Nascido na primavera de 1950, convivi com um medo que só desapareceu depois que me vi chegado à adolescência: ficar doente. Ficar doente? Só isso? Bem, é preciso entender que “ficar doente” era um mero eufemismo para estar enfermo dos pulmões, tuberculoso. Dizer que alguém era doente era dizer que a criatura era portadora de tuberculose. À época, ainda uma doença mortal.
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Vem à memória o que tive de fazer depois de passar no Exame de Admissão ao ginásio. Para efetivar minha matrícula na primeira série, o Instituto de Educação João Cursino exigia o resultado da abreugrafia (chapa dos pulmões), que, se não me falha esta envelhecida memória, apresentava três possíveis resultados: negativo, residual e positivo. Negativo, estava-se livre da doença; positivo, o mal estava instalado; e residual, carecia de investigação mais efetiva. Para este exame, tínhamos que enfrentar uma fila enorme no Dispensário, localizado na Rua Francisco Paes. Dias depois, outra fila para buscar o resultado. E a expectativa? E o medo de estar doente? O meu resultado: residual. Em uma investigação com o Dr. Toledo, constatou-se que o veredito fora em decorrência de uma gripe curada dias antes. No pulmão ainda havia resíduos, não sei lá do quê. Eu havia escapado.
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A cidade não tinha ainda esse viés turístico de hoje. Havia turismo, sim, mas pouco. Os sanatórios, as pensões, pequenos hotéis e algumas casas de família abrigavam os doentes. Os que já apresentavam recuperação eram liberados para ir à vila. A cidade era, à época, organizada em quatro bairros: Santa Cruz, Abernéssia, Jaguaribe e Capivari. Ir à vila era ir à Abernéssia, onde havia o Mercado Municipal, a cadeia, os Correios, a Prefeitura, o comércio e algumas repartições.
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Íamos e voltávamos caminhando da escola. Eu e um japonesinho, meu parceiro, vizinho e colega de sala de aula. Na volta, sempre víamos as moças na janela que ficava junto à calçada daquela rua sem pavimentação. Certa vez, uma delas, de cabelos clarinhos, olhos amendoados, pele muito alva e lábios delicados, ao nos ver, perguntou se sabíamos escrever. Dissemos que sim. Ela pediu que escrevêssemos nosso nome na rua, naquele chão arenoso. Fiz meu dedo de cálamo e caprichei na caligrafia. Ela me olhou e disse que eu era bonito e que meu nome também.
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Por muito tempo ficou na memória seu rosto delicado e enfermiço, seu olhar e sua voz. Parecia um anjo. O que teria acontecido com ela? Eu tinha só sete anos. Foi minha primeira paixão.










