Da Série: Deixemos Homero falar (Parte III) Assim como não se pode sequestrar a Andromaquia do Telêmaco, no contexto da *Odisseia*...

A nostalgia física

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Da Série: Deixemos Homero falar (Parte III)
Assim como não se pode sequestrar a Andromaquia do Telêmaco, no contexto da *Odisseia*, não se pode sequestrar a religiosidade de Homero. Num poema produzido no século VIII a.C., documentado em pergaminhos e papiros a partir do século VI a.C., mas cujos fatos recuam até o século XII a.C., a religiosidade não pode ser senão o cerne de uma narrativa representativa de como se entendia o mundo naquele instante.

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Haverá quem diga que a religiosidade grega é sustentada pelo mito. É verdade. Mas qual religiosidade não o é, sobretudo se levarmos em consideração que a palavra mito (μῦθος), no grego, significa narrativa? Todas as religiões se baseiam em narrativas, principalmente as religiões monoteístas, que logo encontraram o meio escrito para fixar uma dentre tantas, de modo a se distanciar das variantes, tornando canônica aquela escolhida. A religiosidade grega, pelo menos, não é revelada, nem precisou de livro único, nem de uma divindade única, permanecendo muito tempo na oralidade.

A cidade de Atenas nasce, nos tempos míticos, tendo como sua guardiã a deusa Palas Atena, para quem se construiu, na Acrópole, o Partenon, o templo da virgem, um de seus atributos. Nada impediu que os atenienses construíssem também um grande templo a Zeus, na cidade baixa, nem essa medida resultou em heresia ou perseguições de ordem religiosa. O discurso de que a *Odisseia* é baseada em mitos, antes fosse apenas uma obviedade, mas acaba soando como ignorância do que é o mito: uma verdade possível, em um momento em que a Filosofia e a Ciência ainda não haviam encontrado uma maneira estruturada de se desenvolver.

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Já está mais do que na hora de deixarmos de lado o simplismo que prega o mito como fantasia, como se a fantasia não estivesse dentro de uma realidade, traduzindo aquilo que, por definição etimológica, aparece, se revela, sendo palavra da mesma raiz que epifania, com ambas se formando a partir do verbo φαίνω, cujo sentido, em grego, é fazer brilhar, aparecer, mostrar-se, manifestar-se, tornar(-se) visível, indicar pelo brilho. Se condenarmos a fantasia, alegando não ser uma verdade, deveremos condenar também a epifania. Assim, mito é fantasia, porque os deuses são energia e, quando se manifestam, mostram o seu brilho aos mortais. Há alguma diferença em relação a uma estrela que mostra o caminho a três Reis Magos? A diferença reside apenas em que esse mito, no bom sentido da palavra, se tornou institucional pela palavra escrita; o outro se credenciou pela oralidade.

A *Odisseia* se define como um poema da volta, *nóstos* (νόστος), abrigando em sua estrutura uma nostalgia, como se pode constatar a partir da Proposição, quando se unem as dores (ἄλγεα, Canto I, verso 4) com a volta (νόστον, Canto I, verso 5). E são as dores, porque existem duas nostalgias: a física (Cantos V-VIII) e a psíquica, ou da memória (Cantos IX-XII). Enfrentemos a primeira delas, a Nostalgia Física.

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Odisseus se encontra na ilha de Ogígia, prisioneiro da ninfa Calipso. Docemente prisioneiro, pois está desfrutando das muitas delícias que a ilha proporciona, bem como partilha a cama da deusa. O leitor, ou o ouvinte, no caso dos tempos arcaicos, já sabe de sua localização desde os primeiros versos da *Odisseia* (Canto I, versos 11-15). Calipso o retém em “escavada gruta, vivamente desejando ser ele seu esposo” (ἐν σπέσσι γλαφυροῖσι, λιλαιομένη πόσιν εἶναι, verso 15). Ali, o herói permanece por sete anos, por não ter como sair, não dispondo de embarcação nem de tripulação. Após esse período, os deuses, em concílio, decidem por sua volta.

O sequestro dos deuses e de suas vontades é a tônica do filme de Christopher Nolan. Não há como compreender um poema épico arcaico sem os deuses e suas determinações. O herói épico não tem vontade; ele age de acordo com o que os deuses determinam. Esclareça-se que a *boulé* (βουλή), sendo mais uma determinação do que apenas uma vontade dos deuses, transforma-se em *boúleuma* (βούλευμα), quando o que foi determinado se concretiza. É, pois, para a realização do que foi decidido, em concílio, que os dois deuses, Palas Atena e Hermes, partem para a sua missão. Atena agirá logo no Canto I; Hermes aparecerá no Canto V, início dos episódios da Nostalgia Física.

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Digamos uma palavra sobre a estrutura da *Odisseia*, como uma narrativa de encaixe. Os quatro primeiros Cantos formam um único bloco, que chamamos Telemaquia, dividindo-se, em uma narrativa linear, entre os acontecimentos em Ítaca, com os pretendentes invadindo o palácio de Odisseus (Cantos I e II), e a viagem de Telêmaco, como já vimos no texto anterior, a Pilos e a Esparta (Cantos III e IV).

Ao terminar esse primeiro bloco, com o início da volta de Telêmaco a Ítaca, a narrativa é cortada para dar início à segunda parte da *Odisseia*, a Narrativa Física (Cantos V-VIII), objeto deste ensaio. Aqui também temos uma narrativa linear, enfocando a situação de Odisseus em Ogígia e a sua partida, até chegar à ilha dos Feácios, como náufrago, ser recebido pela Lei da Hospitalidade, ter um banquete em sua homenagem e começar o processo de reconhecimento de herói. Até então, ele é o estrangeiro, que ninguém sabe de onde veio ou quem é.

Quando termina o segundo bloco, tem início o terceiro, chamado de Nostalgia Psíquica, ou da Memória (Cantos IX-XII), com a narrativa de Odisseus, depois de se dar a conhecer, num processo que se denomina *anagnórisis* (ἀναγνώρισις), e narrar os acontecimentos que o levaram até ali. Destaque-se que o reconhecimento é característico da *Odisseia*, estendendo-se do Canto IX ao XXIV, o que nos levou a classificá-la como *O livro dos reconhecimentos*.

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Com o término da narrativa de Odisseus, os Feácios conduzem-no para casa, deixando-o desacordado em Ítaca (Canto XIII). A sua chegada ao lar coincidecom a chegada de Telêmaco, encaixando, de uma vez por todas, a narrativa, que segue sua linearidade até o final, passando ainda por três etapas: A Chegada a Ítaca (Cantos XIII-XVI), A Paideia de Telêmaco (Cantos XVII-XX) e A Andromaquia (Cantos XXI-XXIV).

Enfim, podemos dizer que, mesmo sendo uma narrativa de encaixe, o poema não é fragmentado, preservando sua linearidade, sem perda da inteligibilidade. É importante frisar a preservação da linearidade e da inteligibilidade do poema, porque, como afirmam Carlos Reis e Ana Cristina Lopes, em seu *Dicionário de teoria da narrativa*, “os encaixes são níveis estruturais autônomos, mas não independentes” (p. 156). Assim, a partida de Hermes do Olimpo, no Canto I, se encaixa no Canto V, com a sua chegada a Ogígia; a saída de Telêmaco de Esparta, retornando a Ítaca, no Canto IV, se encaixa no Canto XIII.

O concílio olímpico é importante para se compreender que Odisseus parte da ilha pela decisão dos deuses, sobretudo de Atena, que age em sua defesa. A ninfa Calipso é contra a sua partida e nada faz para ajudá-lo a ir-se, antes de ser
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obrigada a isso pela mensagem levada por Hermes. É, portanto, a partir da determinação divina que ela libera o herói, mas ele próprio terá que fazer a sua embarcação e costurar a vela que o fará movimentar-se pelo mar divino (ἄλα δῖαν, p. 61), saindo da ilha de Ogígia, que se encontra no “umbigo do mar” (ὀμφαλός θαλάσσης, Canto I, verso 50), distante do mundo dos homens que comem pão (ἀνέρες σῖτον ἔδοντες, Canto IX, verso 89), termo que, em Homero, designa o mundo civilizado.

Temos, no Canto V, duas coisas importantes. Inicialmente, Calipso diz a Odisseus para se orientar pelo brilho de algumas constelações, Plêiades, Boieiro e Órion, todas a leste, mantendo o Carro, no caso a constelação da Ursa, à esquerda. Navegando, primeiramente, reto, em direção às três primeiras, depois dobrando à esquerda, em direção à Ursa, que se situa ao norte, onde se encontra Ítaca, no Mar Jônio (versos 271-280). Trata-se da primeira navegação pelas estrelas, em um texto ocidental.

A segunda coisa importante é revelar ao leitor o Odisseus muito industrioso (πολυμήχανος, *Ilíada*, Canto II, verso 173), versado em carpintaria (εὖ εἰδὼς τεκτοσυνάων, *Odisseia*, Canto V, verso 250), construindo sua embarcação e costurando a sua
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vela (versos 241-261), numa preparação para o seu reconhecimento por Penélope, no Canto XXIII (versos 183-206). Ao Odisseus muito industrioso une-se o Odisseus de muitas voltas (πολύτροπον, *Odisseia*, Canto I, verso 1), epíteto que supõe, ambiguamente, tanto as voltas no mar quanto as voltas no pensamento, o que nos remete ao Odisseus muito astucioso (πολύμητις, Canto XXI, verso 274). O sofrimento na guerra, no período de vinte anos de ausência de casa, a prisão na ilha de Ogígia ou o enfrentamento da tempestade nos dizem do Odisseus que muito sofre ou que muito suporta (πολύτλας, Canto VII, verso 1), que tem no peito um coração que aguenta a dor (ἐν στήθεσσιν ἔχων ταλαπενθέα θυμόν, Canto V, verso 222), ao qual se junta o Odisseus do espírito corajoso, por suportar os sofrimentos e ter o discernimento para não quebrar as leis divinas (ταλασίφρωνος, Canto I, verso 87). Os epítetos, portanto, vão tecendo o perfil múltiplo de Odisseus e contando a sua história, cujo resultado não é o de um herói sombrio e cheio de culpas, mas o de um herói triste, por não ter meios de voltar para casa; por isso, em Ogígia, o mar lhe parece estéril (ἀτρρύγετον, Canto V, verso 84). Tecem, enfim, o retrato de um herói que abre mão da glória guerreira, trocando-a pela glória doméstica, com a esposa, o filho e o pai.

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E abre mão da glória guerreira porque já é herói consagrado nas narrativas sobre a guerra. Na *Ilíada*, Apolo canta, no banquete do Olimpo, junto com as Musas (Canto I, versos 601-604), um poema que, embora não identificado, não pode deixar de ser sobre a guerra; Helena tece, em Troia, um manto sobre a guerra (Canto III, versos 125-128), e Aquiles canta as façanhas da guerra (Canto IX, versos 185-191). Na *Odisseia*, cabe ao aedo Fêmio cantar as façanhas da guerra (Canto I, versos 152-155; 325-327), mas é o aedo Demódoco, no Canto VIII, quem deixa claro o perfil do grande herói, ao narrar o episódio do cavalo de madeira (versos 499-520).

Odisseus recusa mais, recusa algo que povoa a fantasia dos homens. A bela Calipso, a divina entre as deusas (δῖα θεάων, Canto V, verso 78), lhe oferece a imortalidade e a juventude (ἀθάνατον καὶ ἀγήρων, versos 135-136), para que ele permaneça, como seu esposo, na paradisíaca Ogígia, onde até Hermes ficou maravilhado, contemplando-a (Canto V, θηεῖτο, verso 75). O herói, no entanto, preferiu voltar e envelhecer junto à mulher (versos 215-220). Ao escapar da Ilha dos Lotófagos (Canto IX), Odisseus não come da flor de lótus que lhe faria perder a memória, nem ele narra essa aventura a Calipso, mas aos Feácios. Em Ogígia, Odisseus faz a escolha que permite o seu retorno: em lugar da imortalidade viril, a memória que o levará de volta ao lar.

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É o *polútlas* que enfrenta o mar e a tempestade, desencadeada por Posídon (Canto V); é o *talassífron* que acata os conselhos de Nausícaa de pedir proteção à rainha Arete, sua mãe (Cantos VI e VII); é o *polúmetis* que solicita a narrativa do cavalo de madeira a Démodoco (Canto VIII), para, em seguida, fazer-se reconhecer (Canto IX). Decididamente, não há um herói fraco, choroso e cheio de culpa, mas um homem que deseja vivamente voltar para casa.

Como se trata de uma narrativa de viagens, nesse bloco da *Odisseia* podemos ver duas geografias: uma real, que faz referência, por exemplo, à Trácia, primeira parada de Odisseus quando de sua partida de Troia (Canto IX), e à Sicília, aqui denominada Trinácria, por causa de seus três cumes (Canto XII), embora essa realidade seja transfigurada pelo trabalho ficcional, constituindo uma verossimilhança com o mundo externo.

A outra geografia é a mítica, aqui representada tanto pela ilha de Ogígia quanto pela ilha dos Feácios. O espaço mítico de Ogígia localiza-se, conforme já vimos, no “umbigo do mundo”. Assim mesmo, a partir do espaço mítico, pode-se constatar uma objetividade narrativa com a construção da embarcação, utilizando-se as habilidades da carpintaria, chegando-se ao ponto de se fazer referência ao “fio de prumo” (καὶ ἐπὶ στάθμην ἴθυνεν, Canto V, verso 245),
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usado para nivelar. O mesmo fio de prumo que aparecerá na construção da cama, no Canto XXIII (καὶ ἐπὶ στάθμην ἴθυνα, verso 197), sempre destacando a perícia do Odisseus muito industrioso.

São oferecidas, pois, ao leitor algumas localizações que podem nos situar para entendermos melhor a viagem de Odisseus. A orientação pelas constelações a leste e, em seguida, pela Ursa ao norte também faz parte dessa verossimilhança objetiva, dizendo-nos que o herói partiu do oeste. A viagem se alonga por dezoito dias (όκτωκαιδεκάτῃ, verso 279), até atingir a Feácia. Quando associamos esses dados ao fato de que Ogígia se encontra no “umbigo do mundo”, podemos concluir que a ilha de Calipso estaria muito próxima do atual Estreito de Gibraltar, conhecido, no mundo antigo, como Colunas de Hércules, por cujo umbigo as águas do oceano Atlântico alimentariam o Mar Mediterrâneo, espaço do deslocamento geográfico de Odisseus.

Vê-se, portanto, um jogo entre as duas geografias, com uma retroalimentação entre elas: a real se torna ficcional e prepara a mítica, além de relatos míticos, como veremos na estadia de Odisseus entre os Feácios. Já a mítica, se bem entendida, permite-nos chegar à real: é saindo da Feácia que Odisseus chega a Ítaca. É o jogo próprio da ficção na fabricação da verossimilhança.
Leia aqui o segundo capítulo da série Deixemos Homero falar

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