Ela o fez numa terça-feira comum , entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que, naquele dia, tentaria encontrar a empatia. Nã...

Íris alheia

solidao sozinho voz interior
Ela o fez numa terça-feira comum, entre o primeiro e o segundo gole de café. Decidiu que, naquele dia, tentaria encontrar a empatia. Não a palavra desgastada em discursos, não o conceito bonito das redes sociais. Mas a coisa viva, o fio de ouro que une as almas. Ela imaginou que fosse uma questão de olhar nos olhos das pessoas.

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A primeira tentativa foi com o barista. Enquanto ele entregava o copo, ela manteve o olhar fixo, buscando além do cansaço das olheiras, além do sorriso profissional. O que viu foi um reflexo. Literalmente. A própria imagem minúscula, curvada, nos olhos castanhos dele. Ela estava buscando o outro e encontrou a si mesma, pequena e distorcida, na superfície espelhada da íris. Foi um começo desanimador.

No ônibus, insistiu. Olhou para a senhora com as sacolas pesadas. Nos seus olhos azuis desbotados pelo tempo, parecia haver um céu nublado de preocupações. A senhora notou o olhar fixo e franziu a testa, puxando as sacolas para mais perto. O que a narradora buscava como empatia foi recebido como uma ameaça. O fio não se conectou; foi um fio cortado antes do ponto.

A frustração cresceu. Ela começou a ver olhos por toda parte. Olhos apressados, vidrados em telas, fechados de sono, abertos de tédio. Cada um parecia uma fortaleza com as pontes levadiças erguidas.
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Como encontrar a empatia no olho do outro, se o olho é justamente a fronteira, a porta que só se abre por dentro?

Foi então, já no fim do dia, desistindo da busca ativa, que algo aconteceu. No corredor do prédio, esbarrou no vizinho do andar de cima, um homem reservado que sempre carregava um peso silencioso nos ombros. Ele segurava um vaso com uma orquídea murcha. O acidente foi banal: uma batida de ombros, o vaso se espatifou no chão de cimento.

Ela se abaixou ao mesmo tempo que ele, os dois juntando os cacos de barro e os pedaços da flor frágil. "Ela já estava morrendo", disse o vizinho, com uma voz mais suave do que ela imaginava. "Minha esposa plantou. Faz três anos que ela se foi."

Ao ouvir, ela não olhou nos olhos dele imediatamente. Olhou para as mãos dele, tremulas, segurando o caule quebrado. Olhou para a terra espalhada. E só então, quando ele suspirou, seus olhos se encontraram. E ela não buscou nada. Não tentou pescar uma história,
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nem decifrar uma dor. Apenas viu. E nos olhos dele, úmidos e sem tentar disfarçar, ela não viu um reflexo de si mesma. Viu um céu diferente do seu. Um céu particular, de uma saudade que não era dela. E, por não ser dela, ela pôde respeitá-lo, acolhê-lo sem invadi-lo.

Não houve um lampejo mágico. Não foi uma fusão de almas. Foi mais simples e mais profundo: foi um testemunho. A empatia, percebeu ela, enquanto subiam juntos a escada em silêncio, não estava no olho do outro. Estava no espaço entre o seu olhar e o olhar dele. No território frágil e aberto que se cria quando você para de procurar no outro um espelho ou uma história, e simplesmente se faz presente para a realidade que ele é.

A busca terminou onde não deveria ter começado: fora de si. A empatia não é um tesouro escondido na íris alheia. É a coragem de deixar seu próprio mundo em suspenso, para que o universo do outro, por um instante, possa brilhar com sua própria luz estranha, incompreensível e inteiramente digna de ser vista.

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Naquela noite, ao fechar os olhos, ela não viu mais imagens refletidas. Viu portas. E entendeu que a verdadeira conexão não está em arrombar essas portas com o olhar, mas em sentar-se respeitosamente na soleira, fazendo companhia à luz, ou à escuridão, que vem de dentro.

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