É possível traçar um pequeno mapa universal dos amores inviáveis, atravessando culturas, épocas e religiões. Perto de onde morei, quando vivia na Espanha, havia a lenda dos Amantes de Teruel.
Diego de Marcilla e Isabel de Segura se amavam, mas foram separados porque ele não possuía fortuna suficiente para casar. Pediu cinco anos para enriquecer; Isabel prometeu esperar. Diego voltou exatamente
Mausoléu de Os Amantes de Teruel (Isabel de Segura e Juan Martínez de Marcilla): Amor que nem a morte separou ▪️ Facebook: @historiasesquecidas
No funeral, Isabel beijou o corpo e morreu também. Foram enterrados juntos, tornando-se símbolo do amor fiel até a morte.
Isso me levou a perceber quantas histórias semelhantes atravessam a tradição humana.
Na Antiguidade, há Orfeu e Eurídice, amor separado entre a vida e a morte; Píramo e Tisbe, os amantes divididos por famílias inimigas, provável matriz remota de Romeu e Julieta; e Hero e Leandro, separados pelo mar.
Na Bíblia, há dramas como Sansão e Dalila, Amnon e Tamar e Davi e Betsabá, cuja paixão ilícita resulta em tragédia moral.
Na Idade Média, surgem Tristão e Isolda, o amor condenado pelo dever; Lancelot e Guinevere, proibidos pela lealdade ao rei; Abelardo e Heloísa, destruídos por normas sociais e religiosas.
Tristão e Isolda ▪️ Arte: Rogelio de Egusquiza, 1910
Na literatura moderna, há Werther e Charlotte, de Goethe; Catherine e Heathcliff, em O Morro dos Ventos Uivantes, entre tantos outros.
João Batista de Brito ▪️ Facebook: @joao.batista.de.brito
Reputo sua versão como a mais comovente sobre o episódio ocorrido em 1923, em João Pessoa, quando o estudante Sady foi morto a tiros por um guarda ao tentar encontrar sua amada Ágaba na saída da escola. Pouco depois, ela também morreria, num caso de amor interrompido pela repressão moral da época.
Talvez o amor impossível seja apenas aquele que deu azar com o contexto. Porque amar, por si, é sempre possível. O que costuma ser inviável é a logística. Famílias, religiões, reis, guardas, monges, mares revoltos, serpentes metamorfoseadas e prazos de cinco anos raramente colaboram.
Romeu e Julieta ▪️ Arte: Henri-Pierre Picou, 1874
Como nos lembra Ariano Suassuna, a tristeza rende melhores histórias do que a alegria.
Se o mundo insiste em atrapalhar os amantes, a literatura faz questão de lhes oferecer eternidade.
Particularmente, contudo, eu penso que amor impossível mesmo seria o de Midas e Medusa: ele viraria pedra se a encarasse; ela viraria ouro quando o tocasse.









