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Estou cursando Psicanálise na PUCRS - Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Apesar de ser uma universidade séria, com excelentes professores, de ser um curso sério – uma universidade como a PUC iria querer diminuir-se? Formar maus profissionais? –, sofri dúvidas e "perguntações" (assim mesmo) de algumas pessoas. Umas puseram em dúvida a idoneidade do curso, confundindo-o com o de uns dias, em alguma "universidade Zé da esquina". E, mesmo eu respondendo às perguntas de "qual é a carga horária?", "não é um complemento para outra matéria? Não estás confundindo? Não deve ser Psicanálise. Isso é muito sério", seguiram duvidando da universidade e de mim.
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Teve gente, também, que, em face de eu dizer "não posso marcar um encontro agora", com toda a sinceridade do mundo (não requisitada) me disse: "quando vai acabar essa palhaçada ridícula?", geeente!
Outras detestaram o fato de que gosto de aprender, quero continuar a me aperfeiçoar e me perguntaram: "Mas quando isso tudo! (de estudar) vai terminar?!", pois não esperei nem um ano após terminar o doutorado para engatar outro curso. Minha resposta: NUNCA. Enquanto puder, vou continuar a aprender.
Não sei por que isso afeta tanto algumas pessoas. Não preciso de permissão, não pedi. Não tem consequência nenhuma para as pessoas. Só o fato de que esse estudo me faz bem, feliz e que, já em poucos meses, aprendi muito (acho eu; ao menos, mais do que sabia antes) sobre as tais pessoas e sobre mim. Aprendi que somos todos narcisistas, desde o nascimento, mas esse é um assunto técnico que deixo para meu exame. Mas descobri outras coisas também. Que muitos relacionamentos agora são descartáveis, supérfluos, superficiais, temporários. É como um liquidificador vindo de um país do oriente. Estragou? Não vale a pena consertar. Consuma! Compre um novo! (Há um/a amigo/a virtual te esperando na tela no próximo segundo, novo em folha!) Vale um ditado: "Diga-me com quem andas e te direi quem és" ou... hoje... "Diga-me o que e quanto consomes e te direi o que não és"...
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É nesse teatro de aparências que a singularidade agoniza. A mesma cultura que exalta o indivíduo e grita "seja você mesmo" exige, sussurrando nas entrelinhas, que nos diluamos na massa. Para pertencer, para ser amado no imenso tribunal das redes, é preciso abdicar do que se tem de mais único. Entramos no "todo mundo": o corpo tem que ser magro, o sorriso deve ser eterno, o sucesso precisa ser ostentado – e constantemente postado. O individualismo ruidoso, ironicamente, nos massifica. Ao expor a intimidade na vitrine do espetáculo, perdemos a posse daquilo que era estritamente nosso, um pedaço precioso do nosso próprio psiquismo. E a alma, despojada de sua substância mais particular, essencial e interior, experimenta o gosto amargo do vazio. É o desespero de um duplo vínculo: somos obrigados a mostrar quem somos para o lado de fora, embora, do lado de dentro, já não saibamos mais quem restou sob a fantasia. Um teatro. Um espetáculo. Uma obrigação. Para funcionar, precisamos de novidades, prazer. Qualquer postagem. Um café expresso? Serve. Uma salada de alface? Serve, na falta de grifes internacionais. Conheço gente que faz isso. Por isso, não uso mais Facebook ou Instagram. Tik etc.? Nem baixei. Não quero tomar parte nesse show
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É claro que alguns dirão que escrever também é show. É claro que é. Queremos compartilhar ideias, mas não peço likes. Gosto da interação. Ler outras ideias também, aprender com elas.
Toda essa fratura profunda ecoa nas práticas de escuta psicanalítica, desenhando as fronteiras de uma nova dor: a "Clínica do Vazio". Não estamos mais no território clássico de "uma neurose freudiana", onde o sofrimento nascia de um conflito "x", sob o peso de um Superego severo, mas estruturante, que nos puxava à Terra, à razão. O neurótico sofria por amor e por culpa; sua angústia era a da castração (limites), o medo da perda dentro de uma história tecida a três vozes — o bebê, o cuidador e o terceiro elemento que impunha o limite e abria as portas para o desejo e a consciência de perda (mãe/pai, mãe/mãe, pai/pai, mãe/trabalho, avô/avó etc.). O paciente do vazio, ao contrário, chega à clínica queixando-se de tudo e de nada, paralisado numa esterilidade melancólica. Falta-lhe o chão. É o reflexo de um tempo cujos laços se tornaram líquidos (ver Zygmunt Bauman, 1925–2017) e frágeis, onde o sujeito tenta desesperadamente negar a própria incompletude,
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Na aurora da vida, o bebê precisa ser o centro do universo, alimentado e investido pelo narcisismo absoluto dos pais. Mas a saúde da alma exige uma destronação necessária. É preciso que os cuidadores retirem, aos poucos, esse manto de infalibilidade e perfeição, permitindo que a criança atravesse a castração, que tenha limites estruturados (sem extremos de punição ou o contrário, permissividade) e descubra a falta — pois é a falta que nos faz caminhar em direção ao outro, admirando-o em sua diferença. Contudo, a sociedade contemporânea, muitas vezes agravada pela falência das promessas coletivas de um país que desampara seus cidadãos (e não honra seus impostos), estimula o recuo para um narcisismo primário e defensivo – voltamos à nossa sala de estar, ao "quarto-castelo", grades e portaria virtual, para nossa proteção, frente à falta de segurança nacional.
Mas parece que o ser humano de hoje não suporta a falta, a frustração. Quando percebe que o outro possui algo que ele não tem, o vazio se transforma em uma inveja corrosiva
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A propósito: recomendo a leitura de "O Estado espetáculo", de Roger-Gérard Schwartzenberg (*1943). Leitura elucidativa, da maior qualidade.







