A cada vez que leio um novo livro de poemas – o que faço com alguma frequência –, convenço-me da resistência desse gênero literário e até mesmo de sua eternidade. Não importa que os leitores não sejam muitos, mas são tantos os que escrevem e publicam poemas que a sobrevivência da poesia parece estar assegurada mais pelos que produzem que pelos que consomem. Talvez seja um caso único na literatura. Mas antes assim.
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Agora tenho em mãos o livro mais recente desse poeta que me intriga, entre outras razões, pelo simples fato de ser professor universitário de informática, área, digamos, pouco afim da literatura e, nesta, da poesia. Não que seja caso único, claro, pois basta lembrarmos de Joaquim Cardoso, imenso poeta pernambucano, que era engenheiro calculista de profissão, e do próprio Manuel Bandeira, que pretendia estudar arquitetura quando jovem, antes de adoecer dos pulmões e ir para a Suíça descobrir que era poeta. Mas não deixa de ser exótico (será esta a palavra?) esse improvável encontro entre dois caminhos
A poética de Ed Porto neste seu novo livro, cujo título é exatamente Sobre portas e janelas, é eminentemente lírica, uma característica de sua obra como um todo, pelo menos até aqui. Em seus poemas predominam os sentimentos, é certo, mas não com o sacrifício do pensamento lógico, racional, nem tampouco do trabalho artesanal com as palavras. Neles, o que o eu lírico expressa não abre mão do intelecto para privilegiar o coração. Ao contrário. Intelecto e coração dão-se as mãos na escritura, mesmo que ocorram eventuais desencontros na vida real subjacente. Falar nisso, em poema de outro livro, o poeta escreve com todas as letras: “Meu eu-lírico sou eu mesmo/Euzinho de osso e carne e vinho/Ele não é meu vizinho, é hóspede/O bicho não fala por mim/Ele sou mim: miserável hospedeiro”. Um eu lírico que escreve sobre o amor – mas não só – de forma madura e talentosa.
Há, da parte do autor, um domínio da arte poética que se torna, para mim, muito evidente em alguns poemas. Começo por um dos primeiros, para que o leitor tenha uma ideia de seu dom:
Abstêmio
A cerveja sem álcool é sem alma
sem sol, sem sal, sem alegria
A cerveja sem álcool é tarja preta
receita certa para reparar mazelas
A cerveja sem álcool é sem graça
numa taça trincada de cima a baixo
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Neste novo livro, observo, não digo a predominância, mas uma considerável frequência da temática amorosa. Mas não se engane o leitor, pois aqui não encontramos manifestações românticas singelas ou piegas, e sim a problematização poética do amor em sua complexidade não raro dolorosa. Como em Derrocada, por exemplo:
Tinha uns versos de amor pra lhe dizer
Mas dizem por aí que já foram ditos
Tinha uns ritmos sensuais pra lhe envolver
Mas ando fora de compasso ultimamente
Tinha uns casos calientes pra lhe acasalar
Mas prefiro calar por mera timidez
Vez por outra fico quieto, pensante, descrente
com os rituais que embalam uma conquista
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As experiências das pessoas, inclusive as amorosas, são únicas, claro, mas muito semelhantes em sua humana diversidade. Cabe aos ficcionistas em geral e aos poetas em particular colocá-las em letra de forma, de modo a propor um espelho no qual o leitor possa, em alguma medida, reconhecer-se. O que acontece a partir daí também constitui experiência pessoal, podendo ter ou não efeitos para
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Observa-se aqui mais uma vez que o livre uso da gramática (ou o seu não uso, como já escrevi sobre Passeante) expõe o estilo do poeta e sua segurança na luta com as palavras. Só mesmo quem é senhor absoluto de seu texto pode se dar ao luxo de dispensar conscientemente pontos, vírgulas e outros que tais. Quanto a isto, pode-se dizer que o autor segue à risca a preciosa lição de Manuel Bandeira em seu célebre poema Poética, que consta de seu livro Libertinagem, de 1930: “– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação”. Sim, que as regras fiquem com os gramáticos, mas não necessariamente com os criadores, os artistas.
O intimismo é uma marca inevitável da poesia lírica de qualidade. E não poderia ser diferente, dada a matéria-prima com que trabalha: sentimentos e confissões. Talvez esta seja uma, apenas uma, das explicações para o reduzido número de leitores de poesia no Brasil – e
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No caso de Ed Porto, a proposta é outra e outro é seu material de construção. Sua pintura não é geométrica, nem cubista, nem abstrata, mas impressionista. E isso, para mim, não diz apenas muito – diz tudo, tudo que importa (para mim). Como simples leitor, satisfaço-me com isso, identifico-me com isso. Que mais se pode desejar de uma leitura?
Concluo, pois, desejando ao leitor que por acaso esteja lendo estas linhas uma experiência semelhante à minha, que usufrua com prazer da rica poética de Ed Porto, estética e humanamente.
O livro Sobre portas e janelas está disponível no site da Editora Ideia














