A Paraíba, que tem uma considerável tradição literária, quando se trata de ficção narrativa, ganha novo destaque nacional, através da roma...

Aglaia, impenetrável solidão

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A Paraíba, que tem uma considerável tradição literária, quando se trata de ficção narrativa, ganha novo destaque nacional, através da romancista Marília Arnaud. Escritora que fez do conto sua expressão inicial e já tem história, na conquista de prêmios.

Duas de suas coletâneas, A Menina de Cipango e Os Campos Noturnos do Coração receberam, respectivamente, o Prêmio José Vieira de Melo, da Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba, e o Prêmio Novos Autores, da UFPB.

Ao estrear no romance, com Suíte de Silêncios, Marília já trazia a marca do estilo, traço inconfundível de sua identidade narrativa.

Quero repetir e reiterar, agora, o entusiasmo de minha saudação a seu primeiro romance:

Texto para ser lido como um poema, tal o nível de elaboração e densidade da linguagem, no desenvolvimento do tema do amor habilmente reinventado pelo enfoque original. Amor que não conheceu “momentos pequenos, nem gestos de indiferença, tampouco palavras banais ou mesquinhas”.

Despertando silêncios abismais com a música das palavras, a romancista recupera para o grande amor sua verdade essencial, que transcende as convenções e aparências para encontrar, na inteireza e na densidade de ser, a sua eternidade. Um romance ousado e verdadeiro, que veio para ficar na história.

Em 2016, Marilia encanta outra vez seus leitores, com Liturgia do Fim. Um romance de suprema dor, a vida transfigurada num afogar-se, num morrer interminável. A palavra, em absoluto poder de criação,
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a palavra exata em cada filigrana que desvela e reconstitui a existência de Inácio, devastada pelo ressentimento, pela culpa e pela solidão.

O tempo do romance corresponde à volta de Inácio que, desterrado, sentira-se por todos os anos “em lugar nenhum”. Esse retorno patético de um “estrangeiro”, que deixa o vazio em busca de Perdição, constitui o eixo condutor da narrativa. Na partida para a obscura viagem é que o leitor vai encontrar o protagonista narrador, seguindo sem saber por qual razão, expurgando a cruz das palavras “desde sempre represadas” e, há mais de três décadas, “amoladas na pedra da memória”. Palavras-lâminas que, do tempo estilhaçado, vão recortando os silêncios, escavando as lacunas, revolvendo os mistérios, exumando os segredos, retalhando a dor. Um modo de narrar que qualifica e consagra a romancista. Ela escolhe Inácio na situação-limite que se equipara à última estação de uma “via crucis”, para tingir as palavras com todos os tons e matizes da agonia.

Quando Marília terminou O Pássaro Secreto, seu terceiro romance, e me segredou a intenção de concorrer à 5º edição do Prêmio Kindle, 2021, eu lhe respondi que, se o julgamento fosse sério, ela teria condição de vencer. E fiz questão de justificar essa previsão, lembrando-lhe as qualidades raras que se acumulam, em sua experiência criadora.

As revências que alimentam seu imaginário; o poder de conduzir seus temas e personagens, tecendo a verdade ficcional com sutileza e ousadia;
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Fevereiro/2021 ▪ Marília Arnaud é a vencedora da 5ª Edição do Prêmio Kindle de Literatura, com o romance O Pássaro Secreto.
além disso, a capacidade poética de lidar com a palavra, impregnando sua construção romanesca de um lirismo pungente e libertário.

Marília concorreu com 2.400 (dois mil e quatrocentos) candidatos inscritos. E O Pássaro Secreto, julgado por jornalistas, escritores e editores de indiscutível competência, trouxe para o Nordeste, numa conquista pioneira, o Prêmio Kindle de Literatura. Nossa romancista enche de orgulho a Paraíba e o Brasil.

O Pássaro Secreto é um romance de dor e dilaceramento. O conflito central se estrutura a partir de traços de personalidade da jovem protagonista, incapaz de suportar o acúmulo de perdas impostas pela vida. Depois de alguns desatinos, resta-lhe uma sobrevida de solidão, sem nenhuma esperança.

Os recursos de expressão, tecidos pela precisão da linguagem pela inventividade do processo narrativo, sedimentam a unidade inseparável entre forma e conteúdo, que prendem e encantam o leitor.

Aglaia é a narradora de sua história de amor e desatino. Amor “azul-escuro, quase preto, o amor feroz”, conforme verbaliza em síntese conclusiva.

Revela-se a grande competência da romancista nessa escolha de dar voz a uma subjetividade desafiadora, extremamente complexa, que nem os psiquiatras fizeram aflorar em longos anos de consultório e indagações.
O perfil dessa protagonista-narradora reforça um traço do romance de Marília que já se pode considerar característico. De fugir ao convencional e ao estabelecido para desvelar e reconfigurar expressões subjetivas silenciadas, ou até banidas, pelo preconceito estratificado e dominante, no jogo de aparência das relações sociais.

Foi assim com Duína, em sua carta-testamento. Com Inácio, que se consome bem mais pela culpa de ter abandonado Ifigênia, e não, de ter amado. E, agora, com Aglaia, que os irmãos e Dermian classificaram de anormal, aprendiz de marginal e monstro. Rótulos traduzidos e sintetizados por Dr. Xisto, no internato da Clínica, através da impactante expressão, “perturbações psicossomáticas”. Duas palavras que, elucidadas, levaram a personagem a exclamar:
“Ó Deus! A loucura era um espelho rachado, a identidade trincada em mil eus que não faziam sentido”.

Aglaia, inteligente, perspicaz, culta, sensível, capaz de enxergar com olhar crítico as reações a seu respeito, incluindo os procedimentos médicos; e, com suficiente lucidez, para refletir sobre a tragédia da própria existência. “A vida me empurrou para a escuridão ou eu nasci com a escuridão dentro de mim?”

Essa é a “persona” a quem Marília, concedendo voz, propicia a catarse, que expurga a culpa, e conduz à redenção, inscrita nas palavras finais do romance. “Ainda estou aqui. Sou uma Fênix. Ardi no fogo e ressurgi na pureza das minhas próprias cinzas”.

Aglaia se universaliza como representação metafórica da condição humana, no enfrentamento da suprema dor de existir em impenetrável solidão Chama a atenção do leitor, a forma como se apresentam os capítulos do romance, à primeira vista, diferenciados pela característica dos tipos gráficos em que estão impressos.

Os ímpares se destacam, no itálico, e fazem pensar em anotações de um diário íntimo que se integrassem à narrativa. Neles, o tom é de monólogo interior, de fluxo da consciência.
Uma forma de narrar que se impõe pela natureza do conteúdo e, nessa escolha, a romanista exerce toda sua habilidade criadora.

O espaço desses capítulos é o hospital, para onde Aglaia foi socorrida, depois de violentada pelo “garoto de olhos de fogo”. Aglaia, “uma ferida aberta”.

Metáfora retomada e ampliada no fecho do capitulo 13, como reflexão consciente da protagonista. “Feridas abertas não falam. Feridas abertas sagram”.

Estabelecendo as conexões, o leitor é levado a perceber que este sangrar escorre, lentamente, na sensação de morte que traz, para Aglaia, o mundo dissolvido em borrões; no pesadelo que a faz despertar e estremecer, ante a realidade das recentes lembranças; na escuridão em que desaba a personagem, açoitada pela dor e pelo frio; na silenciosa resposta das lágrimas; no desengano das conclusões sobre o amor; na mágoa, sem remédio, de recordar “a vida que ficou para trás”.

Um modo de narrar que transcende a técnica ou o processo narrativo e se converte em sentido. A linguagem romanesca, incluindo recursos poéticos de elaboração. O romance de Marília é assim. Instigante. Em cada aspecto observado, um desafio de leitura. Por isso, termino essa apresentação com uma proposta.

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Como seria, traduzir a simbologia dessa Coisa inventada por Marília? Coisa-Pássaro que deu título a seu romance premiado. Elemento fantástico da narrativa, com o qual ela reconstitui a sensação de morte que toma conta de Aglaia, após o estupro. Cena antológica que passarei a ler, com orgulho e encantamento:

“(...) Estremeci a um abanar de asas. Ergui a cabeça e, bem diante de mim, a Coisa soprava sobre o meu coração. Abaixou-se, e eu montei o seu dorso trêmulo, agarrando-me à cabeça de pelugem macia, que cheirava a terra e a sangue. De cima, contemplei a planície, a massa verde de árvore e arbustos, a fita castanha e ziguezagueante do rio que passava à janela do quarto que um dia fora meu, a clareira onde meu corpo permanecia estendido, o corpo do qual eu acabava de me separar.

▪ Apresentação do livro O Pássaro Secreto na Fundação Casa de José Américo, em 29 de outubro de 2021

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  1. Ângela Bezerra de Castro deu um estojo de luxo a essa joia, que é O Pássaro Secreto.

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  2. Salve a Paraíba!!!! Parabéns a Marília Arnaud!!!!

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  3. Gostei demais. Você sabe dizer o essencial com sabedoria, poder de síntese e uma abrangência do tamanho no Universo.
    Não basta ser a professora de literatura. Precisa ter cabedal de leitura e visão crítica de mestre para raciocinar assim. E saber escrever.

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