É muito agradável voltar a estudar A Odisseia . Revisitá-la é um prazer... é vivenciar uma obra que foi criada antes mesmo do surgime...

Ítaca de Odisseu

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É muito agradável voltar a estudar A Odisseia. Revisitá-la é um prazer... é vivenciar uma obra que foi criada antes mesmo do surgimento da escrita. O poema aborda as aventuras de Odisseu e foi feito por Homero, figura emblemática que, segundo os livros, cujo nome, por si só, já representa todos os outros, por ter sido o mais célebre aedo de todos os tempos. A Odisseia e todos os poemas da época eram recitados por aedos, e esses poemas datam de três mil anos antes de Cristo. Os aedos, cantores-poetas da Grécia Antiga, como Homero, compunham e recitavam poemas épicos embalados ao som da lira. Poesias ritmadas através de versos (hexâmetro datílico), acrescidas de musicalidade e ritmos próprios.

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Existem, no Olimpo, dois deuses bem presentes na obra, apesar de aparecerem outros da mesma forma. A primeira, representando a deusa da sabedoria, é chamada de Atena; é a protetora de Odisseu (ou Ulisses, em latim). Será ela quem usa de sua influência no Olimpo para reivindicar ajuda para Ulisses. Enquanto isso, Poseidon representará o papel daquele deus furioso, implacável, perseguidor do herói.

As características da personalidade de Odisseu se mesclam entre fortes, bem direcionadas e incisivas. Como mortal, ele é dotado de uma *íbris* muito aguçada, defeito que o atrapalha muito. Ao mesmo tempo, ele se destaca por sua inteligência, sagacidade, liderança, adaptabilidade, resiliência e alto poder de persuasão.

A narrativa da obra não segue uma forma linear. É feita *in media res*, ou seja: não há sequência narrativa; começa do meio, só depois que a guerra de Tróia já se findou, e, durante as aventuras, o herói viaja entre outras e outras passagens igualmente fascinantes.

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Ulisses é o rei de Ítaca, ilha modesta, dotada de poucos recursos. Ele é um bom negociador e um rei muito respeitado. É casado com Penélope, e ambos têm um filho chamado Telêmaco. A jornada de aventuras lhe tomará 20 anos de sua vida. Se ele enfrenta desafios em sua jornada, Penélope, sua esposa, também enfrenta muitos problemas: a resistência aos pretendentes, a manutenção da esperança da volta do marido e, ao mesmo tempo, manter-se fiel. Telêmaco, por sua vez, amadurece com o sofrimento e age buscando ajuda dos amigos.

A aventura ocorrida na ilha dos Cíclopes é repleta de nuances que, à medida que a história se desenrola, vão se complementando, entrelaçando-se em sucessivas e inesperadas reações. Quando ele atraca na referida ilha, estava inadvertido do que iria enfrentar. O Cíclope Polifemo os detém em uma caverna. Ele era um gigante com um olho só. Comia dois homens de cada vez em um dia. Desesperado, Ulisses articula um plano de embebedar o monstro e, ao mesmo tempo, cegá-lo com uma vara incandescente.

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Antes, porém, é importante salientar que, em conversas com o monstro, Ulisses revelou que seu nome era “Ninguém”. De forma que, ao pedir socorro, ao ser questionado, gritava que “Ninguém” o havia ferido, o que o impedia de ser ajudado. Ao perceber-se livre, e livres os seus homens, Ulisses erra em demasia porque não conteve a sua vaidade em ter enganado Polifemo, ao revelar o seu verdadeiro nome. Por sua vez, Polifemo, que era filho de Poseidon, enfurecido, dirige-se ao pai clamando por justiça. Ao ouvir o clamor do filho, Poseidon se volta contra Ulisses, castigando-o a ele e aos seus homens, provocando tempestades e naufrágios em seus navios... fato que provocou um atraso de dez anos para Odisseu retornar ao seu castelo.

Vamos agora lembrar de Hermes, principal intermediário entre os mortais e os deuses do Olimpo. Ele sempre surge para socorrer Ulisses em momentos de perigo. A sua importância se dá pelo fato de ser um guardião do herói, muitas vezes intervindo de várias formas de perigo, às vezes perigo mortal.

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Voltando ao comportamento de Ulisses para com Polifemo e analisando especificamente essa *íbris* tão intensa, temos a certeza de que, para cada ação, resultou uma reação adversa; ou seja, observamos efeitos multifacetados que foram gerando sucessivas violências, uma atrás da outra. É genial conseguir que alguém nos chame de “Ninguém”. No entanto, é odioso utilizar-se de atitude desdenhosa para zombar e também provar que foi o mais esperto. Plantou o mal, colheu o mal, porque atrasou o retorno por mais 10 anos. Odisseu não dominou o seu ímpeto em permanecer anônimo e simplesmente fugir da ilha.

Há momentos na história em que Ulisses se afasta do seu objetivo principal, porque está sendo conduzido a prazeres imediatos, tentações irresistíveis, permanecendo diante da difícil escolha entre a volta ao lar ou o usufruto das venturas presentes, que parecem mais fáceis de aceitar; ou seja, desvirtuar-se do seu real objetivo, que seria o de voltar para casa.

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Ao encontrar-se com Tirésias, o adivinho que também fazia uso da profecia, Odisseu foi informado de que as próximas jornadas ainda seriam tortuosas; que o seu destino teria de ser cumprido até o último minuto e, mais importante ainda, foi-lhe dito que, ao final da jornada, ele sobreviveria aos desafios, mas que estaria sozinho.

O episódio que antecede a chegada à ilha dos Feácios é uma cena extremamente caótica. Ulisses, por causa da perseguição de Poseidon, havia naufragado de uma jangada, estava nu, quase morto, e foi arrastado pelas ondas do mar; mas, por sorte, consegue chegar à ilha de Esquéria, lar dos Feácios, onde é recebido com hospitalidade. Alcínoo, rei dos Feácios, é conhecido por ser um excelente anfitrião e hospitaleiro. É na ilha dos Feácios a última parada do nosso herói antes de chegar em casa. Os extraordinários anfitriões também se responsabilizaram por levar Odisseu até Ítaca.

Em casa, o nosso herói ainda teria muito esforço para reconquistar o seu castelo e unir a sua família em paz novamente.

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A essa obra longeva e monumental, que sobrevive através dos séculos, faço minhas homenagens de amor a tudo o que eu estudo. Voltar a estudá-la revigorou os meus ânimos, mas, sobretudo pelo denso conteúdo humano, identifico-me sempre e aconselho a quem se interessar a fazer também uma boa leitura.

A Odisseia ensina lições de perseverança, astúcia, lealdade familiar e a jornada do autoconhecimento. O retorno ao lar exige humildade e superação de desejos e ilusões para reencontrar a nossa verdadeira identidade. O herói enfrenta adversidades, inúmeros obstáculos durante anos, nunca desistindo de voltar para casa, mostrando que o sucesso exige persistência e paciência. Mostra-nos o verdadeiro código da hospitalidade e da honradez. É um legado à vida e à busca por uma vida de plenitude.

É transformar as experiências em sabedoria.

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O nosso caminho é o nosso caminhar! Façamo-lo de maneira graciosa!!!

Ítaca
Konstantino Kaváfis, 1911
Quando começares a tua viagem para Ítaca, Reza para que o caminho seja longo, Cheio de aventura e de conhecimento. Não temas monstros como Cíclopes ou o zangado Poseidon: Nunca os encontrarás no teu caminho, enquanto uma rara excitação Agitar o teu espírito elevado. Nunca encontrarás os Cíclopes ou outros monstros, A não ser que a tua alma os crie em frente de ti.
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Deseja que o caminho seja longo, Para que haja muitas manhãs de verão em que, Com quanto prazer, com tanta alegria, Entres em portos que vês pela primeira vez; Para que possas parar em postos de comércio fenícios, Para comprar coisas finas, madrepérola, coral e âmbar, E perfumes sensuais de todos os tipos — tantos quantos puderes encontrar; E para que possas visitar muitas cidades egípcias E aprender, continuar sempre a aprender com os seus escolares. Tem sempre Ítaca na tua mente. Chegar lá é o teu destino. Mas não te apresses absolutamente nada na tua viagem. Será melhor que ela dure muitos anos, Para que sejas velho quando chegares à ilha, Rico em tudo o que encontraste no caminho, Sem esperares que Ítaca te traga riquezas. Ítaca te deu a bela viagem; Sem ela não terias sequer partido. Não tem mais nada a dar-te. E, sábio como te terás tornado, Tão cheio de sabedoria e experiência, Já terás percebido, à chegada, O que significa uma Ítaca.

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