LACRIMOSA
Bem-vindo, crepúsculo — profundo vermelho de um retoque divino — que diz da tormenta, submundo da memória, que diz do destino O enfado, o desfalecimento do dia, que serviu-se do tempo; de um Sol a apagar-se, moribundo, dando a sua face ao esquecimento Cai o Sol nas bandas do poente, e o Mundo veste o arrebol profundo e se despe da soberba premente dos homens, os senhores de antanho, no desespero, param silentes, frente à certeza de seu tamanho. QUEDA OU ALUMBRAMENTO
É a saudade que nos faz pousar ou é o desmanchar do tempo quando nos vemos vencidos? Já não existe sopro, o ar está parado, e o vapor já não sobe ao céu como uma esperança É mais quente a Terra dentre os corpos e as despedidas Se não voltamos logo seremos uns desconhecidos dos abraços E a solidão já não será uma impressão vista do alto, será a nossa morte, sem uma justificativa para as asas A vastidão é uma perspectiva e a eternidade, um erro de cálculo. ASA DANADA
Repica mundo da pressa Despreza a nata do tempo de cá, te devolvo uma asa que te sirva como unguento Cada passo contra o vento sem o fastio da queda me faz relaxar o cenho é como obter a graça de ver a terra devassa as frações do desmantelo nas montanhas, a fumaça nas ruas, desassossego Ser ou não ser, já sabendo do artifício da reza do terço, dos sem alento do arcabouço da aresta em cada templo dos anjos despidos de suas garras — homens de carne e osso — seguem perseguindo as vagas do absurdo, água que passa e a tudo enche e inunda despercebendo que é graça pra um coração vagabundo No rendilhado das horas ciente de que a morte espreita e não dispensa o comparsa que sabendo, logo se deita E estende a única asa na areia, que agora é chão pois o corpo, esta carcaça é desiludido torrão de terra, que o céu despreza de sonho, que sobrevive de fera, que agora empresta seu nome a uma esfinge que ensaia criar metáforas quebrar uma redondilha nunca ser uma ameaça quem sabe uma armadilha Pois do “o” se faz um “a” da tristeza a alegria arremedo de poeta se mostra nas entrelinhas Se quem lê acha uma graça e perde por cá seu segundo e segue levando a proposta ser possível olhar fundo nos olhos de uma vidraça que refrata a eternidade que sem sentido aguarda cada ser deste Mundo. ASA QUEBRADA
É que acordei para ser estradador buscando o que se pega e se derrete para buscar de novo Se o que morre, já se ergue se repete o ciclo todo Sou criança de dar giro passo lento, corpo torto Do umbigo sei de tudo já o ouvido, um tanto mouco Mas disparo em meio trilho rodopio, trem de louco Desatino não é vencido rês do chão, tropeço em toco Corto estrada, armo visgo retidão é pensar pouco Pois se travo no descaminho só me resta o contorno De viver e ter vivido ruminando feito louco O que o pé traz do destino e o que a vida dá de consolo
Bem-vindo, crepúsculo — profundo vermelho de um retoque divino — que diz da tormenta, submundo da memória, que diz do destino O enfado, o desfalecimento do dia, que serviu-se do tempo; de um Sol a apagar-se, moribundo, dando a sua face ao esquecimento Cai o Sol nas bandas do poente, e o Mundo veste o arrebol profundo e se despe da soberba premente dos homens, os senhores de antanho, no desespero, param silentes, frente à certeza de seu tamanho. QUEDA OU ALUMBRAMENTO
É a saudade que nos faz pousar ou é o desmanchar do tempo quando nos vemos vencidos? Já não existe sopro, o ar está parado, e o vapor já não sobe ao céu como uma esperança É mais quente a Terra dentre os corpos e as despedidas Se não voltamos logo seremos uns desconhecidos dos abraços E a solidão já não será uma impressão vista do alto, será a nossa morte, sem uma justificativa para as asas A vastidão é uma perspectiva e a eternidade, um erro de cálculo. ASA DANADA
Repica mundo da pressa Despreza a nata do tempo de cá, te devolvo uma asa que te sirva como unguento Cada passo contra o vento sem o fastio da queda me faz relaxar o cenho é como obter a graça de ver a terra devassa as frações do desmantelo nas montanhas, a fumaça nas ruas, desassossego Ser ou não ser, já sabendo do artifício da reza do terço, dos sem alento do arcabouço da aresta em cada templo dos anjos despidos de suas garras — homens de carne e osso — seguem perseguindo as vagas do absurdo, água que passa e a tudo enche e inunda despercebendo que é graça pra um coração vagabundo No rendilhado das horas ciente de que a morte espreita e não dispensa o comparsa que sabendo, logo se deita E estende a única asa na areia, que agora é chão pois o corpo, esta carcaça é desiludido torrão de terra, que o céu despreza de sonho, que sobrevive de fera, que agora empresta seu nome a uma esfinge que ensaia criar metáforas quebrar uma redondilha nunca ser uma ameaça quem sabe uma armadilha Pois do “o” se faz um “a” da tristeza a alegria arremedo de poeta se mostra nas entrelinhas Se quem lê acha uma graça e perde por cá seu segundo e segue levando a proposta ser possível olhar fundo nos olhos de uma vidraça que refrata a eternidade que sem sentido aguarda cada ser deste Mundo. ASA QUEBRADA
É que acordei para ser estradador buscando o que se pega e se derrete para buscar de novo Se o que morre, já se ergue se repete o ciclo todo Sou criança de dar giro passo lento, corpo torto Do umbigo sei de tudo já o ouvido, um tanto mouco Mas disparo em meio trilho rodopio, trem de louco Desatino não é vencido rês do chão, tropeço em toco Corto estrada, armo visgo retidão é pensar pouco Pois se travo no descaminho só me resta o contorno De viver e ter vivido ruminando feito louco O que o pé traz do destino e o que a vida dá de consolo






