Todas as noites é sempre a mesma história. Depois de passar o dia sendo disputada pelos nossos filhos e netos e a todos servir sem fazer d...

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Todas as noites é sempre a mesma história. Depois de passar o dia sendo disputada pelos nossos filhos e netos e a todos servir sem fazer distinção, sem demonstrar predileções que possam causar ciúmes, é chegada a hora de ela me acolher para alguns momentos mais íntimos.

Ela espera pacientemente, até que me decida a ceder ao seu apelo. Às vezes demoro muito a ir para o quarto, escrevendo alguma coisa até tarde, ou assistindo um bom filme, um documentário sobre a natureza, um noticiário ou um debate político ou cultural. Mas ela não perde a paciência, apenas me aguarda.

Quando finalmente chego ao quarto, eu não caio diretamente nos seus braços. Eu a observo e sinto a vontade de logo me entregar. Ela está a me observar, armada com os braços abertos, já preparada para me receber. Porém não cedo aos meus impulsos: a noite é criança.

Primeiro tomo uma ducha morna relaxante, troco a roupa, vestindo o meu pijama mais limpo, recém-lavado e cheiroso. Porém após o asseio, nem sempre atendo diretamente ao seu apelo silente. Mas ela não reclama nunca.

Às vezes lembro-me de alguma coisa lá fora e me levanto. Ponho as gatas e as cadelas pra fora do quarto. Ela só observa atenta, concordante.

Vejo se ainda tem alguma das crianças acordadas. Se for necessário, eu embalo ou conto uma história. Depois é que retorno ao meu quarto. Ela não perde a classe.

Inquieto, hiperativo que sou, não me deito logo. Saio, pego água, apago uma ou outra luz esquecida, para voltar para a cama e para a minha leitura. Mas ela não se ofende.

Deito na cama, abro um livro, uma revista ou o jornal A União, leio todos os artigos, o caderno de cultura. Quando o sono não chega abro A Recreativa, revista de exercícios mentais, palavras cruzadas e rebus. Ela nada diz, só espera.

Às vezes adormeço mais cedo do que o costume, na cama mesmo, roncando por cima da leitura, com a luz da cabeceira acesa. E ela continua lá, a paciência personificada.

Até que, enfim numa outra hora, lá pra segunda metade da noite, geralmente despertado pelo frescor do amanhecer é que eu me acordo, para finalmente tomar a decisão.

Só então me levanto, contorno a cama e deito-me em seus braços. Satisfeita, ela me enlaça, me envolve, me protege, me aquece. E assim eu termino a minha noite.

Pois é, todas as noites é sempre a mesma história. Demoro muito a tomar uma decisão, até me decidir a deixar a cama macia para só assim me entregar...

...ao aconchego da rede!


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  1. Grande homenagem a um complemento maravilhoso na vida de todo nordestino raiz.

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  2. É , colega, faz parte do seu perfil hiperativo ,até a noite se movimentar e aproveitar o silêncio, qdo todos todos descansam,ainda fazer sua leitura até relaxar e o sono chegar devagar, enqto o cérebro descansa. Excelente . Abraços Ana e Marcos

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  3. Merecida homenagem, Zé Mário, a quem nos acolhe desde o nascimento e muita vez nos embala no último alento. Francisco Albuquerque

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  4. Agradeço as palavras elogiosas de todos vocês. Eu gosto tanto de rede que, se fosse morar em Londres ou Nova Iorque, teria uma rede no meu quarto.

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  5. Complementando, com ousadia, o pensar do nosso Zé Mário.
    "Um cantinho e você
    uma rede ao luar
    uma vela a correr
    num pedaço de mar
    na paisagem tranquila o sussurro..."
    Cada um que complete o pensamento.

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  6. Grande poeta Arael, valorizando com Sergio Rolim os meus
    trabalhos literários.

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  7. Adorei seu texto . Feliz Ano Novo junto da querida Ilma e seus familiares.

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