"O poema nasce de uma relação indissociável com a música, o que nos autoriza a reafirmar que ele foi feito para os ouvidos, não ...

Festival de Memórias

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"O poema nasce de uma relação indissociável com a música, o que nos autoriza a reafirmar que ele foi feito para os ouvidos, não para os olhos”.

Com este belo adágio, o professor Milton Marques Júnior abriu, semana passada, o grandioso evento — VIII Festival Internacional de Música de Câmara PPGM-UFPB —, sob a coordenação do Professor Doutor Felipe Avellar de Aquino, que homenageou o poeta Augusto dos Anjos sob o epíteto “Um Festival para Augusto”. E Milton acrescentou:

“Considero a mais feliz das associações, tendo em vista a riqueza musical, rítmica e harmônica que existe nos versos deste que é, não apenas o maior dos poetas paraibanos, mas um dos maiores da Língua Portuguesa".
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Milton Marques Júnior PPGM-UFPB
Este Festival é tão exemplar quanto foi a trajetória do maestro José Alberto Kaplan, argentino de berço e paraibano de alma, um dos homenageados neste acontecimento, cuja existência foi de professor por excelência.

A lembrança nos transporta ao tempo em que nossa mãe partiu, tão prematuramente, aos 55 anos. A vida, em sua dura surpresa, nos pregara a peça que ninguém está livre de enfrentar. Tudo estava em perfeita harmonia: recém-aposentada, bonita, realizada, amada — plena em todos os sentidos. E, de repente, deixa órfãos os três homens de sua vida: meu pai, meu irmão e eu.

Naquele período, eu trabalhava com o arquiteto Amaro Muniz de Castro, meu professor e mestre de ofício, no escritório em que estagiei e depois permaneci por quase oito anos, já formado. Mas diante da doída separação, foi preciso recolher-me,
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Carmen Coeli Gouveia Romero
reduzir minhas atividades, reavaliar sentidos existenciais. E era na Música que eu buscava me encontrar, enquanto os meses levavam a imagem da mãe querida para longe no tempo e a saudade para tão perto.

Então decidi ir à loja de departamentos Mesbla para comprar um piano novo. Pouco depois, voltei a dedilhar, depois de tantos anos, sonatas de Clementi, estudos de Czerny, invenções de Bach — uma forma de comunicação quase transcendental com a bela Carmen, nome que meu avô, Clodoaldo Gouveia, dera à filha em homenagem à ópera de Bizet.

Resolvi, então, prestar vestibular para o recém-criado Bacharelado em Música da UFPB, por iniciativa da gestão de Linaldo Cavalcanti. Havia poucas vagas, sobretudo para a classe mais cobiçada, que era a do maestro José Alberto Kaplan. A pedido meu, papai, que bem o conhecia, foi falar com ele sobre o sonho do filho ora tão saudoso. A resposta, breve e firme, soou como um desafio: — “Só depois de escutá-lo”.

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Germano Romero
Ao receber a notícia, quase um veredito, preparei-me como nunca. A apresentação seria na casa dele, no bucólico Bairro dos Estados. Chegado o dia, toquei, com nervosismo contido, uma sonata de Beethoven e uma peça de Villa-Lobos — já do programa do vestibular da UFPB. No final, para minha surpresa, estava aceito. Mas Kaplan impôs uma veemente condição: só poderia me submeter ao exame oficial após mais um ano de preparo.

E o maestro me concedeu onze meses de aulas intensas, duas ou três horas por semana, em sua própria residência, sem jamais aceitar qualquer remuneração. Por puro amor à Música, puro amor ao próximo. Virtudes de um artista maior, de um mestre inigualável, com quem tive a honra de conviver durante este período e mais cinco anos acadêmicos.

Com ele convivi de perto, naquela casa com cheiro de campo, de café fresco, de mesa posta, de vinho bom, de música melhor ainda. Uma casa de gente boa, onde a arte e o afeto eram a respiração diária, regida por sua eterna musa, Márcia Kaplan.

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Márcia Kaplan Ana Elvira Steinbach
A valorização da técnica que o emérito professor imprimia em suas aulas era uma de suas reconhecidas marcas. Para ele, a técnica pianística correta se colocava no mesmo grau de importância do talento e da vocação. A ênfase na independência dos movimentos e músculos envolvidos na performance da interpretação, no relaxamento, na “economia” de movimentos, o correto dedilhado e a fidelidade ao espírito dos compositores eram primordiais na arte de interpretação musical que ensinava com rigor e empatia.

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Maestro José Alberto Kaplan Ana Alvira Steinbach
Foram anos de aprendizado não só pianístico, mas muito humano. Sua conduta como pessoa, simples, correta, justa, e a sagacidade de suas observações e ensinamentos ofereciam aos alunos muito mais do que um aprendizado acadêmico. Sua dedicação ao magistério, que exercia com imenso prazer e emoção, era uma grande lição para os que tiveram o privilégio de sua convivência.

Já graduado em Música, retornei à Arquitetura, sem jamais me afastar da lembrança daquele homem extraordinário, que me ensinou a enxergar na partitura muito além da melodia: a música como exemplo de vida.

Aos que promovem este grandioso Festival, que carrega o condão de colocar a Paraíba no nível artístico que merece, nossas congratulações pela iniciativa já incluída no que de melhor existe no calendário nacional de atividades culturais.

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Cármelo de Los Santos / Felipe Avellar de Aquino
8º Festival Internacional de Música - PPGM/UFPB Felipe Aquino

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  1. Bravíssimo, Germano! Bela e justa homenagem ao saudoso maestro Kaplan. Francisco Gil Messias.

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  2. Marcel Bruno31/8/25 10:22

    Parabéns a você também, Germano, por reconhecer e homenagear seu querido mestre professor Kaplan, que tanto fez pela música paraibana, e que tão generoso foi por você como aluno.

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  3. Fiquei a imaginar o lar dos Kaplan : as notas de café entrelaçadas às musicais,o colorido das taças de vinho pincelando as cores das maçãs do rosto da professora Márcia,o verde ,as flores que compunham o cenário.Boas e velas lembranças que ,saltaram do texto e iluminaram o comecinho da minha tarde.Lembro da professora quando dos tempos à frente da SEDEC do município,mulher linda e empoderada.Era necessário vê-la com os olhos da alma para alcançar a beleza que irradiava ,sua beleza já além da física,era dona de uma beleza que beirava às artes.Memórias que me chegam.

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