Ler é uma das maiores habilidades que o cérebro humano é capaz de desenvolver e nós desenvolvemos diversas competências através da leitura. Isso pode ser comprovado a partir da obra “O cérebro no mundo digital – os desafios da leitura na nossa era”, de Maryanne Wolf (Contexto, 2019, 256 p.). A autora, neurocientista e psicóloga
Ed. Contexto ▪ Div.
do desenvolvimento, é uma das maiores autoridades no estudo do letramento. Nesse livro, escrito sob a forma de cartas ao leitor, fica evidente a sua preocupação em analisar as mudanças cognitivas que ocorrem quando migramos da leitura em papel para o suporte digital.
A premissa fundamental de Wolf é que os seres humanos nunca nasceram para ler. Diferente da linguagem oral, que possui uma base genética inata, a leitura é uma invenção cultural que exige que o cérebro recicle e conecte estruturas originais — como a visão e a audição — para formar um circuito inteiramente novo. Por ser dotado de neuroplasticidade, esse circuito é maleável e se adapta ao meio em que a leitura é realizada.
É nítido que o estímulo digital é outro. Nas redes sociais e telas, nossos olhos realizam sacadas mais rápidas, adotando um estilo de leitura em "F" ou ziguezague, buscando apenas palavras-chave e conclusões rápidas. Esse comportamento, que Wolf chama de "paciência cognitiva" em declínio, dificulta o acesso à leitura profunda,
Cottonbro Std
que envolve processos como empatia, análise crítica, raciocínio analógico e reflexão pessoal.
Maryanne é enfática ao dizer que não é contra a internet; ela inclusive defende o uso de tablets para promover o letramento global em áreas sem escolas. No entanto, ela nos alerta para o risco de nos tornarmos "consumidores de banda larga" de informação, mas incapazes de meditação profunda. Em um relato pessoal e corajoso, a autora descreve como sua própria imersão digital a impediu temporariamente de reler um livro denso de Hermann Hesse, revelando que até leitores experientes podem ter seus circuitos "contaminados" pela rapidez das telas.
Para as crianças, o desafio é ainda maior. Wolf descreve o impacto da "atenção parcial contínua", em que os jovens, expostos precocemente a múltiplos estímulos, desenvolvem uma "mente de gafanhoto", saltando de uma tarefa a outra sem consolidar a memória de trabalho ou o conhecimento de fundo necessário para inferências futuras. O iPad, muitas vezes usado como uma "nova chupeta", pode estar criando uma geração com dificuldades
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em lidar com o tédio, que é o prelúdio necessário para a criatividade.
Quem são, então, os “bons leitores” desta época? Para a autora, são aqueles que desenvolvem as três vidas da leitura: a da informação, a do entretenimento e, crucialmente, a da contemplação. Para garantir esse futuro, a cientista propõe a construção de um cérebro duplamente letrado (biliterado). A ideia é ensinar as crianças a alternarem códigos: o meio impresso para o desenvolvimento da leitura profunda e da escrita à mão, e o meio digital para habilidades de programação, codificação e sabedoria digital.
O livro conclui com um apelo à preservação da democracia. Uma sociedade que perde a capacidade de ler em profundidade perde também a habilidade de avaliar criticamente a informação, tornando-se vulnerável a notícias falsas, demagogias e à "cultura da indiferença". "O cérebro leitor é o canário na nossa mente", avisa ela; ignorar as transformações que o mundo digital nos traz é pôr em risco a própria essência do pensamento humano. A obra é um convite a apressar-se devagar — em direção ao futuro, mas sem abandonar a morada que os livros construíram em nós.