A vida começa a sair do quebranto, a bater asas e recobrar o pio dos humanos. Deixo a Casa da Cidadania, no Tambiá, uma invenção do tempo ...

Seu Frederico!

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A vida começa a sair do quebranto, a bater asas e recobrar o pio dos humanos. Deixo a Casa da Cidadania, no Tambiá, uma invenção do tempo de José Maranhão, que sobrou no livro que assinei com Ângela Bezerra de Castro, a ele dedicado, e veio se consolidar por aceitação real da cidadania. Arrisco uma olhadela para a clientela da praça da alimentação até deter-me no café, a um canto, onde uma moça
de quem conservara o riso e o olhar me chama pelo nome.

Ser chamado pelo nome é o melhor que me pode acontecer, o que mais persegui desde que aqui cheguei, rapaz, em fevereiro de 1951. Às vezes tenho pago até mais caro, desde quando a Torre de Manuel e seus irmãos, construído o primeiro mercado público, ingressaram no ramo do supermercado.

Mas voltemos ao café, onde vou reencontrar os suaves e grandes olhos da moça do atendimento, o alarido de meu amigo Gesiel Cândido e uma roda de conversa em torno de Manuel Raposo, editor persistente da revista impressa. Roda entretida de falas em mesinha apertada. “Sentar, Gonzaga” – acena Gesiel.

Ainda receoso, agradeci. Nem tanto pela roda apertada de falas como pela surpresa que eu deixara atrás, ao cruzar a praça da alimentação: Frederico de Carvalho Costa, ele todinho, sem tirar nem pôr, de terno e gravata, tal como se vestia formalmente para abrir a repartição do imposto federal em minha Alagoa Nova. Na conversa de minha mãe, que dava o tom a todos os assuntos lá de casa, ele era o “praciano” que sabia entrar e sair, um homem muito superior ao seu metro e sessenta.

Era ele todinho o que eu acabava de avistar ao cortar a praça, embora tenha morrido há uns vinte anos com o registro de minha própria crônica.

Seu Frederico chefiava a coletoria federal no lugar mais municipal do Brasil. Anos depois, descubro-o sob uma das muitas marquises do Ponto de Cem Réis e corro para ele como imigrante que avistasse um protetor em terra completamente estranha. Recém-chegado, faltava quem me respondesse até a um bom-dia. Avistar Frederico de Carvalho Costa do outro lado da calçada foi uma espécie de volta à casa paterna, mesmo que eu não tivesse mais casa para voltar, destruída pela inverneira do Brejo ou pela orfandade de cuidados, sem mais o dono que a retelhasse, minha pobre mãe sem qualquer companhia ou amparo. Deixei-a sozinha, sozinha com a sua fé e o pequeno oratório que não cabia mais do que a santinha que ainda conservo sob luz, na sala. Perdão, santinha no tico de madeira em que foi esculpida, nas tintas de mais de século e meio que enodoaram e sem mais as mãos postas, mutiladas pelo tempo, mas Nossa Senhora da Conceição onde posaram e se mantém por toda a vida os olhos de fé de minha mãe.

Desprezo o convite dos amigos e volto à praça em tempo de conferir a semelhança de criaturas tão distantes. E encontro o lugar mais limpo deste mundo, tudo num instante — a mesa sem um prato, um copo, um vestígio de testemunho. Um farelo, pelo menos.

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