Com todo respeito, passei o carnaval com ela. Mais propriamente com o novo livro da escritora santista-pessoense, Recapitulação (Editora 34, São Paulo, 2025), conjunto de 12 contos muito criativos, que têm como ponto de partida ou como referência poemas, contos, novelas e romances famosos, de autores igualmente célebres.
De fato, essas “recriações” literárias aqui e acolá aparecem, mas não com frequência; são, digamos, exercícios que alguns autores gostam de praticar, como desafio ou diversão – ou ambos. Entretanto, não são para qualquer um, vê-se logo, pois exigem fina mestria daqueles que a elas se aventuram. Fernando Sabino e Domício Proença Filho, por exemplo, aventuraram-se, cada qual ao seu modo, a recriar Dom Casmurro. Com êxito, a meu ver, o que também posso agora afirmar de Maria Valéria.
Maria Valéria Rezende ▪️ Facebook: @maria.v.rezende
No excelente posfácio, o professor Roberto Zular apresenta sua bem fundamentada exegese de cada um dos contos do livro. São interpretações muito sábias e pertinentes, claro, mas que não excluem outras, principalmente a do simples leitor, desarmado de teorias e erudições. A propósito, este leitor simples terá panos para as mangas se tiver a feliz possibilidade de relacionar os contos às respectivas obras inspiradoras, pois assim fruirá plenamente o trabalho criador – e recriador – da autora.
No primeiro conto, intitulado “Será isso?”, por exemplo, vi o começo de A metamorfose, de Kafka, narrado ao contrário, ou seja, com o inseto, ao acordar, transformando-se aos poucos em Gregor Sansa, o protagonista da novela, algo tão viável,
Franz Kafka ▪️ Fonte: Morgan Library & Museum
Já em “Requadrilha”, que nos remete a “Quadrilha”, o conhecido poema drummondiano de seu primeiro livro, Alguma poesia, de 1930, João de fato não amava Tereza (apenas parecia amar) e sim queria J. Pinto Fernandes, aquele que não tinha entrado na história e terminou se casando com Lili. Essa leitura muito contemporânea que a autora faz do poema arranca risadas do leitor atento e revela o senso de humor da escritora. O que não ousou Drummond em seus tempos mais conservadores, fê-lo a freira de nossos dias, sem nenhum problema. Que beleza.
Como disse, só mesmo uma criadora madura poderia ter escritos os contos de Recapitulação. Sobre isto, não tenho dúvidas. E acrescento: também somente uma leitora experimentada seria capaz de ver nos textos originais suas outras potencialidades literárias. E à criatividade da narradora junta-se seu domínio da arte de escrever, já comprovado anteriormente.
Terminei Maria Valéria e já peguei o inglês John Berger de Aqui nos encontramos (Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2008), Definitivamente, não posso reclamar do meu modesto e silencioso carnaval.








