A história ocorre em Portugal, século XIX. Por ocasião da morte dos pais, o pequeno Teodorico Raposo, então com 7 anos, vai morar com a t...

Venturas e desventuras de Teodorico Raposo

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A história ocorre em Portugal, século XIX. Por ocasião da morte dos pais, o pequeno Teodorico Raposo, então com 7 anos, vai morar com a tia Patrocínio das Neves. Dona Patrocínio, ou a tia Titi, alcunha a ela destinada, é uma senhora muito rica e extremamente carola. Ajuda muito a igreja, mas ao mesmo tempo é destituída de caridade até para com as pessoas pobres da família que lhe procuram pedindo auxílio.


"Todas as recreações moças: um passeio gentil com senhoras, em burrinhos, um botão orvalhado, oferecido na ponta dos dedos, uma decorosa contradança em jacundo dia de Páscoa, outras alegrias ainda mais cândidas, pareciam a Titi perversas, cheias de sujidade e chamava-lhes relaxações."

Ainda criança, Teodorico foi advertido pelos clérigos e por Vicência, ajudante da casa, a fazer as vontades da tia rica, para que pudesse merecer a herança que não seria pequena. Aos 9 anos, estuda em um colégio interno e visita a tia sempre que é liberado de suas atividades escolares.

Com a continuação da vida ao lado da tia, o jovem desenvolve uma subserviência, seguida de um caráter dissimulado e fingido. Ele pensa em outras coisas enquanto tem que seguir os ritos religiosos da casa em que habita. Ao mesmo tempo em que finge ser muito religioso e obediente, sai às escondidas para a vida noturna, sem que a tia soubesse.

Chega o momento de Teodorico ir para a faculdade de Direito em Coimbra e sair de Lisboa. Fica aos cuidados de um teólogo amigo da tia, chamado Sr. Roxo. Por merecimento já tem uma mesada de 3 contos de réis. Quinzenalmente, escreve cartas para a tia e mente muito à respeito da vida que leva em Coimbra. Gradua-se, retorna para Lisboa e cada vez uma religiosidade absoluta lhe é exigida, ao ponto de sentir-se como um rival de Jesus. Consciente deste detalhe, ele solidifica-se em uma vida religiosa ainda mais exagerada.

O amigo Rinchão, quando retorna de Paris, fica a descrever as aventuras amorosas experimentadas por lá. Invejoso do amigo, Teodorico pede à tia uma viagem à capital francesa, com o pretexto de visitar todas as igrejas parisienses. A tia recusa, mas estabelece em lhe presentear com uma viagem de peregrinação à Terra Santa.

Nessa peregrinação, Teodorico tem o intuito de tirar proveito em cada lugar de sua visita, para se entregar à luxúria e à diversão. Conhece seu companheiro de viagem, Topsius, arqueólogo alemão de caráter medíocre. Certo dia, ele revela a Topsius que necessita encontrar uma preciosa relíquia para presentear a tia. Encontram um arbusto vigoroso, muito espinhoso, e têm a ideia de confeccionar uma coroa de espinhos para dar de presente à tia Patrocinio, afirmando ser a coroa original. Simultaneamente, ele se enamora de Mary, uma inglesa muito formosa por quem se apaixona. Na despedida, Mary o presenteia com uma camisola e um bilhete amoroso. A coroa de espinhos e o presente de Mary são embrulhados separadamente mas, coincididentemente, em um papel pardo, de forma a não se perceber diferenças entre os dois pacotes.

Em um sonho místico, Teodorico escuta Topsius advertindo que ele se preparare para um momento histórico. Os dois estão, de fato, na época da perseguição, julgamento, crucifixação e ressureição de Cristo. Um sonho contestador e intrigante. Ele também observa comerciantes de artigos religiosos
vendendo pedaços de palhas da manjedoura do Menino Jesus. Atônito, ele conclui que a autenticidade daquelas peças, vendidas como relíquias, valiam pela fé das pessoas e não pelo objeto em si.

Em pensamento consigo mesmo, Teodorico vê, no presente de Mary, uma evidência do seu pecado perante a tia, e, assim, o objeto é doado a uma pessoa carente, no caminho de volta a Portugal. O outro pacote de papel pardo é dado a tia Patrocínio, que mal pode esconder a grande felicidade em abri-lo. Para infortúnio do sobrinho dissimulado, ao desembrulhar o presente, a tia se depara com a camisola de Mary e o bilhete de amor. Um grande vexame! O sobrinho é imediatamente expulso de casa. Amarga a decepção de ser deserdado e reflete sobre a conduta fingida por todos aqueles anos. Pouco tempo se casa, tem filhos e fica em paz, agora com suas convicções.

Seu pensamento fervilha em ira e arrependimento quando toma conhecimento que o religioso, amigo da família e maior favorecido com a herança da tia Patrocínio, leva uma vida escusa e errônea. Conclui com pensamentos em fúria que deveria ter sido mais persistente em sua hipocrisia. Estaria na condição de, naquele momento, ser o herdeiro da tia Patrocínio.


“Tudo perdera! Por que? Porque houve um momento em que faltou esse descarado heroísmo de afirmar que, batendo na terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao céu — cria, através da universal ilusão, ciências e religiões.”

É notório que a tia Patrocínio nunca havia demonstrado sequer um ato de carinho e ternura para com o sobrinho. Muito ao contrário; ela sempre usou o poder de tia rica para fazer com que ele se comportasse exatamente da forma como ela desejasse.

Eça de Queiroz é considerado um dos mais importantes escritores portugueses de sempre. Notabilizou-se pela originalidade e riqueza do Realismo descritivo e pela crítica social constante nos seus livros.

O livro “A relíquia” me surpreendeu com a forma da escrita e principalmente pela história. É uma critica à sociedade portuguesa do século XIX e, por isso, o autor dispõe de ironias à religião exacerbada e hipócrita da época. Teodorico era uma pessoa conturbada, destituído de caráter. Vale a pena conferir a leitura de um livro cheio de nuances e momentos cômicos.

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  1. Bela narrativa 👏👏👏Verônica Farias👏👏👏
    Super Parabéns👊👊👊👊👊👊👊👊👊
    E..saudando o nosso amigo Germano Romero ..que escolhe os seus melhores troféus literarios para a composição do " Ambiente de Leitura Carlos Romero"〽️〽️〽️
    Paulo Roberto Rocha

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