dos que vivenciaram aventuras assemelhadas.
    E, relembrá-las...
    Ah! Relembranças...

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  4. Excelente José Mario Espinola!!Vocês participaram de um turismo a Cusco e Machu Picchu..que na verdade foi uma aventura( inolvidável..possivelmente!! recheada de imprevistos e eteceteraetal!!
    Parabéns pelo detalhamento 👊👊👊👊👊
    Paulo Roberto Rocha

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  5. Agradeço a todos os meus leitores pelo estímulo que me dão com as suas palavras gentis.

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