Os ferreiros um bate lá outro bate cá um bateaqui outro bateacolá por instantes desafinam a monotonia da caatinga. ...

As casas

poesia paraibana linaldo guedes
 
 
Os ferreiros
um bate lá outro bate cá um bateaqui outro bateacolá por instantes desafinam a monotonia da caatinga.
Primeira infância
os meninos do sertão já nascem sorrindo para a rua às vezes nus outras, não fazem dos paralelepípedos residências oficiais de verão (já que o inverno é exceção na alma) os meninos do sertão nascem livres para sonhar.
As casas
a primeira ficou distante da memória - foi morar em outro menino a segunda, lembra, tinha uns batentes ainda não haviam heróis (só os sonhos) a terceira ficava do outro lado do nordeste e tinha um sotaque maranhes: sombras e vozes assombram os fantasmas do caubói de araque de volta à terra natal: nova rua nova casa novos amigos era o rei da bola de gude mas foi como súdito que chorou após o último suspiro da avó enfim, a capital e a casa grande, longe da senzala, em forma de igreja: o adolescente pensa que a vida se esconde no pé de goiaba (apesar da paixão que absorve a puberdade) outra casa, mesmo bairro outro formato, mais apertada e a pelada se transforma em ritual a primeira paquera guarda tons evangélicos e o menino reza pelo futuro que não chega ainda Jaguaribe - bairro de tantas casas – portões dão segurança mas não seguram sonhos negam segredos contam dores sangram a solidão na rua da areia: um viaduto os carros a velocidade o infinito os cabarés o início da cidade o adolescente duelando com o menino depois o cristo bairro nada religioso ao lado do mato quase dentro do mato quase que ele mata o menino que dormia no poeta lá vem cajazeiras de novo já homem (mal) feito estudando as letras namorando à vera o pai vira saudade e a cidade, poesia agora, no litoral (dentro de um apartamento sufoca as dores do futuro).
Mater
quando olho nos olhos de minha mãe vejo as peraltices de uma infância tardia com um arrazoado de conselhos alheios e uma cumplicidade do futuro que dormia quando olho nos olhos de minha mãe sinto a fé de uma reza que não tem fim a oração daquela nossa senhora minha suplicando com um jeito assim assim quando olho os olhos tristes de minha mãe arrisco caminhar na memória da cidade arrisco benzer-me no cristo que é só imagem porque preciso construir minha tosca alegria com os cacos da alma e o amor sofrido que resiste nos olhos tristes de minha querida mãe.
Alucinação
(para Wilton Júnior) (atropelados pelos pássaros noturnos do sertão) sei dos becos da alma e da fumaça e dos olhos vermelhos que imploram tragos que pedem que tragas a droga da vida numa bandeja vazia (e as cores fazendo ciranda em meus olhos).
Livro aberto
ser tão abstrato quanto as águas do meu sertão.
Milagre
menino deita na rede - bença pai! - bença mãe! lá do outro quarto vinha a resposta: - deus te abençoe, filho! - deus te dê saúde, filho! e as malditas sombras na parede e a insônia chata de cada noite e as dores por ter jogado bola e a preguiça de ir para a escola sumiam!

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