Nascido na primavera de 1950, convivi com um medo que só desapareceu depois que me vi chegado à adolescência: ficar doente. Ficar d...

As doentes

Nascido na primavera de 1950, convivi com um medo que só desapareceu depois que me vi chegado à adolescência: ficar doente. Ficar doente? Só isso? Bem, é preciso entender que “ficar doente” era um mero eufemismo para estar enfermo dos pulmões, tuberculoso. Dizer que alguém era doente era dizer que a criatura era portadora de tuberculose. À época, ainda uma doença mortal.

GD'Art
Minha infância se alternou entre duas localidades onde os doentes vinham buscar a cura para esse mal no interior de São Paulo: São José dos Campos e Campos do Jordão.

Vem à memória o que tive de fazer depois de passar no Exame de Admissão ao ginásio. Para efetivar minha matrícula na primeira série, o Instituto de Educação João Cursino exigia o resultado da abreugrafia (chapa dos pulmões), que, se não me falha esta envelhecida memória, apresentava três possíveis resultados: negativo, residual e positivo. Negativo, estava-se livre da doença; positivo, o mal estava instalado; e residual, carecia de investigação mais efetiva. Para este exame, tínhamos que enfrentar uma fila enorme no Dispensário, localizado na Rua Francisco Paes. Dias depois, outra fila para buscar o resultado. E a expectativa? E o medo de estar doente? O meu resultado: residual. Em uma investigação com o Dr. Toledo, constatou-se que o veredito fora em decorrência de uma gripe curada dias antes. No pulmão ainda havia resíduos, não sei lá do quê. Eu havia escapado.

GD'Art
Quando, em férias em Campos do Jordão, minhas tias não dispensavam os passeios, que começavam sempre pegando o bonde na parada Fracalanza. Minha avó, sempre atenta, recomendava a elas: “Não deixem que as crianças se sentem perto de doentes.”

A cidade não tinha ainda esse viés turístico de hoje. Havia turismo, sim, mas pouco. Os sanatórios, as pensões, pequenos hotéis e algumas casas de família abrigavam os doentes. Os que já apresentavam recuperação eram liberados para ir à vila. A cidade era, à época, organizada em quatro bairros: Santa Cruz, Abernéssia, Jaguaribe e Capivari. Ir à vila era ir à Abernéssia, onde havia o Mercado Municipal, a cadeia, os Correios, a Prefeitura, o comércio e algumas repartições.

GD'Art
\ Minha avó mantinha-nos agasalhados para não pegarmos friagem, gripe ou outras moléstias respiratórias. A despeito da magia dos dias que passávamos por lá, havia também um certo medo. Mas não dispensávamos as aventuras. Depois que o bonde nos despejava em Capivari ou em algumas paradas antes, o destino eram as montanhas, as trilhas até uma cachoeira, uma fonte ou o cume de algum morro, de onde pudéssemos nos deslumbrar com a paisagem e ver a Pedra do Baú, bem longe, desafiando nossa imaginação. Éramos, para aquelas tias abençoadas, os “turistinhas dos avós”.

GD'Art
Em São José dos Campos, os cuidados eram menos ostensivos. Havia atenção para evitar resfriados. Não havia, ou pelo menos não víamos, doentes pela cidade, que era considerada uma estância climática. Lembro-me de três sanatórios que acolhiam enfermos: o Ezra, onde hoje é o Parque Santos Dumont; o Vicentina Aranha, hoje um belo parque que conservou o nome original; e o menorzinho, que me recordo estar mais para uma pensão e ficava na Rua Paraibuna — o São José — só para moças, caminho de minha casa à escola. Daí vem o fato que, dias atrás, espalhou saudade entre meus travesseiros.

Íamos e voltávamos caminhando da escola. Eu e um japonesinho, meu parceiro, vizinho e colega de sala de aula. Na volta, sempre víamos as moças na janela que ficava junto à calçada daquela rua sem pavimentação. Certa vez, uma delas, de cabelos clarinhos, olhos amendoados, pele muito alva e lábios delicados, ao nos ver, perguntou se sabíamos escrever. Dissemos que sim. Ela pediu que escrevêssemos nosso nome na rua, naquele chão arenoso. Fiz meu dedo de cálamo e caprichei na caligrafia. Ela me olhou e disse que eu era bonito e que meu nome também.

GD'Art
Depois desse dia, nunca mais a vi. As moças continuavam frequentando aquela janela. Mas ela não.

Por muito tempo ficou na memória seu rosto delicado e enfermiço, seu olhar e sua voz. Parecia um anjo. O que teria acontecido com ela? Eu tinha só sete anos. Foi minha primeira paixão.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas