De modo geral, fila é sinônimo de subdesenvolvimento, de ineficiência. Se há fila, salvo prova em contrário, é porque alguma coisa não está funcionando direito. Imagino que em países civilizados a fila é coisa rara, exceção. Neles, as coisas fluem, não existem gargalos. No Brasil, sabemos, faz parte do cotidiano de milhões, principalmente dos mais pobres, eternas vítimas de todos os males. A começar pela do INSS, quilométrica, a desafiar, entra ano e sai ano, as vãs promessas de governos e candidatos. Mas há tantas outras…
Nora Rónai ▪️ Instagram: @procopiojornalista
Mas falta a assinatura de alguém em algum documento. E enquanto isso a centenária senhora permanece onde esteve nos últimos anos: na fila dos que esperam e clamam por justiça. E nessa situação, caro leitor, estão milhares de brasileiros idosos, a despeito das leis que lhes dão preferência em filas e em processos.
O medo de Cora Rónai é que sua mãe morra sem receber o que, desde o início da ação décadas atrás, os tribunais já reconheciam como direito seu – e de muitos outros em idênticas circunstâncias. Medo legítimo, pois quem garante que essa assinatura que falta chegará a tempo? Cento e dois anos não é brincadeira. E, nesse caso, a filha dispensa a maldita herança, pois prefere que a própria mãe tenha a satisfação de receber o que é seu.
Cora Rónai ▪️ Instagram: @canalmeio
Há realmente uma orientação tácita nos órgãos e entidades públicos no sentido de negar direitos de administrados e de servidores. Negar tudo que implique em despesa para o erário e assim ir levando a dívida até onde der. O governo, nos três níveis da federação, tradicionalmente trabalha com esse espírito mesquinho e antirrepublicano, para o qual o cidadão nada vale. É um espírito silencioso, entranhado profundamente em nossa cultura, fruto da colônia e do império, absorvido e alimentado pela república.
GD'Art
A Constituição federal dispõe expressamente que os precatórios (os débitos do Estado decorrentes de decisões judiciais definitivas) reconhecidos até o mês de abril deverão ser pagos até 31 de dezembro do ano seguinte. Mas o próprio Estado descumpre esta norma. E isso causa a fila hedionda na qual pena há anos a centenária mãe de Cora Rónai. E, com ela, milhares de cidadãos brasileiros.
Filas que envergonham e fazem sofrer.
Até quando?








