Aquela figura fantasmagórica que aparece em meus pesadelos para me assombrar, tendo à mão uma foice afiada, querendo pôr termo à minh...

Essas doeram

fatalidade morte surpresas ano novo
Aquela figura fantasmagórica que aparece em meus pesadelos para me assombrar, tendo à mão uma foice afiada, querendo pôr termo à minha passagem por este planeta, anda me assustando nessas minhas últimas noites, por sinal, tão mal dormidas. Pois não é que essa coisa anda à solta por aqui e levando gente querida? Dias atrás levou o Chico Pereira, que vinha, como um guerreiro incansável, lutando pela vida, e me parece que essa foi a única batalha que Chico não venceu. De todas as outras saiu vitorioso, e o espólio dessas contendas está por aí como legado indelével às nossas artes, à nossa cultura; enfim, Chico não veio a passeio na vida e deixou por aqui o melhor de si.

fatalidade morte surpresas ano novo
Chico Pereira
Mal a poeira assentara nesse deserto a que se resumem nossas vidas quando temos que aceitar a natural finitude da existência humana, fui surpreendido com outra infausta notícia.

Nesse derradeiro sábado de 2025 da graça do Senhor, chegava eu todo pimpão à Livraria do Luiz, chinelo de dedo, bermuda, camisa polo e, como diria a canção, “sem lenço e sem documento”. Queria comemorar um fim de semana sem compromissos de trabalho acumulado e outras obrigações. Estava ali para rever amigos, jogar conversa fora e, depois, quem sabe, ir molhar a palavra em algum botequim das imediações.

fatalidade morte surpresas ano novo
Livraria do Luiz (Centro Histórico de João Pessoa)
Mal havia chegado quando alguém me vem com essa indagação: “Você conhecia o Thomas Bruno?”. O tempo do verbo me fez bambear as pernas. “Como assim, conhecia?”, foi o que perguntei entre a surpresa e o susto. Então veio a triste constatação: Thomas Bruno se fora.

Estava, linhas atrás, discorrendo acerca da natural finitude de nossa existência, mas essa última notícia ainda não digeri, dada a minha proximidade com esse nosso historiador, jornalista e cronista, atributos que o colocam no rol dos da melhor cepa. Como diríamos hoje, no jargão da moçadinha, Thomas era meu parça.

fatalidade morte surpresas ano novo
Thomas Bruno
Desde então, não consegui assimilar o ocorrido. Imagens, situações, lembranças me surgem a todos os instantes. Abri meu último livro e, numa das páginas, num conto, “Pistola e Garrucha”, lá está o Thomas como personagem. Toda vez que o encontrava, lá vinha ele com a pergunta: “E como vão nossos sacis?”. E por que desse questionamento? Há coisa de uns cinco anos, apareci com a história de que eu havia encontrado um bando de sacis entre Guarabira e Sapé. Como se diz, o “moído” dos sacis consumiu várias edições do nosso poderoso rotativo *A União*. Bruno se colocou como testemunha e, muitas vezes, fora comigo visitar as criaturinhas. Essas conversas inspiraram nosso Wilson Figueiredo a produzir uma pequena escultura, “O Saci”, que me presenteou e que está sobre o piano de minha filha.

Dentre outras atividades, Thomas era membro da seccional paraibana da União Brasileira de Escritores, entidade que presido há alguns anos. E é daí que vem o que mais me incomoda nessa história toda. Terça-feira, dia 23, nossa entidade promoveu uma assembleia virtual para discutir alterações em seu Estatuto. O membro mais ativo na ocasião, quem mais falou, quem mais deu força aos nossos projetos futuros, foi esse nosso amigo. Os que se fizeram presentes ficaram incrédulos com a notícia que tive de transmitir aos nossos associados, porque, além da surpresa, Thomas arrastava consigo a virtude da benquerença: era uma alma agregadora, doce, simpática.

fatalidade morte surpresas ano novo
União Brasileira de Escritores (Paraíba) ▪️ Evento no qual os escritores Thomas Bruno Oliveira, Gilmar Leite, José Edmilson Rodrigues e José Pequeno Filho tomaram posse como membros
Como já rabisquei linhas antes, Thomas estava em muitos dos meus causos. Ele, Zé Edmilson e Zé Pequeno. Imagino como esses outros dois camaradas devem estar se sentindo. O poeta Zé Edmilson e Thomas eram, como se diz, carne e unha. Viviam encangados, pois onde um estava, o outro estava também. Caminharam juntos por essas veredas coloridas da literatura.

Thomas amava a Paraíba e, com mais intensidade, sua Campina Grande. Pela sua cidade nutria paixão visceral, que eu qualificava de “patriotismo municipal”, tal a intensidade dessa relação. São imagens como essa — como a que apareceu todo sorridente, chapéu de couro no cocuruto, para uma palestra na UBE sobre a relação cordel/literatura — que não desgrudam de mim.

Enfim, não direi que nossa terrinha ficou mais triste com a partida de Chico e Thomas; ficou, sim, melhor e mais iluminada com a passagem deles por aqui.

COMENTE, VIA FACEBOOK
COMENTE, VIA GOOGLE
  1. Thélio Farias5/1/26 07:21

    Texto lindo, querido Paiva. Parabéns! Thomas deixou incalculável saudade nos seus amigos e um grande legado.

    ResponderExcluir

leia também