Aquela figura fantasmagórica que aparece em meus pesadelos para me assombrar, tendo à mão uma foice afiada, querendo pôr termo à minha passagem por este planeta, anda me assustando nessas minhas últimas noites, por sinal, tão mal dormidas. Pois não é que essa coisa anda à solta por aqui e levando gente querida? Dias atrás levou o Chico Pereira, que vinha, como um guerreiro incansável, lutando pela vida, e me parece que essa foi a única batalha que Chico não venceu. De todas as outras saiu vitorioso, e o espólio dessas contendas está por aí como legado indelével às nossas artes, à nossa cultura; enfim, Chico não veio a passeio na vida e deixou por aqui o melhor de si.
Chico Pereira
Nesse derradeiro sábado de 2025 da graça do Senhor, chegava eu todo pimpão à Livraria do Luiz, chinelo de dedo, bermuda, camisa polo e, como diria a canção, “sem lenço e sem documento”. Queria comemorar um fim de semana sem compromissos de trabalho acumulado e outras obrigações. Estava ali para rever amigos, jogar conversa fora e, depois, quem sabe, ir molhar a palavra em algum botequim das imediações.
Livraria do Luiz (Centro Histórico de João Pessoa)
Estava, linhas atrás, discorrendo acerca da natural finitude de nossa existência, mas essa última notícia ainda não digeri, dada a minha proximidade com esse nosso historiador, jornalista e cronista, atributos que o colocam no rol dos da melhor cepa. Como diríamos hoje, no jargão da moçadinha, Thomas era meu parça.
Thomas Bruno
Dentre outras atividades, Thomas era membro da seccional paraibana da União Brasileira de Escritores, entidade que presido há alguns anos. E é daí que vem o que mais me incomoda nessa história toda. Terça-feira, dia 23, nossa entidade promoveu uma assembleia virtual para discutir alterações em seu Estatuto. O membro mais ativo na ocasião, quem mais falou, quem mais deu força aos nossos projetos futuros, foi esse nosso amigo. Os que se fizeram presentes ficaram incrédulos com a notícia que tive de transmitir aos nossos associados, porque, além da surpresa, Thomas arrastava consigo a virtude da benquerença: era uma alma agregadora, doce, simpática.
União Brasileira de Escritores (Paraíba) ▪️ Evento no qual os escritores Thomas Bruno Oliveira, Gilmar Leite, José Edmilson Rodrigues e José Pequeno Filho tomaram posse como membros
Thomas amava a Paraíba e, com mais intensidade, sua Campina Grande. Pela sua cidade nutria paixão visceral, que eu qualificava de “patriotismo municipal”, tal a intensidade dessa relação. São imagens como essa — como a que apareceu todo sorridente, chapéu de couro no cocuruto, para uma palestra na UBE sobre a relação cordel/literatura — que não desgrudam de mim.
Enfim, não direi que nossa terrinha ficou mais triste com a partida de Chico e Thomas; ficou, sim, melhor e mais iluminada com a passagem deles por aqui.
























