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Gil Messias, Graciliano Ramos e Machado de Assis

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Na apresentação do livro de Francisco Gil Messias, na Academia Paraibana de Letras, o professor Milton Marques chamou a atenção do leitor para o personagem Paulo Honório, personagem-narrador do romance S. Bernardo. O escritor estreante queria escrever um livro contando a sua vida, convocou alguns amigos “sabidos” para auxiliá-lo na missão de escrever um romance. Irritou-se com João Nogueira, um dos parceiros, que teria a missão de organizar a ortografia, a pontuação e a sintaxe do livro. O fato da irritação com o amigo era porque queria escrever um livro “em língua de Camões, com períodos formados de trás para diante.”

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Com Azevedo Gondim, outro parceiro escolhido para a parte mais literária do livro, a irritação foi maior, chegou às raias da indignação; tudo lhe parecia “pernóstico, safado e idiota”. Para Paulo Honório, ninguém falava daquela forma, estava muito artificial e reagiu com o amigo dessa forma: “– Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!”

Não adiantaram as justificativas do redator e diretor de O Cruzeiro, que se justificou com este argumento: “Arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia”. Paulo
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Honório queria um romance com a língua do povo, talvez na “língua errada do povo/língua certa do povo./Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”, como apregoa Manuel Bandeira no poema Evocação do Recife.

Considero que os textos de Gil Messias se aproximam de Graciliano Ramos pelo modo sucinto de escrever, pela clareza de linguagem, pelo estilo sem rebuscamentos, como pude observar no seu último livro A mosca na parede e outros textos – de crônicas a ensaiados ensaios (Ed. Ideia, 2026). O arguto Milton Marques Júnior certamente também sentiu afinidades entre a escrita de Gil Messias e a de Graciliano.

O ensaísta/cronista esclarece, na abertura do livro, que os seus textos foram escritos no período de 2021 a 2025 e que foram praticamente todos publicados no blog Ambiente de Leitura Carlos Romero, somente alguns no suplemento literário Correio das Artes. Não estão datados, mas o leitor irá perceber que há uns mais “datados”, outros indefinidos, o que não diminui o valor dos textos selecionados.

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Na leitura do livro como um todo, constatei outras admirações literárias de Gil Messias e cito Machado de Assis. Há várias crônicas e alguns ensaios dedicados ao “bruxo do Cosme Velho”, analisando não só livros desse escritor, mas sua personalidade controvertida, para alguns um excêntrico, para outros uma pessoa dotada de complexo de inferioridade.

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Há um dos textos que se sobressai porque ultrapassa o número de páginas dos outros, é mais completo, mais analítico – “Complexo de inferioridade em Machado de Assis”. Embora diga que não é especialista no “bruxo”, o ensaísta lê Machado de Assis há cinquenta anos, o que não é pouca coisa; é, no mínimo, um iniciado na obra do autor de Dom Casmurro e elenca alguns motivos que levaram o escritor a sentir-se menor diante da aristocracia carioca – “era mestiço, num regime escravocrata, pobre, sem berço, gago, feio e epiléptico”; isso já seria mais do que suficiente para se considerar inferior. Em seguida, tal qual um psicanalista, o ensaísta vai demonstrar os motivos que levaram Machado a sentir-se menor no
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meio da burguesia e da nobreza que o rodeava. Ainda dentro da psicanálise, Machado parecia um recalcado. “O recalque é definido como um processo inconsciente que ocorre quando uma ideia ou experiência é considerada inaceitável ou ameaçadora para o ego.”

Quando surgiu esse complexo de inferioridade? Certamente na infância, na convivência diária na casa senhorial da patroa de sua mãe; ali ele via dois mundos bem distintos – o seu, que era o mesmo da sua mãe, e o da patroa. Sentir-se inferior na infância, como bem diz Gil Messias, é algo que marca a alma infantil, como se fosse uma tatuagem ou um fundo corte feito a faca.

Há outros textos neste livro sobre Machado de Assis, mas foi este o que mais me chamou a atenção. Tentar desvendar os mistérios da alma humana é tarefa difícil para as pessoas comuns e para os escritores.

Em homenagem ao título do livro, transcrevo quatro estrofes do poema “A mosca azul”, de Machado de Assis:

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada, Filha da China ou do Industão,
Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada Em certa noite de verão. E zumbia, e voava, e voava, e zumbia, Refulgindo ao clarão do sol E da lua, – melhor do que refulgiria Um brilhante do Grão-Mogol. Um poleá que a viu, espantado e tristonho, Um poleá lhe perguntou: “Mosca, esse refulgir, que mais parece um sonho, Dize, quem foi que to ensinou?” Então ela, voando, e revoando, disse: – “Eu sou a vida, eu sou a flor Das graças, o padrão da eterna meninice, E mais a glória, e mais o amor”
  Do livro de Poesia – Ocidentais

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