O movimento romântico nas artes com frequência nos inclina a apuradas reflexões, principalmente no mundo da Música. Não que a delicadeza b...

O Poema do Êxtase

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O movimento romântico nas artes com frequência nos inclina a apuradas reflexões, principalmente no mundo da Música. Não que a delicadeza bem comportada das obras barrocas, ou ainda mais antigas, não sugira devaneios à emoção, mas os românticos como Scriabin, Mahler, Bruckner, Sibelius, Strauss, Wagner, Saint-Saëns, Shostakovich, extrapolaram os limites da imaginação ao quebrar as barreiras da estética clássica de maneira arrebatadora.

Tal ruptura de formas e padrões da estrutura harmônica dominante nos períodos anteriores também ocorreu na literatura, poesia e artes plásticas, quase concomitantemente. A efervescência dos sentidos exacerbou-se rumo à liberdade de expressão, a desatar tudo o que havia preso nos recônditos do consciente e do inconsciente emocional. O sensitivo irmanava-se
Jean Delville
à intuição artística moldando o grito entusiasmado das ideias em linguagem livre e cristalina.

Os dramas épicos e nacionalistas aliavam-se à impetuosidade da paixão, trágica ou lírica. Uma tendência de total flexibilidade das formas pré-estabelecidas potencializava arroubos poéticos comuns a afeições inerentes à saudade, à alegria, ao amor, à angústia, à tristeza e à desilusão. A protagonização romanesca traduzia e relatava, enfim, tudo o que ocorria no âmago do ser.

A revolução francesa contribuiu para que a reconfiguração da arte eclodisse contagiada com o espírito de independência transformadora de tudo convencionado até então. Embora outras rebeldias, íntimas ou não, próprias da evolução e da história da humanidade tenham contribuído para a epopeia da fantasia. E tal influência foi assim estendida às demais manifestações artístico-culturais.

Altas doses de egocentrismo temperaram textos, poemas, sinfonias, pinturas e até mesmo a filosofia, destacando impulsos individuais acima de tudo, por vezes sob exagerado subjetivismo. E o esplendor da estrondosa e instigante beleza da Natureza e seus fenômenos atemorizantes fez o homem interagir com o eu lírico, exprimindo com toda força o que vivenciava no momento narrado. A criação divina influenciava e se retratava no estado de espírito do artista, do qual emergiam inspirações que advinham do grotesco ao medievalismo, do bélico ao pacífico, do trágico ao suavemente poético.

Jean Delville ▪ 1885
Houve, no entanto, românticos autênticos ou tardios que captaram intuitiva e espiritualmente a quintessência mística, transcrevendo para as suas composições a ousada e grandiosa imagem da Divindade.

O compositor russo Alexander Scriabin (1872-1915) é autor de uma obra profundamente romântica, na qual a dramaticidade não se restringe aos aspectos voluptuosos da paixão ou da tragédia. Há nos seus poemas sinfônicos e sinfonias um contexto de densidade transcendental arrebatador. Pois ele próprio dizia ser o artista “fruto de uma designação divina”.

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Alexander Scriabin

Um exemplo “clássico não clássico” dos rompantes modernistas é o seu “Poema do Êxtase” (opus 64), original e intencionalmente literário para se transformar posteriormente em música sinfônica. Sua mensagem em busca do nirvana já se revela em um dos 369 versos, do próprio Scriabin, também poeta, que serviria de base para a obra:

Chamo-vos à vida, forças misteriosas, Afogadas nas profundezas obscuras do espírito criador, Tímidos esboços da vida. A vós trago a audácia.

Tão entusiasmado estava com o novo trabalho que disse, em carta, à sua (segunda) esposa, Tatiana de Schlözer:

“Acabo de escrever um monólogo com as cores mais divinas. Novamente sou arrastado por uma enorme onda de criatividade. Mal consigo respirar. Oh!, que benção! Estou a criar divinamente em um novo estilo, e que alegria é vê-lo tomar forma tão bem! (...) Por vezes, o efeito do poema é tão potente que não é necessário conteúdo algum. Estou a exprimir – neste poema – o que virá a ser o mesmo como música.”

Passaram-se 3 anos, de 1904 a 1907, para que o Poema do Êxtase fosse concluído, após várias transformações, todas livres de quaisquer limites formais, estreando em dezembro de 1908, em Nova York. O desejo do autor era realmente esse, transcender, extrapolar, descrever a jornada da alma às esferas superiores, no ondulado ritmo da evolução humana. A música assim cresce, indo e vindo se robustece, para atingir um auge de sonoridade de extasiante luminescência.

Jean Delville ▪ 1932
Logo após a estreia em seu país, na capital São Petersburgo, a crítica convergiu quase unânime ao classificar o Poema do Êxtase como “a obra mais ousada em toda a música contemporânea”. Enfim, a liberdade musical fora alcançada com excelsa sublimação das reações íntimas diante da arte, em busca da iluminação, confessada pelo próprio autor:

“Ama a vida com todo o teu ser e serás feliz como nunca. Não temas ser o que queres ser. Não tenhas medo de teus desejos. Não temas nem a vida nem o sofrimento. Não há nada maior do que a vitória sobre o desespero. Não tenhas medo, jamais, de desejar e de fazer o que tu bem quiseres”.

Imbuído de total desprendimento, sempre associado à plenitude, Scriabin consegue, em pouco mais de vinte minutos, condensar a nítida imagem da ascensão à espiritualidade. No início a música sugere o tatear da pureza, da ignorância, da simplicidade, e, aos poucos, ao longo do poema, faz a alma expandir a consciência, iluminar-se.

O início é suave como um despertar e se consolida aos poucos à vigília. O tema composto por três intervalos ascendentes e consecutivos de duas notas, inúmeras vezes tocados pelos trompetes, estão presentes em toda a partitura. Os metais têm uma participação enfática ao executá-lo conferindo o caráter solene de anunciação de uma meta, de um objetivo: o êxtase místico, a grandiosa ponte que Scriabin edificou entre o humano e o divino.

Jean Delville
O adensamento sinfônico enriquece-se passo a passo com a diversidade de timbres e espectros melódicos que se contrapõem em complexidade perfeitamente unificada na harmonia de conjunto. Na incisiva jornada ao auge epifânico, a música oscila entre forte e piano, entusiasmo e suavidade, e assim evolui para o glorioso clímax . Toda orquestra ruge, com tímpanos, gongo, sinos e colaneri a explodir no portentoso frenesi que tão bem singulariza o universo sonoro de Scriabin.

Ao final, descortina-se então a visão panorâmica contagiante capaz de nos conduzir às cintilantes órbitas celestiais. É quando os ouvidos transmitem intensa comoção aos olhos que, mesmo cerrados, lançam-se na exuberância do cosmo irradiando-se em direções antagônicas, do infinito imaginário à realização do ser interior.

Jean Delville
Logo após a explosão sinfônica que finaliza o poema, o espírito agora reconfortado respira pela última vez, e consagra seu renascimento no glorioso clímax do pungente epílogo , tal como Richard Strauss magistralmente alcançou na conclusão de seu célebre trabalho “Morte e Transfiguração" (Tod und Verklärung, 1891 - Eisenach).

Ao ouvir o Poema do Êxtase, conclui-se que os efeitos da arte que extrapola, que ousa, que se desgarra do que é óbvio, das convenções contextuais, invariavelmente fortalece a convicção de que a liberdade é extasiante. Aprendamos então com os românticos. Vivamos nossos sonhos. Inovemos, criemos o incomum, abracemos aquilo que nos compraz, deixando explodir aos céus tudo o que é intimamente belo, sem medo de ser livres. Completamente livres.


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  1. W. J. Solha23/10/21 20:02

    Seus textos a partir de grandes composições musicais, acabam sendo grandes composições literárias.

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  2. Marília Mesquita Guedes Pereira23/10/21 20:03

    Que beleza de texto, aplausos Germano! A mensagem é maravilhosa do poeta russo Alexander Scriabin, em seu Poema do Êxtase ! Parabéns

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