... no Grande Teatro do Mundo... ficaria muito longo o título, se bem que "perfeito". Coloco aspas, porque seria muita ousad...

Espelho Partido: O Narcisismo e o Exílio da Alma...

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... no Grande Teatro do Mundo... ficaria muito longo o título, se bem que "perfeito". Coloco aspas, porque seria muita ousadia chamar um título de "perfeito". Na Espanha, sempre entrevisto ou encontro um fantástico professor, que me traz à mente a seguinte brincadeira: ao me apresentar pela primeira vez, eu teria dito "Olá, sou Denise", e ele responderia "Sou Perfeito" (note-se a letra maiúscula). Ao que pensaríamos: "ninguém na Terra é perfeito", mas ele é! Se chama Perfecto! Que interessante nome!

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Mas, saindo da brincadeira, temos um assunto importante. O Narcisismo. Algo tão falado atualmente.

Estou cursando Psicanálise na PUCRS - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Apesar de ser uma universidade séria, com excelentes professores, de ser um curso sério – uma universidade como a PUC iria querer diminuir-se? Formar maus profissionais? –, sofri dúvidas e "perguntações" (assim mesmo) de algumas pessoas. Umas puseram em dúvida a idoneidade do curso, confundindo-o com o de uns dias, em alguma "universidade Zé da esquina". E, mesmo eu respondendo às perguntas de "qual é a carga horária?", "não é um complemento para outra matéria? Não estás confundindo? Não deve ser Psicanálise. Isso é muito sério", seguiram duvidando da universidade e de mim.
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"Tudo bem-não exatamente". Mas deixa estar.

Teve gente, também, que, em face de eu dizer "não posso marcar um encontro agora", com toda a sinceridade do mundo (não requisitada) me disse: "quando vai acabar essa palhaçada ridícula?", geeente!

Outras detestaram o fato de que gosto de aprender, quero continuar a me aperfeiçoar e me perguntaram: "Mas quando isso tudo! (de estudar) vai terminar?!", pois não esperei nem um ano após terminar o doutorado para engatar outro curso. Minha resposta: NUNCA. Enquanto puder, vou continuar a aprender.

Não sei por que isso afeta tanto algumas pessoas. Não preciso de permissão, não pedi. Não tem consequência nenhuma para as pessoas. Só o fato de que esse estudo me faz bem, feliz e que, já em poucos meses, aprendi muito (acho eu; ao menos, mais do que sabia antes) sobre as tais pessoas e sobre mim. Aprendi que somos todos narcisistas, desde o nascimento, mas esse é um assunto técnico que deixo para meu exame. Mas descobri outras coisas também. Que muitos relacionamentos agora são descartáveis, supérfluos, superficiais, temporários. É como um liquidificador vindo de um país do oriente. Estragou? Não vale a pena consertar. Consuma! Compre um novo! (Há um/a amigo/a virtual te esperando na tela no próximo segundo, novo em folha!) Vale um ditado: "Diga-me com quem andas e te direi quem és" ou... hoje... "Diga-me o que e quanto consomes e te direi o que não és"...

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Pois agora há um silêncio novo que habita as esquinas da modernidade ou contemporaneidade, um silêncio que não nasce da ausência de sons, mas do excesso de ruídos – de informações, velocidade, exigências, culpas. Antigamente, o homem caminhava sob um teto firme de certezas; havia um "manual", algo religioso, o amparo das velhas tradições, o olhar vigilante e terno do Criador, os rituais de uma família que desenhava o mapa do certo e do errado, da ética, da moralidade. Havia um norte, uma bússola. Hoje, os altares foram substituídos por telas. Sem o cais das antigas tradições, fomos empurrados para dentro de nós mesmos, condenados a um individualismo feroz – e requerido, desejado pela sociedade. Mas o grande paradoxo da nossa era é que, quanto mais nos fechamos em nossos "quartos-castelos", mais dependentes nos tornamos do olhar do outro – quantas curtidas você teve para mostrar e competir? Viramo-nos para dentro, sim,
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mas com os olhos fixos na janela (da tela), esperando que o mundo exterior valide a nossa própria existência. Preciso que o outro comente, curve-se e curta a minha postagem para que eu, finalmente, possa gostar de mim (e existir, provar que existo no mundo)– isso me "valida", me dá valor, às vezes até financeiro (hello, influencers).

É nesse teatro de aparências que a singularidade agoniza. A mesma cultura que exalta o indivíduo e grita "seja você mesmo" exige, sussurrando nas entrelinhas, que nos diluamos na massa. Para pertencer, para ser amado no imenso tribunal das redes, é preciso abdicar do que se tem de mais único. Entramos no "todo mundo": o corpo tem que ser magro, o sorriso deve ser eterno, o sucesso precisa ser ostentado – e constantemente postado. O individualismo ruidoso, ironicamente, nos massifica. Ao expor a intimidade na vitrine do espetáculo, perdemos a posse daquilo que era estritamente nosso, um pedaço precioso do nosso próprio psiquismo. E a alma, despojada de sua substância mais particular, essencial e interior, experimenta o gosto amargo do vazio. É o desespero de um duplo vínculo: somos obrigados a mostrar quem somos para o lado de fora, embora, do lado de dentro, já não saibamos mais quem restou sob a fantasia. Um teatro. Um espetáculo. Uma obrigação. Para funcionar, precisamos de novidades, prazer. Qualquer postagem. Um café expresso? Serve. Uma salada de alface? Serve, na falta de grifes internacionais. Conheço gente que faz isso. Por isso, não uso mais Facebook ou Instagram. Tik etc.? Nem baixei. Não quero tomar parte nesse show
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de vidas editadas, clamando por uma pseudo felicidade.

É claro que alguns dirão que escrever também é show. É claro que é. Queremos compartilhar ideias, mas não peço likes. Gosto da interação. Ler outras ideias também, aprender com elas.

Toda essa fratura profunda ecoa nas práticas de escuta psicanalítica, desenhando as fronteiras de uma nova dor: a "Clínica do Vazio". Não estamos mais no território clássico de "uma neurose freudiana", onde o sofrimento nascia de um conflito "x", sob o peso de um Superego severo, mas estruturante, que nos puxava à Terra, à razão. O neurótico sofria por amor e por culpa; sua angústia era a da castração (limites), o medo da perda dentro de uma história tecida a três vozes — o bebê, o cuidador e o terceiro elemento que impunha o limite e abria as portas para o desejo e a consciência de perda (mãe/pai, mãe/mãe, pai/pai, mãe/trabalho, avô/avó etc.). O paciente do vazio, ao contrário, chega à clínica queixando-se de tudo e de nada, paralisado numa esterilidade melancólica. Falta-lhe o chão. É o reflexo de um tempo cujos laços se tornaram líquidos (ver Zygmunt Bauman, 1925–2017) e frágeis, onde o sujeito tenta desesperadamente negar a própria incompletude,
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a velhice, a falha e a morte, buscando uma imortalidade impossível na avidez pela celebridade – e juventude, magreza, dinheiro, sucesso. Mas, alto lá: sucesso pode não significar a mesma coisa para todos.

Na aurora da vida, o bebê precisa ser o centro do universo, alimentado e investido pelo narcisismo absoluto dos pais. Mas a saúde da alma exige uma destronação necessária. É preciso que os cuidadores retirem, aos poucos, esse manto de infalibilidade e perfeição, permitindo que a criança atravesse a castração, que tenha limites estruturados (sem extremos de punição ou o contrário, permissividade) e descubra a falta — pois é a falta que nos faz caminhar em direção ao outro, admirando-o em sua diferença. Contudo, a sociedade contemporânea, muitas vezes agravada pela falência das promessas coletivas de um país que desampara seus cidadãos (e não honra seus impostos), estimula o recuo para um narcisismo primário e defensivo – voltamos à nossa sala de estar, ao "quarto-castelo", grades e portaria virtual, para nossa proteção, frente à falta de segurança nacional.

Mas parece que o ser humano de hoje não suporta a falta, a frustração. Quando percebe que o outro possui algo que ele não tem, o vazio se transforma em uma inveja corrosiva
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que não deseja construir, mas sim destruir o objeto que o espelha. Não é admiração, querer se esforçar, construir para si o que admiramos no outro. É "eu não tenho, e quero. Então fulano/a não pode ter, também". Para suportar o peso dessa existência desancorada, nossa cultura instituiu o império da imaturidade e da frieza emocional. Proíbe-se a tristeza; condena-se o fracasso. E, como a realidade insiste em frustrar as promessas de uma felicidade fictícia, posto que se tornou um palco comercial, muitos recorrem ao êxtase artificial das substâncias e das drogas – ou jogos, consumo, etc. É o refúgio químico contra a dor de não conseguir comprar o sucesso e o poder que o dinheiro promete. Mente e corpo como palco de tentativas de equiparação. Apenas aqueles que preservam uma reserva interna de autonomia (e certa lucidez) conseguem olhar para o banquete de ilusões oferecido pelo mundo e dizer: "aceito apenas um pedaço disso; o resto eu recuso, para salvar o que me resta de humano". Para os outros, resta o cansaço crônico de carregar uma máscara pesada demais, sob o medo constante de que o espelho quebre e revele o abismo que há por trás do espetáculo.

A propósito: recomendo a leitura de "O Estado espetáculo", de Roger-Gérard Schwartzenberg (*1943). Leitura elucidativa, da maior qualidade.

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