Olhando os guajirus que despontam em floração na manhã umedecida, sentei-me a contemplar com imensa gratidão o raiar do novo ...

O filhote da semente

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Olhando os guajirus que despontam em floração na manhã umedecida, sentei-me a contemplar com imensa gratidão o raiar do novo dia. Ao lembrar da maciez levemente adocicada dessa fruta tão praiana, bons eflúvios de outro tempo temperaram-me o sabor com distante nostalgia. Uma lembrança puxa outra e nelas veio à mente o dia em que eu trouxe de uma trilha nas falésias o caroço de um deles entre a língua e o céu da boca Ao chegar sem pressa alguma e nenhuma pretensão, enfiei-o com o dedo num canteiro do jardim. As chuvas desabaram, os ventos assopraram, e despontou a Primavera. Era tempo que urgia, tanta coisa acontecia que o plantio do guajiru nem mais vinha à lembrança. Meses se passaram, serelepes como nuvens, sem que a gente percebesse que a vida ia junto. Eis que surge a manhã em que algo se daria de maneira inesquecível. A brisa fez-se intensa desde que lhe abri passagem pela fresta da janela. A folhagem cintilava na luz enviesada dando brilho à borboleta que em flor se confundia. Tudo se emoldurava no acalanto da esperança que a aurora sempre traz quando traça um novo dia. Em suave mansidão meu olhar fez um passeio, delicado como o vento, por todos os recantos do jardim que amanhecia. E veio a se deter no cantinho onde nascia o filhote da semente que eu havia enterrado desde a outra primavera. No espanto embevecido, quase sem acreditar, ao ver intumescido o esplendor ali brotar, o qual nunca imaginei de um gesto displicente, tão perdido no passado, me fizesse extasiado. Era o pé de guajiru, ressurgido da mãe terra, semeado sem adubo e nenhuma esperança. E ali fiquei pensando no milagre pelo qual renascemos irmanados na poesia do viver. Alguns anos se passaram e hoje ele faz sombra, dá abrigo a passarinho seduzindo as borboletas. Pouco mais vem nova safra Outra festa no jardim O sabor que nele encontro vai além do que é doce. Tem o gosto da ternura que a vida nos devolve quando a fé nos alimenta.

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