Como já mencionamos algumas semanas atrás neste poderoso rotativo, Chico Palito é o mais célebre mentiroso de Santa Rita, cidade localizada aqui nos limites da capital paraibana. Estou aqui, cometendo estes rabiscos, pois, em meu modesto entender, Chico Palito deveria ser alçado à condição de celebridade, tal sua criatividade, sua capacidade inventiva e a bossa de contar seus causos. Vamos, então, a mais três de suas fantasiosas narrativas.
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— De jeito nenhum! Hoje ninguém me tira daqui. Tem jogo do Brasil e eu vou perder a final da Copa do Mundo? Nem f....
À época, Chico tinha um caminhãozinho Ford, cabine vermelha, mas vermelha de tirar água dos olhos de tão brilhosa que era. Uma lindeza. Abastecia suas panelas com a atividade de freteiro e o espírito com suas conversas para boi dormir; ou seja, suas mentiras.
— Mas, Chico, vou ter um prejuízo danado, vou quebrar. O navio sai hoje à tardinha. O algodão tem de estar lá — insistiu o contratante.
Chico era mentiroso, mas tinha coração mole. Pensou na família do caba, olhou o relógio, pensou, pensou...
— Carrega o caminhão que acho que vai dar tempo.
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— Cadê o povo para descarregar? — perguntou Chico ao segurança do local.
— Não tem ninguém aqui. Jogo do Brasil, todo mundo se mandou — respondeu o vigia.
Chico não pensou duas vezes, tirou a carga da carroçaria, colocou todo o algodão no navio e novamente pé na estrada. E veio cortando todo mundo, passando um, passando outro, até parar em Goiana para uma lapada da “marvada” e chupar o caju para tirar o amargoso. Pois acreditem: no instante em que o árbitro alemão, exatamente às 15 horas, apitou o início da contenda, Chico sentava no boteco para ver o jogo.
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— Chico, a cabine de seu caminhão não era vermelha? Está sem pintura. Tá na lataria, no original, sem tinta.
— Tô sabendo. Foi a minha ligeireza. Corri tanto que até a tinta da cabine não aguentou o puxado e foi saindo enquanto eu acelerava.
Mas o causo não para por aí. Quando Pelé fez aquele lendário gol de cabeça, ouviram a cachorrada latindo lá fora. Deixaram a comemoração e foram verificar o que era. Nada a temer. Era só a sombra do caminhão que vinha chegando, pois não conseguira acompanhar a carreira de Chico.
Outra pérola.
Chico gostava de caçar arribaçã. Nessas empreitadas, levava com ele seu bicho de estimação, o Tavares. Estão pensando em um cão perdigueiro, bom de faro e bom de acuar a caça? Nada disso. Tavares era um macaco-prego. Com eles sempre iam a espingardinha soca, de carregar pelo cano, um bornalzinho com pólvora e outro com chumbo e taxinhas.
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— Isso mesmo, soco pólvora na Madalena (era assim que tratava a espingarda), depois soco chumbo e as taxinhas, bem socadinho pra não falhar.
— Mas pra quê as taxinhas, Chico?
— Quando encontro um bando de arribaçã num pé de algaroba, mando fogo. O chumbo mata as bichinhas e as taxinhas “prega elas” na árvore.
— Mas e daí?
— Daí, só mandar o Tavares recolher as coitadinhas.
Querem mais uma?
Chico estava voltando de Campina Grande, ia passando ali por Riachão, na descida da serra, quando seu Ford negou freio. Tentou reduzir a marcha, mas nada. Tentou outra vez e nada. Freio de mão também não deu certo, e o caminhão ganhando velocidade, quando Chico, que era devoto de São Cristóvão, teve a grande ideia. Quebrou o vidro do velocímetro e foi arrastando o ponteiro da velocidade até o zero.
— E parou o caminhão, Chico?
— Parar eu parei, mas até chegar no Cajá fui sentindo cheiro de borracha queimada.










