Definitivamente não estou preparado para esses novos tempos. Meus passos não conseguem acompanhar a velocidade das transformações. Diz um ...

Ah, essas modernidades...

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Definitivamente não estou preparado para esses novos tempos. Meus passos não conseguem acompanhar a velocidade das transformações. Diz um dos mais conhecidos preceitos relativos aos progressos da humanidade: as invenções aconteceram para facilitar nossas vidas. Sempre foi assim. Está aí o controle remoto que não me deixa mentir. Podíamos falar de muita coisa, da roda ao avião, do estribo que dá firmeza e equilíbrio à montaria à injeção eletrônica, e por aí vai. Mas agora...Pelo menos comigo não está valendo essa máxima que acabei de citar. Estive dias atrás no maior sufoco, sofri que só o diabo.

Devia ter me preparado para esse mundo que está à nossa frente e não o fiz por acomodação, vulgo preguiça. A sensação que eu tenho, é aquela que já devo ter visto em alguma fita de cinema em que o sujeito passa umas décadas em coma e quando desperta o mundo já não é o mesmo. É assim que estou me sentindo.

Viajei, e o que é pior, de avião e sem mulher e sem a filha que me socorrem nessas horas de trevas absolutas. Na partida de João Pessoa eu estava senhor de mim, nada de complicações, mas em Guarulhos... Até descobrir onde estavam as malas andei como um peregrino na trilha de Santiago de Compostela. Quando cheguei à esteira número 203 minhas malas – duas - passeavam solitárias, todos já tinham recolhido suas bagagens. Só faltava o bonitão aqui. Senti-me perdido naquele formigueiro, gente que não acabava mais. Mas o calvário não acaba aí. Iam me buscar e marcaram para eu esperar em frente a uma desses estabelecimentos “festifudi” (o nome já é esquisito), um tal de Mequidonaldis. Veio a fome. Olhei para uma moça muito simpática de camisa branca com listras vermelhas (ou vermelha de listras brancas), gravatinha borboleta encarnada, boné amarelo com detalhes vermelhos. Como disse, uma simpatia. Abriu-me um sorriso de cinderela e então arrisquei solicitar uma informação.

_ É com você que faço o pedido? – apontei um sanduíche que aparecia na foto do reclame estampado num painel. _ Não meu senhor, aqui é só sorvete- respondeu com um quê muito sutil de deboche.

Era verdade, eu devia ter prestado mais atenção. Arrastei as malas (aquelas) até o outro balcão. Uma mocetona no mesmo uniforme e sem a mesma simpatia da anterior cruzou o olhar comigo, então fui logo perguntando:

_ É com você que faço o pedido?

_Não, senhor. É ali, oh – e me apontou uma engenhoca que depois soube se chamar ‘totem” – é ali que o senhor faz o pedido – completou a moçoila.

Olhei a geringonça de frente, de banda, de soslaio. Parecia um celular grandão e cheio de aplicativos. Nisso um garotinho arrastando nas costas não mais que 10 anos chegou exibindo sua desenvoltura naquela arapuca. Aperta aqui, aperta ali, faz isso, faz aquilo e pronto! Foi buscar sua gororoba com batatas fritas e um copo de coca-cola. Eu não ia conseguir. Quase morri de inveja...

Não deu outra, peguei o beco e fui procurar um estabelecimento que parecesse mais tradicional, quem sabe um com gente atendendo as mesas. No aeroporto onde tudo custa os olhos da cara? Um com jeitão de botequim? Como Deus é pai, acabei encontrando um com garçonete indo às mesas e fiquei na espreita até que vi um rapaz fazendo seu pedido diretamente de uma delas (estou falando das mesas). “É aí”, pensei. Dei com os burros n’água. Vou contar.

A atendente chegou toda solícita e fui pedindo o cardápio.

_ O senhor pede o cardápio pelo celular.

_ Como assim? Telefono pra senhora? - ela riu e tentou esclarecer

- É pelo querricoldi. _ Pelo quê?

_ Pelo querricoldi, o senhor não sabe o que é? – fiquei envergonhado e resolvi sair pela tangente.

_ Ah, sim, mas estou sem óculos. Você pode me ajudar?

Uma “anja”. Fez todo o procedimento e consegui comer uma pizza brotinho com um copo d’água com gás. Insisto, com gás! Paguei no cartão, acreditem.

E por aí continuou minha “via crucis” até chegarem filha e genro para me tirarem daquele pesadelo. Não dá para contar outros embaraços, a não ser que o redator deste caderno me ofereça mais espaço, quiçá umas duas páginas.

Sei que existe por aí a figura do “personal”. Tem o stylist, o trainer, shopper e outros…quero adotar o personal technology para me tirar desses apertos.

Enquanto isso, mil vivas ao Bar do Lulinha, onde você faz o pedido no grito, e o cardápio chega da mesma forma. A conta aparece num papel, via de regra com alguma mancha de gordura. Você paga em dinheiro (soube que já aceita cartão e que pare por aí) ele dá o troco se houver, e pronto. E o que é mais importante, se você estiver sem grana, a conta fica no prego. Ali o que vale é a confiança. Vá fazer isso no Mequidonaldis....

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  1. Genial, Paiva. Estou também me sentindo na Idade da Pedra - a Lascada, que fique bem claro.

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