E lá estava ele nos últimos meses de Mestrado, a 2,6 mil quilômetros de casa, desde um aeroporto até o outro. Por carro, a viagem torn...

O junho que mora em nós

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E lá estava ele nos últimos meses de Mestrado, a 2,6 mil quilômetros de casa, desde um aeroporto até o outro. Por carro, a viagem torna-se mais comprida: uns 3 mil e tantos quilômetros no lombo de três rodovias. De todo modo, o distanciamento de pai, mãe, irmãos e amigos fazia-se mais sentido, agora, no junho de danças, bandeirolas, fogueiras, fogos, pamonhas e canjicas. Percebera isso um ano antes e, na ocasião, buscara a Arena Floripa,
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Florianópolis ▪ Foto: F. Ramalho
onde a festa dá-se mediante consórcio da Prefeitura Municipal com o Centro de Tradições do Norte e Nordeste.

Já sabia que ali faltariam, apesar das importações, a melhor manteiga de garrafa, o queijo de coalho a capricho, a mais alva das massas de mandioca para tapiocas e bolos, o leite de coco bem nordestino e os preparos de Maria, a moça jamais dispensada dos tratos da cozinha da avó paterna. Nascido e crescido à pequena distância do mar, graduou-se em Biologia pela Universidade Federal da Paraíba e agora, na de Santa Catarina, buscava a especialização em linguados.

O pai bem que estranhava aquela preferência acadêmica pelo peixe esquisitíssimo, bicho que nasce simétrico, com um olho de cada banda e no transcurso do tempo desloca um deles de modo a ter os dois num lado só. Nessa operação, torce o osso frontal da cabeça, achata o corpo e muda o jeito de nadar. Estranhava, mas buscava sentido para tais pendores: o do peixe e o do filho. Se assim ocorre, é porque ambas as criaturas veem alguma serventia nisso que fazem. Então, passou a aceitar a ausência do primogênito, que também lhe doía.

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Um jovem linguado, peixe de corpo achatado e olhos voltados para o mesmo lado da cabeça. Mestre da camuflagem nos fundos arenosos, ele é um dos exemplos mais curiosos de adaptação no mundo aquático. ▪ Foto: P. Sluijs
A Arena Floripa teria de volta o nosso mestrando. Desta vez, ele se faria acompanhar da lourinha com nome alemão desejosa das mangabas, dos cajus, dos umbus e dos mergulhos nas águas mornas da paraibana Tambaú, a praia onde nunca pusera os pés, mas da qual passara a gostar por antecipação, em virtude de sucessivas recomendações. Disso e, também, de promessas seguidas da viagem a dois, quando dezembro chegar.

Florianópolis, São João 2026
Leituras recentes fizeram o moço perceber a razão pela qual os festejos juninos, ocorrentes em todo o País, têm no Nordeste o mais saboroso, o mais amplo, o mais longo e o mais procurado dos seus palcos. Entendeu, assim, a combinação de fatores que entre os nordestinos incluem a herança jesuíta, a devoção aos santos, as crendices populares, a gratidão pelas chuvas e as ânsias de fartura.

Lembrou-se, a propósito, de que a trilha sonora do Semiárido feita de baião, xote e xaxado pusera-se a serviço tanto do
amor quanto das preces. Quem não sabe – perguntou-se – dessa parceria de Luiz Gonzaga com o maestro Guio Morais?

Ah, São João São João do Carneirinho Você que é tão bonzinho Vá falar com São José Fale lá com São José Peça pra ele me ajudar Peça pro meu milho dar Vinte espigas em cada pé.
Outra questão lhe ocorreu. Que uniforme vestiria tão bem aqueles que têm fome? O mesmo Gonzaga e, desta feita, também, seu parceiro Raimundo Granjeiro Amorim já responderam isso.

Mandei fazer um liforme Com toda a preparação Para butar no arraiá Na noite de São João Chapéu de arroz doce Forrado com tapioca As fitas de alfinim E as fivelas de paçoca A camisa de nata E os botões de pipoca A ceroula de soro E as calças de coalhada O cinturão de manteiga E o buquê de carne assada Sapato de pirão E a zenfilhon de cocada (adereço? - pergunto eu) As meias de angu Presilhas de amendoim Charuto de biscoito E os anelão de bolim Os óculos de ovos fritos E as luvas de toucim O culete de banana E a gravata de tripa O paletó de ensopado E o lenço de canjica Carteira de pamonha E a bengala de linguiça. Vai ser um grande sucesso No baile da Prefeitura A pulseira de queijo Relógio de rapadura Quem tem um liforme desses Pode contar com fartura.
Ah, o “Penerô Xerém”, com a licença, também, de Gonzagão...

Oi pisa o milho (penerô xerém) Oi, vamo simbora, mestrinho (Penerô xerém) Oi pisa o milho (penerô xerém) Eu num vou criar galinha Pra dar pinto pra ninguém A minha terra Dá de tudo que plantar O Brasil dá tanta coisa Que eu num posso decorar Dona Chiquinha Bote o milho pra pilar Pro angu, pra canjiquinha Pro xerém, pro munguzá Só passa fome Quem não sabe trabalhar Essa vida é muito boa Pra quem sabe aproveitar Pego na peneira Me dano a saculejar De um lado fica o xerém Do outro sai o fubá Saculeja, saculeja, saculeja
Como bom nordestino, nosso biólogo é bem capaz de saber: Quem chora por amor chora de melhor modo ao lado da fogueira. Que o diga Antonio de Barros, autor da marchinha junina popularizada pelo Trio Nordestino. E há aqui, também, referências deliciosas às simpatias e adivinhações de junho.

Tem tanta fogueira Tem tanto balão Tanta brincadeira Todo mundo na fogueira Faz adivinhação Meu São João, eu não Meu São João, eu não Eu não tenho alegria Só porque não vem Quem tanto eu queria Danei a faca No tronco da bananeira Não gostei da brincadeira Santo Antonio me enganou Saí correndo Lá pra beira da fogueira Ver meu rosto n’água fria A água se derramou.
Benedito Lacerda e Osvaldo Santiago não poderiam ser esquecidos. Eles compuseram a trama amorosa cujos personagens remetem a versões pecaminosas dos santos de junho. E desta, aqui, até a “alemãzinha” sabia.

Com a filha de João Antônio ia se casar Mas Pedro fugiu com a noiva Na hora de ir pro altar A fogueira está queimando E um balão está subindo Antônio estava chorando E Pedro estava fugindo E no fim dessa história Ao apagar-se a fogueira João consola Antônio Que caiu na bebedeira.
Pensa meu biólogo preferido e assim penso eu: A alma nordestina transformou os festejos juninos em forte expressão cultural por deles ter feito a matéria prima dos atos de fé, sobrevivência e identidade. Aqui, a festa chegada no Século 16 com os colonizadores portugueses enraizou-se e adquiriu significado mais profundo.
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Márcio Chaves, biólogo e professor, filho do cronista. ▪ Imagem: Instagram @marciochave
Fez-se um rito de gratidão pelas chuvas que garantem o plantio e a colheita. Combinou, de melhor maneira, as tradições católicas e as manifestações tribais. Revigorou a força sertaneja.

É claro que eventos de tamanha proporção, sacudidos por fenômenos outros – o mercantil, sobretudo – tomariam dimensões gigantescas, a ponto de transformar cidades inteiras em imensos arraiais, como há muito o fazem. Sabem disso os que percorrem, nesta época do ano, as trilhas de Campina Grande e Caruaru, aqui tomadas como exemplo, dado o tempo de cada festejo: 30 dias ininterruptos para a incontida satisfação do segmento turístico com suas oportunidades de emprego e renda.

Mas, se valer a pena a confissão, eu e meu biólogo, no que pesem os grandes shows, as grandes bandas, o valor de artistas consagrados e o esplendor de palcos enormes, nos rendemos mesmo é ao feitiço da sanfona, do triângulo e do zabumba nuns tantos pés de serra. E assim tem sido.
A Márcio Chaves, o primeiro filho

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