A cada vez que leio um novo livro de poemas – o que faço com alguma frequência –, convenço-me da resistência desse gênero literário...

Ed Porto: uma lírica em 58 poemas

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A cada vez que leio um novo livro de poemas – o que faço com alguma frequência –, convenço-me da resistência desse gênero literário e até mesmo de sua eternidade. Não importa que os leitores não sejam muitos, mas são tantos os que escrevem e publicam poemas que a sobrevivência da poesia parece estar assegurada mais pelos que produzem que pelos que consomem. Talvez seja um caso único na literatura. Mas antes assim.

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Sim, antes assim. Todavia, sabemos, há poetas e poetas. E aqui não me refiro apenas à qualidade literária que diferencia uns dos outros e que aflora facilmente a uma simples leitura, até para os leigos; refiro-me àqueles não vocacionados de um livro só e aos que, ao contrário, perseveram no ofício, evoluindo a cada livro publicado e demonstrando perseguir de fato o projeto de uma obra poética, modesta que seja. E neste segundo grupo é que tranquilamente posso enquadrar Ed Porto, contumaz passeante nos bosques desafiadores da poesia.

Agora tenho em mãos o livro mais recente desse poeta que me intriga, entre outras razões, pelo simples fato de ser professor universitário de informática, área, digamos, pouco afim da literatura e, nesta, da poesia. Não que seja caso único, claro, pois basta lembrarmos de Joaquim Cardoso, imenso poeta pernambucano, que era engenheiro calculista de profissão, e do próprio Manuel Bandeira, que pretendia estudar arquitetura quando jovem, antes de adoecer dos pulmões e ir para a Suíça descobrir que era poeta. Mas não deixa de ser exótico (será esta a palavra?) esse improvável encontro entre dois caminhos
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tão distintos, o que prova que a literatura tem muitas moradas ou, como diria o próprio Ed Porto, muitas portas e janelas.

A poética de Ed Porto neste seu novo livro, cujo título é exatamente Sobre portas e janelas, é eminentemente lírica, uma característica de sua obra como um todo, pelo menos até aqui. Em seus poemas predominam os sentimentos, é certo, mas não com o sacrifício do pensamento lógico, racional, nem tampouco do trabalho artesanal com as palavras. Neles, o que o eu lírico expressa não abre mão do intelecto para privilegiar o coração. Ao contrário. Intelecto e coração dão-se as mãos na escritura, mesmo que ocorram eventuais desencontros na vida real subjacente. Falar nisso, em poema de outro livro, o poeta escreve com todas as letras: “Meu eu-lírico sou eu mesmo/Euzinho de osso e carne e vinho/Ele não é meu vizinho, é hóspede/O bicho não fala por mim/Ele sou mim: miserável hospedeiro”. Um eu lírico que escreve sobre o amor – mas não só – de forma madura e talentosa.

Há, da parte do autor, um domínio da arte poética que se torna, para mim, muito evidente em alguns poemas. Começo por um dos primeiros, para que o leitor tenha uma ideia de seu dom:

Abstêmio A cerveja sem álcool é sem alma sem sol, sem sal, sem alegria A cerveja sem álcool é tarja preta receita certa para reparar mazelas A cerveja sem álcool é sem graça numa taça trincada de cima a baixo
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Recentemente, tive oportunidade de escrever um pequeno texto sobre Passeante, o livro anterior do poeta, no qual pude registrar a presença de alguns poemas sobre o modo de o bardo estar no mundo nesta altura da vida: sua tranquila aceitação da existência como ela é, sua consciente opção por uma certa rotina doméstica que lhe “acalma e aquece”. Terei acertado nessa observação de leitor desarmado de teorias literárias e psicanalíticas? É possível, apenas possível. Mas acertar, nesse caso – como em outros –, não é
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o mais importante, pois aqui importa menos ter alguma razão na hermenêutica artística que a simples e prazerosa fruição dos poemas por si mesmos. Na poesia, como na arte em geral, a compreensão vale mais que a explicação, e, não raro, a compreensão vem menos da inteligência que da intuição. Mistério da subjetividade que desafia os neurocientistas.

Neste novo livro, observo, não digo a predominância, mas uma considerável frequência da temática amorosa. Mas não se engane o leitor, pois aqui não encontramos manifestações românticas singelas ou piegas, e sim a problematização poética do amor em sua complexidade não raro dolorosa. Como em Derrocada, por exemplo:

Tinha uns versos de amor pra lhe dizer Mas dizem por aí que já foram ditos Tinha uns ritmos sensuais pra lhe envolver Mas ando fora de compasso ultimamente Tinha uns casos calientes pra lhe acasalar Mas prefiro calar por mera timidez Vez por outra fico quieto, pensante, descrente com os rituais que embalam uma conquista
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Quem não assinaria estes versos tão universais? É uma qualidade dos poemas de amor essa possibilidade de tocar igualmente gregos e troianos, uruguaios e suecos. Mas sem pieguices, óbvio, pois aqui não se trata de simples desabafos românticos de adolescente. E quanto ao erotismo, ele é discreto, apenas insinuante, adequado à elegância pessoal do autor.

As experiências das pessoas, inclusive as amorosas, são únicas, claro, mas muito semelhantes em sua humana diversidade. Cabe aos ficcionistas em geral e aos poetas em particular colocá-las em letra de forma, de modo a propor um espelho no qual o leitor possa, em alguma medida, reconhecer-se. O que acontece a partir daí também constitui experiência pessoal, podendo ter ou não efeitos para
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além do leitor. Este é o jogo literário – ou uma das formas de vê-lo. E por isso se escreve e se lê ficção e poesia. Nessa linha, óbvia, a poética de Ed Porto expressa vivências e reflexões que foram e são suas e que, simultaneamente, são de muitos.

Observa-se aqui mais uma vez que o livre uso da gramática (ou o seu não uso, como já escrevi sobre Passeante) expõe o estilo do poeta e sua segurança na luta com as palavras. Só mesmo quem é senhor absoluto de seu texto pode se dar ao luxo de dispensar conscientemente pontos, vírgulas e outros que tais. Quanto a isto, pode-se dizer que o autor segue à risca a preciosa lição de Manuel Bandeira em seu célebre poema Poética, que consta de seu livro Libertinagem, de 1930: “– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”. Sim, que as regras fiquem com os gramáticos, mas não necessariamente com os criadores, os artistas.

O intimismo é uma marca inevitável da poesia lírica de qualidade. E não poderia ser diferente, dada a matéria-prima com que trabalha: sentimentos e confissões. Talvez esta seja uma, apenas uma, das explicações para o reduzido número de leitores de poesia no Brasil – e
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talvez no mundo. Pois não é todo leitor que está, não digo em termos de intelecto, mas de sensibilidade, qualificado para apreciar a arte poética lírica. Os brutos podem até amar, admito, mas não costumam ler poemas. É um fato. A tendência dos não preparados para esse tipo de leitura é simplesmente descartá-la como mera expressão de sentimentalidades juvenis e até mesmo pouco viris (eis a brutalidade), cujo melhor destino, para eles, deveria ser antes a gaveta que a publicação em livro. Mas, é lícito indagar, o que seria da poesia e da literatura sem a lírica? Podemos admirar e respeitar, por exemplo, a poética antilírica e antissentimental de um João Cabral de Melo Neto, mas chegaremos a amá-la, como amamos um Bandeira e um Drummond?

No caso de Ed Porto, a proposta é outra e outro é seu material de construção. Sua pintura não é geométrica, nem cubista, nem abstrata, mas impressionista. E isso, para mim, não diz apenas muito – diz tudo, tudo que importa (para mim). Como simples leitor, satisfaço-me com isso, identifico-me com isso. Que mais se pode desejar de uma leitura?

Concluo, pois, desejando ao leitor que por acaso esteja lendo estas linhas uma experiência semelhante à minha, que usufrua com prazer da rica poética de Ed Porto, estética e humanamente.
  O livro Sobre portas e janelas está disponível no site da Editora Ideia

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