Com todo respeito, passei o carnaval com ela. Mais propriamente com o novo livro da escritora santista-pessoense, Recapitulação (Ed...

Carnaval com Maria Valéria Rezende

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Com todo respeito, passei o carnaval com ela. Mais propriamente com o novo livro da escritora santista-pessoense, Recapitulação (Editora 34, São Paulo, 2025), conjunto de 12 contos muito criativos, que têm como ponto de partida ou como referência poemas, contos, novelas e romances famosos, de autores igualmente célebres.

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Para quem buscava distância da barulhenta folia, melhor companhia não poderia ter achado, confirmando o que já sabia por experiência: não há melhor companheiro que um livro, seja onde for. Li rápido as 85 páginas do pequeno-grande livro, o qual se multiplicou ao me levar em pensamento ao encontro das obras que inspiraram os contos: A metamorfose, de Kafka, Dom Casmurro, de Machado de Assis, Fogo Morto, de José Lins do Rego, e o poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, entre outras. Foi como se fizesse duas leituras ao mesmo tempo, uma “experiência”, como se diz agora, que só a literatura pode proporcionar.

De fato, essas “recriações” literárias aqui e acolá aparecem, mas não com frequência; são, digamos, exercícios que alguns autores gostam de praticar, como desafio ou diversão – ou ambos. Entretanto, não são para qualquer um, vê-se logo, pois exigem fina mestria daqueles que a elas se aventuram. Fernando Sabino e Domício Proença Filho, por exemplo, aventuraram-se, cada qual ao seu modo, a recriar Dom Casmurro. Com êxito, a meu ver, o que também posso agora afirmar de Maria Valéria.

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Maria Valéria Rezende ▪️ Facebook: @maria.v.rezende
Falar em literatura, veio-me à mente o recente evento de lançamento do mais novo livro de João Batista de Brito, no Centro Cultural da Energisa. Chamada ao palco para dizer algumas palavras, Maria Valéria começou dizendo que não sabia muito sobre literatura. Vejam só. A plateia achou graça. E com razão. Pois se não bastasse sua graduação em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy, na França, seus vários livros e prêmios, inclusive o Jabuti de 2015, falam por si mesmos. Sendo assim, atualmente, na Paraíba, se há alguém que pode falar com autoridade sobre o fazer literário é exatamente essa santista que há quase vinte anos escolheu viver discretamente entre nós, para honra da aldeia.

No excelente posfácio, o professor Roberto Zular apresenta sua bem fundamentada exegese de cada um dos contos do livro. São interpretações muito sábias e pertinentes, claro, mas que não excluem outras, principalmente a do simples leitor, desarmado de teorias e erudições. A propósito, este leitor simples terá panos para as mangas se tiver a feliz possibilidade de relacionar os contos às respectivas obras inspiradoras, pois assim fruirá plenamente o trabalho criador – e recriador – da autora.

No primeiro conto, intitulado “Será isso?”, por exemplo, vi o começo de A metamorfose, de Kafka, narrado ao contrário, ou seja, com o inseto, ao acordar, transformando-se aos poucos em Gregor Sansa, o protagonista da novela, algo tão viável,
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Franz Kafka ▪️ Fonte: Morgan Library & Museum
literariamente, quanto a original metamorfose de Gregor em barata ou bicho semelhante, não é mesmo? Eis aí um dos achados da autora. E ela não precisou de mais que uma página e meia para fazê-lo. Apontou, atirou e acertou na mosca, sem arrodeio.

Já em “Requadrilha”, que nos remete a “Quadrilha”, o conhecido poema drummondiano de seu primeiro livro, Alguma poesia, de 1930, João de fato não amava Tereza (apenas parecia amar) e sim queria J. Pinto Fernandes, aquele que não tinha entrado na história e terminou se casando com Lili. Essa leitura muito contemporânea que a autora faz do poema arranca risadas do leitor atento e revela o senso de humor da escritora. O que não ousou Drummond em seus tempos mais conservadores, fê-lo a freira de nossos dias, sem nenhum problema. Que beleza.

Como disse, só mesmo uma criadora madura poderia ter escritos os contos de Recapitulação. Sobre isto, não tenho dúvidas. E acrescento: também somente uma leitora experimentada seria capaz de ver nos textos originais suas outras potencialidades literárias. E à criatividade da narradora junta-se seu domínio da arte de escrever, já comprovado anteriormente.

Terminei Maria Valéria e já peguei o inglês John Berger de Aqui nos encontramos (Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2008), Definitivamente, não posso reclamar do meu modesto e silencioso carnaval.

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