Apresentação Milimetricamente picotados como na delicada arte japonesa, o haikai é um lampejo de inspiração como fotografia do instant...

31 anos de poesia minimalista

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Apresentação
Milimetricamente picotados como na delicada arte japonesa, o haikai é um lampejo de inspiração como fotografia do instante. Intuição que traduz grandezas em instantâneas miniaturas, moldadas em poucas sílabas contadas a dedo. Há 31 anos, Saulo Mendonça Marques ousou mostrar no primeiro livro (Libélula) a capacidade de dizer muito em pouco, nos pequenos poemas que ganharam o mundo, em outras línguas, inclusive japonês. Aqui ele exibe uma seleta amostra dos “bonsais” poéticos de seu lírico e balzaquiano jardim.
ALCR

Noite de primavera. Um fruto caiu no lago e amassou a lua.
Ah! Carro de boi! As rodas gemem pelos dois.
Um trinar distante assustou o menino. Na gaiola, deserto.
De grão em grão o galo de flandre faz o seu silêncio.
Monges orando! Silêncio cristalino de cardume na água.
Museu da estação. O trem parado como que pensando!
A noite austera pôs ordens nos pardais do meu quintal.
"Cada haikai é uma surpresa, um convite, uma cena cinematográfica! Os haikais de Saulo Mendonça, muitos deles, ficaram tatuados em mim para sempre."

Líria Porto
À tardinha, no Sanhauá o velhinho fitava o rio com o seu olhar poente.
Na colheita de laranjas, mulheres lentamente colhem a tarde bem madura.
Cheiro de terra molhada pelas frestas da janela. Bem vindo, inverno!
Estalactites. Lágrimas da terra quando chora por dentro.
Fiz um haikai dietético só para diabéticos, com palavras sem doçura.
Plantei sementes colhi auroras. Criei raízes no meu coração.
Copa do Mundo: o coração perde a forma quando em bola se transforma.

"Gostei muito dos haicais de Saulo Mendonça, gênero dificílimo. São surpreendentes como devem ser."
Leonardo Boff
Velho hotel sem portas e janelas! Só o passado, hóspede.
Menino brincando sozinho. Ouve-se apenas a zoadinha do seu carro.
Folhas pelo chão quebram o silêncio dos meus passos de outono.
Casa onde nasci... varal. Infância estendida gotejando no quintal.
A criança olha e se pergunta: Que pensa a galinha no choco tão sozinha?
Antigas tardes sentavam-se nas calçadas. Pôr dos sós.
Dia encardido, chuvoso. Estudante enxágua a tarde para à noite estender.
"A verdade é que o Brasil foi produzindo seus grandes haicaistas: Millôr Fernandes, Alice Ruiz, Teruko Oda, Goga e outros. Saulo Mendonça aparece com destaque entre os mais raros. Sem qualquer receio, podemos considerá-lo um dos grandes mestres do haicai contemporâneo brasileiro."
Lau Siqueira
Aviõezinhos decolando ao léu levaram meu jogo de bila e meus sonhos de papel.
Baleias dançam de saias franjas de espuma, alfaias e sem nenhum balear.
A cana-de-açúcar que meu pai repartia... Como é doce lembrar!
Da janela, o menino contempla a chuva. Sua vida gotejante.
Janela de avião. Eu viajando em mim assim de passagem.
Um gato dorme sobre a balança. Sono pesado.
Menino deformando-se contempla a chuva. Vidraça gotejante.
"Em sala de aula, nos congressos de que participo, nas palestras que profiro, sempre me apoio na segurança da qualidade dos haikais de Saulo Mendonça. Sua poesia é matéria de alta qualidade e impõe-se por si mesma. Não é por menos que vence os limites geográficos de nosso país e chega ao Japão, sendo traduzida no país que deu ao mundo este filigrana poético."
Amador Ribeiro Neto
Velho hotel
Fogão de lenha carne seca, pão assado. E a brancura de Júlia.
No guarda-roupa, antigos carnavais dependurados.
Deitada na rede ficou nas nuvens, agarrando estrelas.
Bois mugindo, cancela se abrindo. Lá vem um novo dia!
Olhar de inverno. Da biqueira escorre a chuva restos de infância.
Enquanto os sinos dobram eles se dobram na cama. Hoje é domingo
"Saulo Mendonça nos desperta para novas descobertas interiores. Ele nos faz refletir sobre o que nos rodeia – emoções, sensações ou sentimentos que tantas vezes, por pressa ou cansaço, diluem-se no ar."
Leila Míccolis
Súbito redemoinho! Vento encardido chutando plumas de cristal.
Uma dor silenciosa um corpo deitado. Só a rede range.
Barquinho na água da chuva leva-me sem âncoras ao cais da mão de menino.
Na Praia do Jacaré o sol cansado, deitou-se e adormeceu nos braços de mar.
Menino pescando! A barriga é isca quando a fome já belisca.
Torneira do chafariz. Águas da manhã, dias à granel.
Na estação do trem, esqueceram de levar nossas últimas lembranças
"Uma particular e inimitável filosofia de vida argamassa os haicais de Saulo Mendonça. Ele tem uma marca inconfundível, sabe dominar, agradar e encantar."
Olga Savary
Na Rua da Aurora, o velhinho caminha len-ta-men-te como o rio.
Cochilando na praça, um músico soprava a noite. O sono tocou-lhe sem dó.
Velho hotel sem portas e janelas! Só o passado, hóspede
Vento gelado pela fresta. Mãe e filha, ambas agasalhadas.
Nossas línguas, lua cheia a boiar no céu da boca.
Fiz um haikai dietético só para diabéticos com palavras sem doçura.
Garça de pedra. Na ponta do bico, um pingo da chuva.
"Um Bashô reencarnado, eis Saulo Mendonça."
Edival Perrini
Pirilampo / 2005
Selecionado pela Secretaria Estadual de Educação, para ser adotado em sala de aula da rede de ensino fundamental do Estado da Paraíba — 2007.
Luzes / 2019
Prêmio Maria Pimentel, Lei Aldir Blanc — dezembro/2020.

Outros títulos (haikai): Libélula (1990); Luz de Musgo (2008); Café Pequeno (2015).

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