Há palavras que usamos tanto que, de tão repetidas, quase deixam de nos provocar.

Quando a cidadania ganha voz

cidadania inclusao acessibilidade cultura educacao protagonismo
Há palavras que usamos tanto que, de tão repetidas, quase deixam de nos provocar.

Cidadania é uma delas.

Falamos em cidadania na escola, nos discursos, nos documentos oficiais, nas campanhas e nas conversas sobre direitos. Mas, vez ou outra, é importante parar e perguntar: o que significa, de fato, ser cidadão?

cidadania inclusao acessibilidade cultura educacao protagonismo
GD'Art
Talvez a resposta não esteja apenas nos livros de Direito.

Ela pode estar numa sala de aula, num espaço cultural, num palco ou na voz de alguém que, durante muito tempo, não encontrou espaço para ser ouvido.

Ser cidadão não significa apenas possuir documentos, votar ou ter direitos inscritos na Constituição. A cidadania envolve a possibilidade de participar da vida coletiva, ter acesso à educação, à saúde, ao trabalho, à cultura, ao lazer e às demais condições necessárias a uma vida digna.

A Constituição brasileira de 1988 colocou a cidadania e a dignidade da pessoa humana entre os fundamentos da República e estabeleceu, entre seus objetivos, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária e a redução das desigualdades.

Mas existe, muitas vezes, uma distância significativa entre o direito escrito e o direito vivido.

É justamente nessa distância que surgem as barreiras.

cidadania inclusao acessibilidade cultura educacao protagonismo
GD'Art
Para uma pessoa com deficiência visual, por exemplo, não basta afirmar que ela tem direito à cultura. É preciso perguntar se consegue chegar ao espaço cultural, circular nele, acessar as informações, participar das atividades e, sobretudo, ser reconhecida não apenas como espectadora, mas também como criadora e protagonista.

A Lei Brasileira de Inclusão representa um importante avanço nesse sentido. Ao reconhecer a pessoa com deficiência como sujeito de direitos, assegura sua participação em diferentes dimensões da vida social, inclusive na cultura e nas atividades artísticas, valorizando sua autonomia, participação e protagonismo.

E a palavra protagonismo merece atenção.

Porque inclusão não deveria significar apenas abrir uma porta.

É preciso criar condições para que a pessoa possa entrar, permanecer, participar, escolher e deixar sua própria marca naquele espaço.

É nesse ponto que a arte encontra a cidadania.

cidadania inclusao acessibilidade cultura educacao protagonismo
GD'Art
Uma pessoa cega que toca um instrumento não está apenas executando uma música. Uma pessoa com deficiência que dança não está apenas realizando movimentos. Quem sobe ao palco para declamar um poema não está apenas recitando versos.

Em cada uma dessas experiências existe algo maior: presença, expressão, pertencimento e reconhecimento.

Existe a possibilidade de afirmar, por meio da própria experiência:

“Eu também estou aqui. Eu também crio. Eu também participo.”

A arte cria espaços onde, muitas vezes, a linguagem cotidiana não consegue chegar. Ela permite comunicar sentimentos, preservar memórias, aproximar pessoas e gerações e construir vínculos.

Por isso, uma apresentação artística pode significar muito mais do que aquilo que acontece durante alguns minutos diante de uma plateia.

Quando alguém apresenta uma canção, uma dança, um poema ou uma peça teatral, pode estar também rompendo uma antiga imagem social: a de que determinadas pessoas deveriam ocupar apenas o lugar de quem recebe cuidados, e não o de quem produz, ensina, cria e transforma.

cidadania inclusao acessibilidade cultura educacao protagonismo
GD'Art
A cidadania começa, então, a ganhar outro significado.

Não se trata apenas de ter direitos, mas de criar condições para exercê-los.

Não se trata apenas de estar incluído, mas de participar.

Não se trata apenas de ser visto, mas de ser reconhecido.

Talvez seja essa uma das tarefas mais bonitas da educação: possibilitar que cada pessoa reconheça em si capacidades, talentos e possibilidades de contribuição para a vida coletiva.

cidadania inclusao acessibilidade cultura educacao protagonismo
GD'Art
E quando a educação encontra a arte, essa descoberta pode ganhar som, movimento, cor, palavra e emoção.

A cidadania deixa, então, de ser apenas um conceito estudado nos livros e passa a se manifestar nas experiências concretas da vida.

Ela pode estar numa apresentação de teatro, num acorde de violão, no ritmo de uma dança, num poema, numa obra de arte ou numa voz que finalmente encontra espaço para ser escutada.

É por isso que falar de inclusão é falar da própria sociedade.

A questão não deveria ser apenas:

“O que podemos fazer pelas pessoas com deficiência?”

Talvez seja necessário formular uma pergunta mais ampla:

“Que sociedade queremos construir para que todas as pessoas possam participar?”

A resposta não está pronta.

cidadania inclusao acessibilidade cultura educacao protagonismo
GD'Art
A cidadania, assim como a democracia, é uma construção permanente. Exige direitos reconhecidos, mas também condições para que esses direitos sejam vividos. Exige participação, responsabilidade, solidariedade e, sobretudo, o reconhecimento de que cada pessoa tem algo a oferecer à coletividade.

Nesse caminho, a inclusão deixa de ser apenas uma palavra presente nas leis e passa a ser uma experiência concreta de pertencimento.

E talvez seja justamente aí que a cidadania ganhe voz.

Não uma voz única, mas muitas vozes.

Vozes que cantam, dançam, recitam, criam, ensinam, aprendem e transformam.

Como na imagem de Mario Quintana, talvez os caminhos da cidadania também precisem de uma luz distante que nos indique que ainda há um caminho a percorrer.

“Que tristes os caminhos se não fora a presença distante das estrelas.”

É essa luz que nos desafia a continuar construindo uma sociedade na qual todos possam não apenas estar presentes, mas participar, criar e pertencer.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas