Lá bem para trás nos tempos, em minha transição do final de adolescente para adulto, namorei Miroslava. Precisavam ver que criatura. Era polonesa e linda que só. Ruiva e com os olhos que pareciam duas esmeraldas. Tive que gastar muita conversa para que essa polaquinha me concedesse o privilégio de engatar um namoro como mandava o figurino daquela época, cheio de dificuldades para quem andava com os hormônios pululando, como era o meu
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caso e suponho que os de Lavinha também. Isso mesmo, gastei todo o repertório de blá-blá-blá de que eu dispunha em estoque, já que estava eu muito longe de ter um porte apolíneo. Magrelo, míope e com mais algumas imperfeições que dificultavam o sucesso em minhas intenções. Mas que a conversa deu certo, isso deu.
Eu chamava Miroslava de Lavinha. Achava o apodo mais mimoso. Miroslava aparecia-me nome de delegada de polícia, guarda de campo de concentração. Pois bem, ainda guardo com ternura essa minha passagem na vida e, hoje, em minhas elucubrações, Lavinha apareceu linda como naqueles tempos e fez-me trazer aquele chamego à memória para confrontar coisas que estão por aí para atormentar nossas vidas.
Antes de chegar ao ponto, vamos dar uma passada por aqueles dias. Pois vejam só. Fui recebido pela família de minha ruivinha com muita deferência. O senhor Estanislau e a senhora Olésia viam em mim um rapaz promissor, estudante de engenharia e muito conversador. Conversador ainda acho que sou um pouco, mas engenheiro não cheguei a ser porque, anos depois, fui estudar matemática e descambei para as aulas em cursinhos pré-vestibulares, aposentando a prancheta.
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Recebiam-me nas tardes de sábado, quando Dona Olésia servia-me umas rosquinhas deliciosas que, se não me falha a memória, chamavam-se “opankis”. Nesses momentos, o quase sogro, senhor Estanislau, se fazia presente para puxar uma prosa comigo. Tinham vindo para o Brasil no começo da década de 1960.
Esse patriarca fazia uso de um sotaque muito carregado e falava, vezes com entusiasmo, vezes com mágoas, de sua Cracóvia, cidade de onde vieram. O entusiasmo, natural que fosse, devido à saudade do solo pátrio e de suas raízes. As mágoas vinham das restrições, da falta de liberdade lá na banda oriental da Cortina de Ferro. Segundo ele, até para se adquirir um eletrodoméstico tinha-se de ter autorização do “opiekun polityczny”, uma espécie de dedo-duro do governo. Uma dificuldade danada. Seu Estanislau, engenheiro mecânico, logo que a família chegou, não demorou a se empregar na indústria automotiva.
Eram vigilantes, e Lavinha vivia sob os olhos atentos de Dona Olésia. Beijo só mesmo em duas ocasiões: quando eu a encontrava na saída dela do colégio e caminhávamos até a residência dos Kowalsky; ou nas tardes de domingo, quando nos era permitida a matinê do cinema e depois nos autorizavam algum tempo na Praça da Matriz. Nesse logradouro bem arborizado, havia um pequeno lago artificial para as carpas coloridas; ali ao lado, um banco generoso, onde eu muitas vezes beijei Lavinha de fazer inveja a Deborah Kerr e a Burt Lancaster.
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Foi lá que um dia ela me disse que, se viesse ao mundo em forma de bicho, gostaria de ser um passarinho, um bem-te-vi. “E por quê?”, eu quis saber. “Porque eles são livres como todas as aves, mas, além disso, os vejo generosos com essa linda manifestação de benquerença, pois parecem nos dizer que foi bom nos ter visto. Não é lindo?” Tive que concordar.
Hoje nem sei por onde anda Lavinha. Nunca mais tive notícias, mas veio a lembrança de como ela gostava dos pássaros, de vê-los cantar a pleno fôlego, exibindo liberdade e encantamento. Cantam como sabem e como gostam... sem censura.
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Hoje me lembrei com tristeza dos bem-te-vis de Lavinha e tive vontade de ser um deles. Está difícil viver por aqui. Há uma censura abjeta e clandestina a espreitar nossos escritos e nossa fala. Não é oficial como a dos anos de chumbo, mas é pior. Quem a põe em prática faz parte de um exército de mal-amados e vê ofensa e maldade em tudo. O humor está proibido e, como rir tornou-se um delito, o melhor é ser mesmo um bem-te-vi. Como os de Miroslava.