O dia de folga me permitiu um percurso mais demorado pelas trilhas infinitas da internet. A que acabo de percorrer levou-me a um endereço ...

Vinhos Tito Silva

nostalgia fabrica vinho artesanal paraiba
O dia de folga me permitiu um percurso mais demorado pelas trilhas infinitas da internet. A que acabo de percorrer levou-me a um endereço impresso na memória coletiva de João Pessoa, a Capital da Paraíba: o prédio da Rua da Areia onde funcionou a extinta fábrica de vinhos Tito Silva. Ali entrei por corredores do acervo fotográfico do
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Place Du Vin ▪ facebook
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan.

Impossível pôr os olhos nas fotografias ali exibidas sem que me venham à lembrança os versos do poeta Américo Falcão impressos no rótulo do Vinho Celeste:

“O beijo que tu me deste tinha o sabor inocente que uma taça de Celeste deixa nos lábios da gente”.

Aliás, o poeta também me remete à figura impressionante do paraibano Mário Moacyr Porto. Falou-me, este último, em entrevista para a Revista “A Carta” (tão extinta quanto o vinho de caju), de sua primeira desilusão amorosa.

A menina a quem entregara o coração, quando mal entrava na adolescência, o trocara por outro. Decidiu vingar-se por meio do jornal de estudantes destinado ao público da Festa das Neves, onde pretendia publicar uma, ou duas quadrinhas. Mas emperrou nos dois primeiros versos:

“Não estou ligando importância a quem não gosta de mim”.

O jeito foi se socorrer do dr. Américo que, então, dirigia a Biblioteca Pública. Disse ao que ia, arrancou um sorriso do poeta e recebeu, de pronto, isto:

“Um trovador que padece disse numa trova dolente que a gente nunca esquece de quem se esquece da gente. Não creio em tal e ofereço esta verdade sem fim. O mais depressa me esqueço de quem se esquece de mim”.

“Veja só a minha desonestidade intelectual. Pus o meu nome embaixo e publiquei o poema que fez um sucesso danado”, contou-me, às gargalhadas, o velho Mário, o homem a quem a Paraíba conheceu como reitor da UFPB cassado pelo Golpe de 1964, desembargador e empresário de peso. A scheelita que a Mineradora Tomaz Salustino, sob sua direção, extraía do Rio Grande do Norte, era vendida na Europa.

E eu me pergunto: que tempo era aquele em que a poesia encontrava abrigo em selo comercial e poetas socorriam meninos apaixonados?

Voltemos, porém, aos vinhos de caju. Diz-se que a Tito Silva – implantada em 1892 com o nome do criador – chegou a exportá-los, largamente, para a Europa e os Estados Unidos, até a 2ª Guerra Mundial atrapalhar as vendagens.

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Imagens ▪ Acervo IPHAN

A receita, guardada a sete chaves, fora aprendida com imigrantes europeus nas serras de Areia, a terra de Tito Silva, jornalista, também, nas horas vagas.

Nos tempos áureos, o vinho Celeste ostentava diplomas internacionalmente invejados. Citem-se os Prêmios de Turim (1910) e Bruxelas (1911). Havia, ainda, o Lágrima de Ouro, de grande consumo. O fabrico quase artesanal, a escassez progressiva da matéria prima (derrubavam-se cajueiros para fazer carvão), a elevação dos encargos tributários e, sobretudo, a perda do mercado exterior terminariam por sepultar todo esse negócio.

O velho prédio da Rua da Areia foi desapropriado pelo Governo do Estado em 1984, praticamente em ruinas, mas restaurado a partir de outubro de 1997. A conclusão desse trabalho deu-se em 2003, graças à parceria com o Iphan e o pessoal da Escola-Oficina que, hoje em dia, mantém, ali, a sua sede.

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  1. Muito bom. Por Tito Silva e pela história dos versos, que me remeteu a uma semelhante. Eu trabalhava na agência centro do Banco do Brasil, quando um colega se aproximou, dizendo-me que à noite iria haver uma festa, em sua casa, pelo aniversário do filho e, "será que você poderia escrever uns versos, como se fossem meus, para ele?" Puxei o papel em rolo da máquina de calcular, fiz o que ele pedia. No dia seguinte, a esposa, que sempre vinha pegá-lo de carro, se aproximou e me disse que o marido fizera sucesso na noite anterior, mas que ela estava muuuito desconfiada de que aquilo era coisa minha. "Versos?!" - menti, surpreso.

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  2. Eu tenho uma garrafa intacta desse vinho

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