O fato de o Prêmio Nobel ter se destinado a uma renomada poeta ressalta a preocupação da academia com a linguagem. Não que, na prosa, o trabalho com os signos esteja em plano secundário. Mas a poesia é por excelência o domínio em que o uso da língua ganha proeminência. A literatura renova nossa percepção do mundo ao renovar a linguagem com que o percebemos.
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Na ficção, a configuração dos personagens com seus movimentos e aspirações deve ser capaz de traduzir a visão de mundo do autor e dar sentido à obra. Na poesia, a verdade tende a se concentrar, por assim dizer, na urdidura dos signos, que se revestem de novos e múltiplos significados num processo de reinvenção que tonifica a própria língua. Um exemplo disso é a poesia de Augusto dos Anjos, em que o uso da terminologia científica e de vocábulos “apoéticos” concorre para promover uma ruptura com o código parnasiano-simbolista e abrir caminho para nossa modernidade literária.
A concessão do prêmio a Anne Carson, que tem vínculos com a literatura clássica, constitui também um tácito apelo a que se resgate o compromisso com a tradição – numa época em que o automatismo e a produção frenética (propiciada basicamente pela internet) parecem comandar a atividade da escrita. A poesia vai de encontro a essa pressa por exigir releitura e convivência com a ambiguidade.
Anne Carson consagrada escritora, ensaísta e tradutora canadiana, vencedora do Prémio Nobel de Literatura de 2026, laureada devido à sua obra ousada e inventiva que cruza os limites entre a poesia, a ficção e o rigor académico com um diálogo lúdico com a tradição clássica ▪️ Fotografia: Christine Olsson
O vínculo com a literatura clássica não significa abandono de modelos ou procedimentos que representam uma ruptura com o passado, um dos quais é a mistura de gêneros (na obra da autora misturam-se poesia, prosa, diálogo e tradução). “Autobiografia do vermelho”, um dos seus livros mais famosos, é um “romance em versos” que recria o mito de Gerião – gigante monstruoso que foi morto por Hércules. Ao mesmo tempo que constitui uma narrativa de formação, desejo e sofrimento, ela permite que se discuta a superação das fronteiras entre os gêneros.
Títulos de Anne Carson
A academia justificou a premiação “por sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”. Percebe-se nos textos de Carson uma tensão produtiva entre “respeito à tradição” e busca de reinvenção. O grande interesse por ela advém de que, em sua obra, a tradição se torna matéria de novos experimentos. Ou seja, nela o resgate dos clássicos se manifesta juntamente com a liberdade de transformá-los.
Anne Carson
Reescrever ludicamente obras clássicas propicia ao leitor um prazer que não decorre apenas das artimanhas com que o homem, em sua hybris, procura escapar da submissão aos deuses (para citar um topos importante desse tipo de literatura); pode ser também fruto do jogo “desinteressado” com as palavras. Conforme a autora afirma em uma de suas entrevistas, traduzir “é como resolver um jogo de palavras cruzadas interminável, mas com um produto valioso ao final. E esse estado mental de estar resolvendo um quebra-cabeça é simplesmente a melhor coisa.” O quebra-cabeça comporta escolhas cujos efeitos ultrapassam o mero encaixe vocabular.
Apresentar a literatura como jogo é uma das principais características da poesia. Um jogo sério, em que a expectativa pelo que há de novo e imprevisto alimenta o movimento das peças e mantém presos os jogadores – no caso, o escritor e os que o leem; o rigor da linguagem implica também um rigor da percepção. A ideia de jogo, enfim, ressalta no fazer literário o trabalho com os signos, que nessa perspectiva são apreciados tanto pelo seu valor imanente quanto pela possibilidade de engendrar sentidos novos – tarefa por excelência da grande literatura.