O Ano Novo será melhor do que 2025, na opinião de 69% dos brasileiros, diz pesquisa do Datafolha. Este é um salto percentual de 9 pontos, em relação ao último levantamento da fé no progresso individual manifestada pelos que enfrentam a vida em todos os rincões nacionais. Ou seja, os otimistas eram 60% ao fim de 2024, segundo o mesmo Instituto.
B. Brandão
O ano de 2026, para 16%, será igual ao que se findou. E será pior para 11%, garante, ainda, o Datafolha. Decidiram não opinar sobre isso 3% dos entrevistados. As mulheres, Deus as proteja, estão mais otimistas: 74% delas apostam que se encontrarão, individualmente, em situação cada vez melhor até o advento do próximo dezembro. Coletivamente, a maior diferença dá-se em relação à expectativa do progresso geral do País: 60%, agora, ante 47% da pesquisa anterior. Margem de erro de dois pontos percentuais, a crer-se nas fórmulas e métodos dessas consultas. Aconteça o que acontecer, atravessamos outra fronteira da esperança. As minhas já somam 80.
Ah, esta mania de ver e contar o tempo. Não é coisa das civilizações, assim tidas e havidas. As tribos mais isoladas fazem isso – sem a minúcia das horas e minutos – mediante observação dos ciclos naturais: os da mudança das estações, dos movimentos do sol, da lua e das estrelas. E assim o fazem por uma questão de sobrevivência, perguntem aos estudiosos do tema.
M. Cabral
Nas matas, nos desertos e nas cidades, em diferentes níveis, evidentemente, a vida requer planejamento. Sempre haverá o tempo de plantar e colher, de ficar e partir (caso dos povos nômades), de festas e ritos. Desde seus princípios, a existência humana, bem ou mal, tem sido feita de planejamento, calendários complexos, projetos e ânsias de futuro. A vida assim prosseguirá até que alguém resolva puxar um desses muitos gatilhos atômicos, risco nunca tão factível, dados o agravamento, a intensidade dos conflitos globais e a letalidade de milhares de bombas com voos hipersônicos. Roguemos para que tal coisa não nos ocorra.
M. Cabral
Não estaremos sozinhos em nossas súplicas por um mundo de paz e progresso porque elevamos nossas expectativas num instante mágico. Sim, a chegada de um novo ano, onde quer que aconteça, sempre será um fenômeno impulsionado pela combinação de fatores sociais e culturais. Trata-se de um marco temporal que inicia um ciclo novo. Um ponto de renovação e recomeço.
É por causa disso que você fez contagem regressiva de dez segundos para a hora zero, viu a queima de fogos, ergueu brindes à saúde e à felicidade, saudou o futuro, beijou parentes e amigos.
M. Cabral
Você fez mais do que isso. Fez-se de bobo, ou de boba, na conformidade do seu gênero humano. Se foi à praia, você pulou sete ondinhas. Aposto como se vestiu de branco, a fim de que os grandes agentes globais e suas tropas não ponham fogo no mundo que desejamos justo, pacífico e próspero para nossos filhos e netos.
Você esteve mais feliz, confiante e sorridente. A depender da sua fé, lançou barquinhos com oferendas aos deuses do mar. Se fé é coisa que você não cultiva, não se negou ao abraço nem aos votos mútuos de prosperidade.
M. Cabral
Você não precisou de fé para entrar na festa, pois foi tocado pela esperança coletiva de haver deixado a má sorte para trás: a doença, a dificuldade financeira, o atraso, as inimizades, as separações. Você transpunha, enfim, um marco psicológico de amplitude universal.
E não terá sido diferente em outros pontos do mundo. Na Espanha, muita gente comeu 12 uvas à meia-noite, uma para cada badalada do relógio. Na Itália, comeu lentilhas na ceia. Na Dinamarca, quebrou pratos à porta dos amigos e vizinhos. Você é grego? Então, deve ter pendurado cebolas como símbolo de renovação e crescimento.
Por aqui, sei de gente que virou o ano com uma cédula na carteira a fim de que não lhe falte dinheiro neste 2026. Que guardou sementes de romã atirando ao teto as sementes do ano passado. Que também comeu as lentilhas consumidas na Itália. A folha de louro, símbolo da vitória e do sucesso desde a Roma Antiga, esteve na carteira de muitos brasileiros antes e depois do pipocar das girândolas.
M. Cabral
Na Ásia, o Ano Novo tem datas variadas. Pode ocorrer entre o final de janeiro e meados de fevereiro. Menos no Japão que segue o calendário gregoriano desde 1873. Mas, também ali, ao que me informo, ocorrem as simpatias para afastar a má sina. Na China, usa-se muito a cor vermelha e faz-se a limpeza prévia da casa contra a má sorte. Os fogos de artifício explodem naquelas bandas para a expulsão dos maus espíritos. No transcurso dos anos, convenhamos, toda crendice vira tradição.
Nesta época, sinto uma saudade que dói daqueles calendários impressos nos meus dias de menino. Aqueles que retratavam o Ano Velho como uma figura provecta, arqueada, tristonha e de bengala, em sua despedida da raça humana. E que tomavam uma criança vívida, risonha, como símbolo do Ano Novo. O ambiente era o de um terraço de onde o idoso saía para a entrada do garoto.
GD'Art
Eu me apiedava do velhinho, num tempo em que ainda não sentia a passagem dos anos. Era quando eu tinha os pais vivos e os irmãos por perto. Quando os Réveillons eram feitos de bailes de salão, ruas embandeiradas e parques de diversão com seus bazares e seus brinquedos. E quando a esperança de progresso e desenvolvimento não tinha a necessidade das pesquisas.