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O ano em que a música mudou tudo

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Um dos melhores seriados disponíveis no streaming, hoje, é um longo documentário — seus oito episódios somam mais de cinco horas de informação — sobre como a música mudou o mundo no início da década de 1970 (e, verdade seja dita, como ela foi mudada por ele). 1971: O Ano em que a Música Mudou o Mundo, disponível para assinantes da Apple TV+, não é só uma série sobre música,
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mas uma série sobre o mundo — político, econômico, social — de 1971. E essa costura, de trilhar os fatos daquele ano a partir da perspectiva da música (artistas, lançamentos, gravações), é excelente!

Por si só, 1971 é um ano chave na discografia mundial pela quantidade (e qualidade) dos discos lançados naquela época. Só para enumerar alguns poucos: Surf's Up (The Beach Boys); Madman Across the Water (Elton John); L.A. Woman (The Doors); Led Zeppelin IV e o póstumo Pearl, de Janis Joplin. O ano de 1971 também marca uma série de lançamentos dos ex-Beatles, “divorciados” no ano anterior: Imagine, de John Lennon; Wild Life e Ram, ambos de Paul McCartney; e The Concert for Bangladesh, de George Harrison.

O enredo da série produzida pela Apple, todo feito a partir de depoimentos e imagens de arquivo, é focado muito nos Estados Unidos e Reino Unido, afinal o que aconteceu lá no campo social e artístico acabou eclodindo para o resto do mundo.

Como a produção ensina, para entender 1971, é preciso compreender alguns fatos anteriores que levaram a ele, como a Guerra do Vietnã, a eleição do republicano Nixon nos EUA, uma acentuada luta por direitos civis, a ascensão de uma onda conservadora, a explosão das drogas, sexualidade e toda uma maturidade artística e social, que se sobrepões ao que havia sido lançado até então.

Leena Krohn
A obra-prima What's Going On, de Marvin Gaye, por exemplo, é apontada como a maior porta-voz dessa época, afinal refletia todos esses temas, e tantos outros.

Um dos temas abordados pelo roteiro é como, naquele início de década, a sociedade andava saturada das liberdades pregadas pelo movimento hippie e se mostrava bastante conservadora, principalmente no Reino Unido. Para ilustrar esse raciocínio, a produção pontua alguns fatos, como as polêmicas envolvendo livros, sobretudo, a querela causada pela Revista Oz.

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ArchivesOnline ■ UW Aus
Publicada em Londres a partir de 1967, a Oz se tornou uma referência da contracultura, divulgando textos e ilustrações sem barreiras, o que alguns viam como um material bastante obsceno para os padrões da época. O fato é que quando a revista passou a publicar um material sexualmente explícito e a transformar o fofinho Rupert Bear, um ícone infantil do Reino Unido, num pervertido sexual, a Inglaterra resolveu dar um basta.

O caso acabou indo parar na Justiça e, por conseguinte, os redatores da revista foram condenados e presos em meio a um acalorado debate público sobre liberdade de expressão e uma série de protestos contra a prisão, contando com personagens como John Lennon e Yoko Ono (que chegaram a gravar uma música para levantar fundos para a defesa dos integrantes da revista).

Outro pilar abordado pelo seriado é a inflamada luta pelos direitos civis dos negros, lançando luz na prisão da ativista Angela Davis e na morte de George Jackson (ambas ocorridas naquele ano) e que acabaram fortalecendo o movimento dos Panteras Negras, situações que iriam se refletir em obras como There's a Riot Goin' On, de Sly and The Family Stone, e até uma canção de Bob Dylan (lançada em single) narrando a vida de Jackson — preso por assalto em 1961 —, que se tornou ativista dentro da cadeia e escreveu um best-seller, mas foi morto no presídio em uma história muito mal explicada.

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Angela Yvonne Davis ■ professora e filósofa socialista estadunidense que alcançou notoriedade mundial na década de 1970 por sua militância pelos direitos das mulheres e contra a discriminação social e racial, e por ser personagem de um dos mais polêmicos e famosos julgamentos criminais da recente história dos Estados Unidos ■ Wikipedia

E, claro, há música, muita música. Um dos episódios fala do empoderamento feminino a partir do lançamento dos fundamentais Trapestry, de Caroline King, e Blue, de Joni Mitchell. Há praticamente a cobertura de todo o ano dos Stones, que começa 1971 lançando Sticky Fingers, mudam-se para o Sul França — para escapar dos impostos na Inglaterra (o que acaba se tornando um ano sabático regado a muita bebida e drogas) e lá ensaiam o que viria a ser Exile on Main Street — e terminam com uma nova mudança, para Los Angeles (EUA), desta vez com a finalidade de fugir da polícia e dos traficantes franceses.


Também há um breve apanhado de como a música e a tecnologia se entrelaçaram através das experimentações eletrônicas do Kraftwerk e do ponto de virada do The Who, a partir das ideias de Pete Townshend, que viriam descambar no extraordinário Who's Next, assim como mostra que 1971 foi fundamental para a carreira do então iniciante David Bowie.

Indispensável para quem se interessa pela música, assim como pela cultura pop, de maneira geral, 1971: O Ano em que a Música Mudou o Mundo é, acima de tudo, um olhar para um passado que parece tão presente, 50 anos depois, que deixa uma importante lição para o mundo e, em especial, aqui para nosso Brasil velho cansado de guerra.


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